A raposa (literalmente) volta a tomar conta do galinheiro

Freerange
Sabe-se lá porquê, um belo dia em 2011, um vaga-lume se acendeu no Senado com uma medida pequena - mas emblemática (seria um lampejo?). Um ato do Senado proibia que os senadores dessem parecer para a outorga de emissoras de rádio e TV em seus próprios estados. A justificativa é óbvia. Antes, o interessado tinha que ir beijar a mão do seu senador para ver o seu pedido seguir. E aí, você sabe, como uma mão lava a outra... Foi uma medida do Senador (eleito) Eduardo Braga (PMDB-AM).
 
Não era muita coisa, mas, pelo menos, era uma tentativa de moralização. Pífia, é verdade (o tal senador podia ir lá negociar com o colega que, por sua vez, poderia precisar dele em igual necessidade em outra situação), mas, vá lá, era alguma coisa...
 
Bem, não é mais. Zezé Perella, suplente de senador (me recuso a chamar de senador alguém que nunca recebeu um voto para esse cargo e se aproveita da morte de um parlamentar legitimamente votado), presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (algo totalmente impertinente com sua atuação profissional, diga-se de passagem) cancelou essa última piscada de moralidade. Segundo o suplente, o tal impedimento dificultava aos demais colegas uma melhor análise, já que não conheciam a realidade do Estado. Agora, essa análise é tarefa exclusiva dos senadores ou urubus de mandatos de cada Estado. Volta-se o beija-mão que vossas excelências tanto gostam. E, certamente, a troca de favores locais.
 

Como todos sabem, a enorme quantidade de televisões e rádios no Brasil pertence aos políticos profissionais.

Oficialmente, conforme o próprio Ministério das Comunicações, são mais de 50 parlamentares declaradamente donos de emissoras, algo que insulta a Constituição. Eles utilizam uma ginástica jurídica para manter-se. São números assustadores: 291 TVs, 3.205 rádios e 6.186 retransmissoras comerciais pelo país. Gente fina como os Sarney, no Maranhão, os Collors, em Alagoas, os Barbalhos, no Pará.

A lista pode ser conferida no site Câmara em Foco.

Já outras fontes, como o Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (Epsom), calculam que sejam muito mais, acima dos 270 políticos. Mesmo assim, somente aqueles que possuem vínculo direto com as emissoras fazem parte desta lista. São informações do site Observatório do Direito a Comunicação.

Se formos contar parentes e laranjas,  mais da metade dos nossos políticos em Brasília tem uma emissorazinha para chamar de sua. E não estamos nem contando os deputados estaduais, vereadores, prefeitos, governadores e dos os ex disso tudo aí atrás.

Daí se vê a impossibilidade de mudar qualquer legislação que não seja de seu interesse.

Caso não seja do conhecimento de todos, Zezé Perrela foi presidente do Cruzeiro que tem como mascote a raposa. Nada mais propício, portanto, que legitimar a ideia da raposa novamente tomar conta do galinheiro.

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