segunda-feira, 3 de abril de 2017

Lixo pode e deve ter Gestão Social, para não nos afogarmos nele

Lixo urbano na Indonésia. Foto: Wikimedia /CC in: Observatório da Imprensa

Vamos nos afogar em lixo. Essa é a impressão que eu tenho. No início dos anos 1990, quando morava nos EUA, me assustava muito a quantidade de resíduos sólidos que as residências produziam diariamente. No Brasil daquela época ainda havia muito do granel, sem ênfase nas embalagens, com um lixo com características mais orgânicas. Achava que a gente era mais avançado ecologicamente!

Ledo engano. Éramos só atrasados na sociedade de consumo. Tudo tem que ter embalagem para maximizar o processo de produção e distribuição, para atrair consumidores por aspectos não inerentes ao produto, e para outras vantagens do varejo que não tenho competência para opinar. Aqui interessa apenas saber que o tal 'progresso tecnológico' está nos afogando em lixo.

Como se o excesso de embalagens já não fosse o suficiente, o lixo eletrônico segue a mesma toada. Os fabricantes de TV querem que troquemos de aparelho a cada três anos. Acha exagerado? Os smartphones já são trocados anualmente, com o apoio, inclusive financeiro, das operadoras de telefonia. Impressoras são descartáveis, já que sua manutenção é, propositalmente, mais cara que uma nova. Os computadores de mesa domésticos estão também a caminho do lixo, sendo substituídos em casa por dois, três notebooks que, também em cerca de três anos, perdem capacidade de processamento. Então, vamos nos afogar em lixo!

Cristiana Andrade é uma jornalista ambientalista preocupadíssima com isso. Sua cidade, Belo Horizonte, já tem um projeto de coleta seletiva há mais de duas décadas que, com trocadilho, é um lixo. O país tem também regulamentação desde 2010, dentro da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Boa parte do lixo descrito acima tem destinação econômica, ou seja, se separar, há quem queira. Então, porque já estamos com o lixo pela cintura?

Cristiana desenvolveu uma pesquisa para o seu mestrado profissional e descobriu que falta as partes conversarem: prefeitura, catadores, cooperativas, receptadores de material reciclável, população que produz o tal lixo. Tive a honra e o prazer da aprendizagem ao acompanhá-la no Programa de Pós-Graduação em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA. E uma parte importante dos seus resultados foi publicado na Revista Mundi - Meio Ambiente e Agrárias do Instituto Federal do Paraná, intitulado Gestão Social como possibilidade de articulação entre a Política Nacional de Resíduos Sólidos e a Sociedade.

Segue seu resumo:

A questão ambiental ganha contornos cada vez maiores no mundo. Lidar com os resíduos sólidos urbanos é um desafio para todos os países, ricos e pobres. O Brasil tem, desde 2010, nova legislação sobre o lixo, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que tem diretrizes a serem seguidas por estados e municípios. Uma das mais importantes é a construção, por cada uma das 5.570 cidades, do plano local de resíduos, um detalhado documento que vai nortear todo o seu gerenciamento. Pressupõe-se que esta construção deva ser feita com a presença dos cidadãos, empresários e setor público, uma vez que os resíduos sólidos urbanos são responsabilidade de cada cidadão e não apenas do Estado. Dentro desse contexto, toma-se a problemática do lixo como objeto de reflexão desse artigo, considerando que a PNRS apresenta a ideia de gestão compartilhada, que responsabiliza cada pessoa pela geração do seu rejeito, e prevê educação ambiental e a participação social como opções para envolver toda a sociedade no processo de reduzir os resíduos. Foi feito um estudo de literatura, a partir da pesquisa bibliográfica, e um estudo do caso de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, que há 21 anos tem um projeto de coleta seletiva. A partir daí, tenta-se articular os conceitos e propostas da gestão social e comunicação para fazer a interface da lei com a sociedade

Cristina, como comunicadora, também fez uma análise da comunicação social no Observatório da Imprensa, com dicas de como os comunicadores e os usuários em geral podem ajudar no processo, intitulado A imprensa e a redes sociais na guerra contra o lixo.

Tomara que seu trabalho encontre a mesma sensibilidade e cuidado com que escreveu por parte de quem vai ler.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Pare de olhar seu celular: não somos multitarefas

Você pode estar parando seu raciocínio 80 vezes por dia! O motor não aguenta.... Crédito: pixabay CC0 Public Domain
Quantas vezes você olhou no seu celular hoje? Pode desconsiderar aquelas olhadas para ver as horas. Conte apenas quando teve que desbloquear, porque aí você estava motivado para fazer alguma atividade que exige mais atenção. Então? Chute alto. Umas vinte vezes? Pois saiba que os brasileiros conferem seus celulares 78 vezes em média, por dia. Agora imagine qual seria o desgaste do seu carro se você ligasse e desligasse ele nessa média diária? Você acha que quem é mais forte, seu cérebro ou o sistema de ignição do seu veículo?

Esqueça essa conversa fiada de que somos multitarefas. Nosso cérebro é uma parte de nossa fábrica totalmente desproporcional quanto ao seu custo energético: ocupa 2% da área, mas consome de 20 a 25% da energia. Além disso, se você acredita que ele está ali para você guardar o que de legal você leu para depois usar na entrevista de emprego ou para ficar bem na conversa do bar, esqueça. Apenas 10% do seu funcionamento é para sua parte racional. Ele tem mais o que fazer, manter você vivo, controlando os sistemas respiratório, circular, digestivo, imunológico....

Pensar, portanto, não é a sua prioridade e, assim, quando você presta atenção em alguma coisa de forma racional, está consumindo uma energia desproporcional ao custo benefício imediato. Então, saiba, seu cérebro não estará de bom humor para isso. Imagina se você quiser prestar atenção em duas ou mais coisas ao mesmo tempo? Assim, ele estabeleceu uma regra: uma coisa de cada vez. Você pode até assistir sua novela, tuitando na sua rede social, mas ele estará focado apenas em uma delas, com verdadeira atenção, jogando as outras coisas para um sistema periférico da mesma importância da chuva lá fora. Se algo chamar a sua atenção na TV, do ponto de vista do próprio cérebro do que ele acha que você deve prestar atenção (geralmente a ver com sua sobrevivência no seu meio social), ele desliga seu WhatsApp no seu olhar, para que levante a cabeça e veja o que está rolando. Esse processo pode acontecer em frações de segundos, mas, saiba, é um de cada vez. Com seu correspondente gasto de energia desproporcional.

Portanto, sim, somos multitarefas se uma das tarefas for racional e as outras forem instintivas, ou inconscientes, ou condicionadas, conforme sua visão do que seja o seu comportamento usual.

É como dirigir um carro. Em boa parte, vai no automático. Mas toda a vez que temos que tomar uma decisão diferente do usual, é preciso desligar o piloto automático e gastar um bocado de energia. É a diferença entre o caminho de ida e volta que você faz todo o dia com aquela festa em um bairro que nunca foi e seu GPS não está funcionando. Em qual lugar você vai chegar mais tranquilo, com menor esforço e, portanto, menor gasto de energia?

Se eu parar de escrever esse texto para abrir o meu celular porque ouvi o barulhinho do WhatsApp, é como se eu largasse um caminho predefinido de forma abrupta para pegar uma rua à direita, que eu não sei onde vai dar. Quando eu vir que não vai dar em nada (na melhor das hipóteses, pois posso pegar o caminho do grupo da família e simplesmente parar ou ir para outro lugar totalmente diferente), para retornar ao problema inicial (escrever esse texto), o cérebro tem que gastar uma energia extra para retomar da onde estava, quando não, como nas antigas fitas VHS, ainda voltar um pouquinho para pegar o embalo. A cada vez que ele faz isso, é mais um consumo desproporcional de energia. No carro, a cada mudança de direção que o afasta do caminho original, gasta-se a gasolina, a direção hidráulica, os sistemas elétricos para dar seta, e o sistema de ignição, caso você ainda tenha parado totalmente para entender o WhatsApp e dar prosseguimento, enviando resposta, reencaminhando etc.

Mas, se no automóvel esse gasto fica dividido entre as partes do veículo, o seu cérebro é apenas um. Os desgastes são todos num aparelho só. Agora, imagine fazendo isso quase 80 vezes por dia? Entende porque estamos ficando cada vez mais cansados, embora a tecnologia aparentemente vem para nos deixar mais ociosos? Porque, como tudo que a humanidade faz, da faca ao WhatsApp, utiliza-se para nos aprimorar ou nos angustiar.

O importante é que o cérebro, embora tenha essa preguiça em pensar, é também representante dessas nossas neuroses de gostar dos opostos na mesma proporção. Portanto, ele também é chegado em um desafio e, por isso, nos coloca para pensar. O problema é que isso deveria, para ele, ser apenas no exercício do aprimoramento, e não de uso redundante de energia cara. Ou seja, se eu ficar atendendo o WhatsApp a todo o momento, ao final do dia eu posso até ter acabado de redigir esse texto, mas usaria uma quantidade de energia com tivesse feito cinco textos. Portanto, estarei exausto.

Você anda cansado? Está culpando quem? O trabalho, a família ou a tecnologia? Quanto essa última, antes de jogar pedra, pense que foi você que ligou, e que é possível desligar da tomada ou, mais simples, colocar no silencioso ou fazer log off. Quando acabar o texto, a aula, a reunião, o jogo, o filme, a conversa com a pessoa do lado, a tecnologia ainda estará lá e, aí, pode lhe dar também uma atenção mais plena e mais saudável. Seu cérebro vai agradecer.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Educação Infantil e Novas Mídias

Página da Cartilha Formação de Professores em Linguagem Digital para docentes de Educação Infantil.
 
Tenho a impressão que o único segmento da educação brasileira que tem dado um certo orgulho é o da Educação Infantil. Não estou nas salas de aula pelo país, e minhas impressões são restritas ao meu nano ambiente e aos dados estatísticos que, porventura, chegam às minhas vistas. Portanto, pode ser uma visão enviesada ou, talvez seja a resposta, a Educação Infantil é fonte de esperança para os educadores tristes como eu e, desta maneira, ao ver ou imaginar crianças brincando, sem a ditadura de um currículo acachapante ou de professores pressionados a dar resultados estatísticos, ali está uma utopia para a educação como um todo.

Fato é que, incentivado pela então mestranda Fernanda Câmpera Clímaco, que dedica a sua vida à educação infantil como um todo - ajudando professoras, gestores e alunos, pude entrar mais nesse mundo, ainda um ambiente de aprendizagem um tanto puro de neuroses típicas da educação formal. Não que não existam metodologias, referências teóricas, práticas educativas sistematizadas, ou seja, todo um sistema elaborado para educação, mas me parece que ele está a serviço da relação sensorial e afetiva entre alunos, professores e escola. E não para atender uma determinada política de resultados, que vise mais relatórios estatísticos do que o crescimento pleno dos nossos jovens cidadãos.

Vendo as novas creches públicas, as tradicionais escolinhas privadas pelos bairros, é delicioso ver como as crianças se mostram integradas ao ambiente e como voltam para casa mais iluminadas, encantadas com o mundo, e animadas com o seu conhecimento conquistado. Meu filho, naquela ocasião, ensinava a todos a diferenciar lixo orgânico do lixo reciclável. Meu sobrinho tem enorme prazer em apontar as letras que ajudam a identificar o nome do coleguinha. E, bem, me dá a impressão que o ensino fundamental faz alguma coisa com esse encantamento que o enterra como se devesse pertencer apenas ao mundo da fantasia.

Atenção, não é um problema com os professores. A vida deles não é fácil. Como manter o encantamento se o volume de novas informações é acachapante, que a cobrança por resultados estatísticos supera o da busca pela felicidade dos seus alunos, onde o salário não permite uma dedicação maior para uma escola e um número saudável de alunos a servir como mentora? O problema é imaginar que educação, assim como a higiene bucal, pode ser medida pela quantidade de questões acertadas como cáries na boca das crianças.

A tecnologia nas escolas segue a mesma toada que a educação como todo, mais preocupada com o instrumental do que com a apresentação de um mundo a ser vivido e convivido. Assim, é de se imaginar que não deva estar na Educação Infantil. Ainda mais que sua conotação negativa - tecnologia como desvirtuadora da educação -, novas TIC deveriam passar longe dos ambientes infantis.

Fernanda não se conformou com isso. Afinal, não cabe mais pensar que é possível afastar, mesmo as crianças pequenas, dos novos tempos midiáticos. Ainda mais que os próprios pais encontram em uma Galinha Pintadinha ou numa Peppa Pig a babá perfeita, que deixa a criança quietinha e ´aprendendo´ em casa, no carro, nas visitas, nas festas de adultos... Sendo que a outra alternativa é reclamar sobre a opressão das novas mídias e o descaso dos pais, lavar as mãos e tocar sua sala infantil como no Séc. XX, Fernanda tem feito uma grande campanha para, não só não ignorar as novas mídias, como levá-las para as creches e salas de Educação Infantil.

Consultora e pesquisadora, uma pequena parte do seu trabalho já pode ser visto, tanto em seu site, como na publicação de parte de sua dissertação na Revista Olh@res, da Unifesp. Lá está o artigo  Formação reflexiva em linguagem digital para professores da educação infantil. Além de discutir o que se propõe o título, se quer "oportunizar posturas reflexivas e participativas dos docentes no contexto escolar e local". Fernanda foi a campo,  com professores em duas Unidades Municipais de Educação Infantil, as UMEI de Belo Horizonte e, como lhe é peculiar, não se conformou em só ver. Elaborou uma proposta de intervenção para a Formação em Linguagem Digital para Docentes da Infância. "Está organizada a partir de oficinas, como estratégia de fortalecimento e construção de novas posturas educativas, na perspectiva de uma pedagogia investigativa e reflexiva, a fim de gerar novas ações e saberes docentes contextualizados com a era digital". Ou seja, fez um manual. É pegar e adaptar para cada escola.

Seu trabalho foi selecionado para a apresentação no 4o. Congresso Literacia, Media e Cidadania, em Porto, Portugal, em maio. São trabalhos assim, e educadoras como Fernanda Clímaco, portanto, que nos dão uma certa esperança que educação ainda tem jeito no país.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Oba! Acabou o ranking do ENEM!

Classificação do MEC era controversa, mas atendia um fetiche das escolas Imagem Pixabay CC0 Public Domain
"Primeirão!" Então, não é de hoje que queremos ser o primeiro. Desde criança, estar à frente era algo desejável. Fora as questões antropológicas, sociais e psicológicas do porquê desta necessidade, e que nos é inerente, o importante é que a Educação deve ser a prática que nos coloca de volta aos eixos, neste caso de que só um pode ser o primeiro e que os demais não devem ser depreciados por conta disso. E que ser o primeiro tem um custo alto e, em grande parte, pouco prazeiroso e satisfatório fora aquele momento de levantar a mão, cruzar a linha final ou aparecer no topo da lista do ranking. Bem, deveria ser a prática da Educação, pois não parece ser o caso de muitas escolas por aí, focados na fita de chegada.

Isso, tudo isso para comemorar a decisão do MEC de não mais divulgar uma lista com as escolas que tiveram alunos com as maiores notas no Exame Nacional do Ensino Médio. O combatido ranking nacional era, para sujeitos e organizações preocupadas com a Educação, um desserviço que ajudou a deturpar ainda mais uma boa ideia, o ENEM. Idealizado como um substituto mais justo dos vestibulares - inclusive socialmente -, e com a intenção de diminuir a cobrança da decoreba ao enfatizar a avaliação de aspectos mais voltados ao uso do conhecimento na análise crítica da vida cotidiana, o Exame foi sendo desidratado à medida que ia recebendo críticas, e não conseguiu segurar o rojão.

Há uma ânsia por números, um fetiche desproporcional que infesta o setor educacional, da escola básica à CAPES (Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior, órgão do MEC que administra o segmento de stricto-sensu-  mestrados e doutorados). O ENEM, no seu início, ia em direção contrário. Queria que o aluno não demonstrasse que decorou o conteúdo com o único objetivo de entrar na faculdade. E sim que pudesse comprovar que sua passagem pela escola o ajudou a entender melhor o seu mundo, principalmente com capacidade de entender as diversas linguagens que esse mundo lhe apresenta para a sua interpretação: a línguas pátria e estrangeiras necessárias, a matemática, a geografia, a biologia, interpretando textos e enunciados, gráficos e mapas, iconografias e representações esquemáticas da vida social e natural. Tudo isso para que desenvolvesse uma capacidade ainda mais importante, a de argumentar, resolver problemas práticos e do cotidiano, apresentar ideias concatenadas e propostas de intervenção. Enfim, ser um cidadão.

O problema é que não dava para medir isso em números. Dizer quantos alunos saíram da minha escola, com capacidade de argumentação, melhores do que dos alunos do meu concorrente. A pressão pela competividade mensurada - e não em prol da melhoria da qualidade de ensino como um todo - foi mexendo, inclusive, com as questões das provas do ENEM, pouco a pouco voltando às cobranças pela decoreba e deixando de lado o projeto inicial. O ápice da vitória do fetiche numerólogo era o ranking das escolas, oferecido graciosamente pelo MEC, sem discriminação e fiscalização do uso desvirtuado de sua informação. Agora sim, o diretor poderia volta à infância e gritar "primeirão".

Num insight, o MEC, portanto, acabou com o campeonato. Imagino, claro, que não foi por uma questão divina, baixou uma consciência educacional nos nossos servidores, que, agora, voltaram a partilhar da filosofia inicial do ENEM. Provavelmente, as escolas que não conseguiam gritar 'primeirão' cansaram de brincar. Ainda mais que viram que foram vítimas de seu próprio fetiche que, como tal, tem pouco lastro moral. Escolas 'espertinhas' selecionavam alunos com excelente desempenho, criavam pequenas escolas fictícias, mas com nome igual a escola maior e, proporcionalmente, catapultavam-se para o topo do tal ranking. Nada melhor para provar a veracidade da conhecida frase do político britânico Benjamim Disraeli (1804-1881), de que existem mentiras, mentiras deslavadas e as estatísticas. 

Entenda, não sou contra ranking e mensurações, muito pelo contrário. Soltar a Educação ao Deus dará nunca deu certo nem dentro de sala, imagina fora. São necessárias avaliações que possam mensurar o avanço dos estudantes dentro de um projeto pedagógico, este apropriado à idade do estudante e as habilidades e capacidades necessárias para sua atuação social, filosófica, instrumental e cidadã na sociedade que pertence (ou queira pertencer). E um pouco de competitividade não é mal, faz parte da nossa índole ("primeirão!") e nos informa em que ponto estamos no contexto médio. O problema é fazer disso um estilo de vida!

As escolas deveriam mesmo comemorar o término do ranking. É inegável que elas sofriam mais do que ganhavam. Sob pressão dos próprios pais e alunos, que também achavam ótimo medir conhecimento olhando uma tabela oficial do ministério de educação de seu país, as mais sérias se viam obrigadas a desvirtuar suas premissas pedagógicas para não perder mercado. Um segmento que é só ladeira abaixo, já que as instituições mais tradicionais nasceram em uma época com média de 3 a 4 crianças por família, construíram estruturas físicas e orçamentárias para tal, e agora atendem casais com média de menos de dois filhos.  Acrescentam-se crises econômicas, maiores exigências em formação de professores e estruturas laboratoriais, concorrência de aglomerados mercantis que visam mais o lucro do que o ensino, e se vê que ser diretor financeiro de escola que quer honrar a tradição de uma Escola Nova,  namora um Construtivismo, gosta de um Rubem Alves, bem, ele não tem o melhor dos empregos.

Mas não nos entreguemos ao entusiasmo. Alguma coisa virá para ocupar esse espaço, fetiches não são descartados, apenas mudam o objeto de desejo. Talvez as escolas voltem àquelas estratégias publicitárias antigas, de colocar faixa na rua dizendo os alunos que passaram na federal, os que passaram em primeiro lugar e se aproximem das campanhas dos pré-vestibulares, do tipo "maior número de aprovação na UFMG". É triste, mas ainda assim é melhor do que a frustração dos segundos colocados para baixo.

O bom mesmo seria era aproveitar o pequeno espaço de tempo antes da próxima 'esperteza' das escolas do mal e chamar pais, alunos, professores, funcionários como a bibliotecária, a secretária e o porteiro para se transformarem em uma verdadeira comunidade escolar, apontar as grandes vantagens de um projeto pedagógico centrado no crescimento do conhecimento dentro deste aluno, com o objetivo simples de construir um cidadão crítico, antenado e com ferramentas que o capacitem para buscar sua felicidade sem ter que superar o outro e, de quebra, contribuir para a melhoria da qualidade de vida de ambos.

A vantagem de não ter que perseguir o primeiro lugar na linha de chegada é poder ir apreciando e aprendendo com o caminho.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Enem e um Colégio Militar

Edição que traz resultado de uma pesquisa sobre o ENEM e o impacto em um colégio militar.

O Enem é uma prova de que o inferno está recheado de boas intenções. O Exame Nacional do Ensino Médio surgiu cheio de boas ideais. Primeiro, criar uma métrica no país que pudesse servir para substituir os defasados vestibulares. Como uma consequência positiva, servir também de parâmetro para outros processos de seleção, como bolsas e estágios. E o melhor de tudo, aproveitar que se vai mudar o paradigma de entrada no ensino superior, mudar também o paradigma de avaliação: que tal cobrar menos conteúdo estanque de apostila e mais raciocínio, conexões entre o conhecimento e a realidade, aplicação real daquilo que é dado em sala de aula?

A ideia era ótima, mas, ao que parece, uma boa parte deu errado. O que era para revolucionar o ensino virou cartilha para sobreviver a uma corrida maluca para uma vaga em uma universidade, preferencialmente pública. Se antes do ENEM só víamos nos cursinhos pré-vestibulares aquelas superestimulantes aulas com fórmulas para se acertar as questões, pouco se lixando se aquele conteúdo faz sentido na vida daquele jovem, tal metodologia do absurdo da educação contaminou boa parte das escolas, independente se pública ou privada, se antes boas ou ruins. Com a divulgação de rankings, aí sim virou uma gincana nacional de quem consegue mais pontos no ENEM, sendo os alunos os pilotos involuntários de equipes mecânicas de Fórmula 1 do ensino.

A provas iniciais do ENEM até que tentaram manter o projeto inicial, menos decoreba e mais raciocínio. Durou pouco. Sob pressão, já que as escolas e os pais não estavam preparados para (e, desconfio, que nem queriam)  pensar a Educação como desenvolvimento do pensamento, da análise crítica e da postura cidadã de seu jovem, parte significativa das questões voltaram a representar aquela velha cantilena de lembrar de conteúdo com pouca serventia na vida prática. 

E a Educação, com letra maiúscula, que visa o crescimento e adaptação do jovem em sua sociedade através do conhecimento científico herdado da humanidade fica para depois, ou torcendo que seja um efeito colateral positivo desta corrida.

As consequências para as escolas foram nefastas e, admito, nem sempre elas poderiam fazer muito diferente, haja vista que a cobrança pelos pais de um bom resultado dos filhos no ENEM também virou prerrogativa (e dane-se se a decoreba não está fazendo o seu filho ficar preparado para a vida!). Já imaginaram isso em um colégio militar? Onde a 'disciplina' tem um conceito diferente daquelas descrições na grade escolar? Mas que também é considerada, já há algumas décadas, referência em ensino de qualidade? Como essas escolas encararam o ENEM? Mantiveram-se altivas em sua posição ou também entraram na corrida maluca?

Não dá para saber de todas as escolas, mas dá para, através de uma, imaginar como deve ter ocorrido com as outras. E, se houve o impacto em escolas conhecidas pela qualidade do egresso e pela sua orgulhosa autonomia perante o segmento de ensino, pode-se temer pelas demais. Foi esse o objetivo  da pedagoga Celina Maria Barbosa Palhares ao desenvolver a sua pesquisa O ENEM e as mudanças nos métodos de avaliação da aprendizagem: um estudo sobre a influência no Ensino Médio de uma escola mineira. Além da dissertação, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local, do Centro Universitário UNA/MG, o resultado pode ser conferido no artigo O ENEM e o Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Patos de Minas, publicado pela Revista Alpha, no seu volume 17, no. 2, de ago/dez de 2016.

Infelizmente, Celina nos deixou muito, muito, muito cedo. Uma querida educadora pelos seus estudantes, uma carinhosa mãe e esposa, uma afetuosa irmã, e uma excelente mestranda que tive o prazer e a honra de compartilhar sua investigação.

Partiu nosso coração com sua partida no ano passado. Sua contribuição científica é apenas uma pequena parte do que nos deixou, afortunados que tiveram o privilégio de compartilhar de sua companhia.

Aqui, as palavras de Celina que resumem seu texto:

Este artigo resulta de uma investigação específica em uma unidade escolar pública, o Colégio Tiradentes, da Polícia Militar de Minas Gerais, da cidade de Patos de Minas/MG. A pesquisa foi desenvolvida por meio de um estudo de caso descritivo, com abordagem qualitativa, realizando levantamento e análise dos documentos referentes às diretrizes da avaliação (crenças, valores e princípios) no Regimento Escolar e o Programa de Avaliação do Ensino Médio (ENEM). No estudo dos documentos, como material primordial, foi extraída a análise, organizando-os e interpretando-os segundo os objetivos da investigação, para identificar a influência do ENEM, adotado como forma de seleção unificada nos processos seletivos das universidades públicas federais, na prática avaliativa do ensino médio, especificamente, no caso estudado. Também foram realizadas entrevistas semiestruturadas, ouvindo diretoria, supervisores, pedagogos e professores, que revelaram sua compreensão sobre o ENEM, a avaliação da aprendizagem e os momentos desta avaliação dentro do processo de ensino. Essas categorias ainda foram subdivididas em outras subcategorias na tentativa de construção de um quadro de compreensão que pudesse retratar as relações e as impressões dos educadores com o ENEM, e o impacto deste conjunto nas salas de aula.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Pós-verdade tem pouco de pós e muito de humano

Quem acha que pós-verdade é algo novo, devia ler esse clássico

A palavra da moda é a "pós-verdade". Em 2016, o Dicionário Oxford a elegeu (post-truth) como a de maior destaque do ano. Para os britânicos, é um adjetivo e, portanto, precisa de um substantivo para puxar o saco ou denegrir. Mas, tal a quantidade de artigos e debates que tem sido alvo, a palavrinha tem se destacado mais como um nome próprio (estaria, ela mesma, virando uma pós-verdade?). E, geralmente, está intrínseca a algo moderníssimo, criado pela sociedade da informação e pela profusão das mídias sociais eletrônicas. E pela guinada à direita da humanidade, que agora sufoca a verdade através de suas manipulações. E que estamos, portanto, a beira do abismo ao entrar em uma nova era, a era da pós-verdade. Bobagem. A tal pós-verdade sempre existiu, é inerente ao homem e gostamos bastante dela, sendo de esquerda ou direita. O que é verdade é que, realmente, é um adjetivo: o homem é pós-verdade!

Segundo Oxford, o adjetivo seria a representação do que está relacionado ou denota circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na formação de uma opinião pública do que apelos emocionais e crenças pessoais. Quando elevada a condição de substantivo, representaria a mentira disfarçada de verdade, ou uma mentira que pode ou não ser uma verdade, mas que isso não tem importância para quem a consome, uma vez que serviria apenas para confirmar seu julgamento e preferência, suas emoções e credos.

Mas, primeiro, para entender o que é pós-verdade é preciso pensar no que seria essa tal verdade que se supõe ser herdeira. Deixo para os filósofos o aprofundamento da questão, mas basta-me pensar que verdade já é, por si, algo bastante incerto. Depende do ponto de vista, e de que lado você está do fato. E quais as variáveis que estão em torno... ou seja, é difícil determinar até se ela existe como algo único. Por mim, acredito até que a verdade verdadeira, em sua maioria das vezes, é, muitas vezes, cruel, ou irreal, ou ambas. E, portanto, muito dificil de encarar. Em grande parte, somos violentos contra os outros e contra nós mesmos (física e emocionalmente), vingativos, moralistas hipócritas, e encarar nossas dificuldades sociais nunca foi nosso forte. Por outro lado, a humanidade também é muito criativa, com grande capacidade de percepção e adaptação, de resiliência,  dura na queda e senso (ou necessidade) de vida em grupo.

E como resolvemos esse impasse? Ora, sendo pós-verdadeiros. O que é a religião, as históricas épicas dos antepassados e, por que não, a busca pela ciência? Todas as três manifestações estão nos primórdios da humanidade. Afinal, qualquer que seja a religião, não é exatamente a procura de uma formação de opinião pública apelando para a emoção e crenças do que por fatos concretos? Que Tiradentes se parece com Jesus ao invés de um Forrest Grump às avessas? Que a Terra gira em torno do Sol (até pouco tempo atrás), que temos planetas habitáveis logo ali (essa é atual)? Tudo isso não pode ser julgado como uma mentira disfarçada, que pode ou não ser verdade, mas isso pouco importa, pois o que queremos dela é apenas o conforto de uma certa ordem no caos que é a verdadeira verdade? E o que vai, ao final, decidir o que é certo ou errado é o que sinto, e não o resultado de uma profunda análise crítica da mídia. É triste, mas é assim que caminha a humanidade. Para o mal, mas também para o bem, já que graças a tudo isso criamos cenários imaginários e tecnologia em que pudéssemos a prova a tal pós-verdade, e avançamos enquanto espécie.

Ah, mas agora estamos sendo manipulados por aqueles que detêm o poder da mídia eletrônica! Mas, o mundo antigo da pós-verdade também nos ensinou que, para acreditarmos em nossa suposta ética moral, tínhamos que construir uma delas, e pensamos que existe um jornalismo isento, que está unicamente compromissado com o interesse público. Exceto por alguns espasmos muitos dos ocasionais, e com duração ainda mais limitada, a impressa e o jornalismo sempre foram compromissados com os poderosos. A comunicação, enquanto produto, não se difere dos demais e, como os demais, sempre foi um meio de produção que visa os interesses daqueles que o detêm, e isso independente da linha ideológica partidária. Esquerda e direita sempre manipularam seus produtos - da agricultura à impressa - conforme o que acreditavam ser a sua verdade.

As primeiras agências de notícia surgiram quando alguns nobres descobriram um ótimo negócio. Se enviassem cavaleiros pelos reinos, recolhendo notícias, fariam um clipping com as principais e devolveriam aos reinos com aquelas de interesse de cada feudo. E, claro, a de seus próprios interesses. Ora, com as informações em mãos, o poder de expor, ou preservar um reino com dificuldades financeiras, ou direcionar uma filha solteira para futuro enlace político-matrimonial, pertencia a esse avô da Reuters, a maior agência de noticias do mundo. De lá para cá, o que mudou? Apenas uma pressão pública por um jornalismo mais isento, mas utópico, inalcançável. Não há dúvidas que as qualidades da humanidade têm ajudado a diminuir bastante essa característica do negócio, a tal ponto de até acreditarmos, em outra pós-verdade, de que era possível.

Então, se essa tal pós-verdade é inerente ao ser humano, joguemos a toalha? Obviamente que não. Nossa história também já provou que somos mestres também em questionar nossas pós-verdades e é, através deste movimento, de melhorarmos. Esse próprio momento mostra que nos aproveitamos das pós-verdades das mídias eletrônicas sociais mais como um conforto do que realmente uma janela para a sociedade. A Pesquisa Brasileira de Mídia de 2016, que entrevistou mais de 15 mil brasileiros, mostrou que as notícias veiculadas na internet são as que menos eles confiam.

E porque ele dá tanta bola, repassa para seus grupos, discute nas mesas de boteco? Porque uma fofoca tem seu papel histórico-social, como bem nos lembrava José Ângelo Gaiarsa, no clássico dos anos 1970, Tratado Geral sobre a Fofoca: uma análise da desconfiança humana. A fofoca e a pós-verdade fazem parte do mesmo jogo neurótico e ambíguo que gostamos, o de ser mal e bom com o apoio dos meus, mas, ao mesmo tempo, desconfiar que a tal verdade não está exatamente ali.

Fazer da pós-verdade algo moderno, desassociado de nossa história e forma de ser, está mais para um desserviço que pouca ajuda a entender os fenômenos das redes sociais. E, como tal, ajuda muito mais na criação de mitos diversionistas, como a ideia do surgimento de uma nova humanidade. Quanto mais repensarmos em nossas motivações e necessidades, o que somos e o que queremos de fato, e o quanto isso está impactando nas novas tecnologias (e não o contrário), melhor encontraremos soluções para nos manter no fio da navalha que é ser humano.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Atletiba e outros contos da TV X Futebol

Não rolou! Mas não é de hoje que cartolas têm uma relação errada com a TV. Será que a coragem paranaense pode mudar o jogo? Crédito: site do Coritiba.

As equipes de futebol do Atlético-PR e Coritiba se recusaram, mesmo diante de 20 mil pessoas, a disputar o clássico, conhecido como Atletiba. Tudo isso por causa do YouTube. Será tal ato de coragem o inicio de uma revolução, digna da transposição do mundo analógico para o digital? Só o tempo dirá se é uma esperança ilusionista ou mesmo um marco para a democratização da comunicação esportiva. O histórico não é favorável e tenho algumas pequenas histórias para ilustrar. Mas, também eram outros personagens, e em outros tempos. Será?

Primeiro, a história mais atual e impactante. Os dois principais times do Paraná, e também da elite do futebol brasileiro, Atlético-PR e Coritiba, iriam jogar neste domingo, dia 19 de fevereiro. Que beleza, torcida compareceu, um clássico de grande rivalidade, início de ano propenso a essas disputas locais. Mas tinha um problema de ordem econômica e de comunicação social. Ambos os times não fecharam os direitos de transmissão dos seus jogos com a emissora 'oficial' da CBF e Federações, a Rede Globo. O argumento, o mais simples de todos: não pagaram o que eles acharam justo, e o que eles acham justo é o que se pode comparar com os grandes times da região sudeste.

Até aí, tudo bem. Não se fechou o acordo, e cada um foi para o seu lado, sendo que a Globo, no domingo, transmitiu outro jogo, daqueles que estavam na sua carteira. Bom, pensaram o Atlético e o Coritiba, então, já que não temos quem transmita, quem sabe não fazemos isso por conta própria? Melhor, vamos colocar isso no YouTube e quem quiser pode assistir por lá! Beleza de raciocínio, tipo projeto ganha-ganha, em que todos são beneficiados: clubes, torcidas de ambas, seus patrocinadores estampados nas camisas, os patrocinadores do estádio e suas placas, e o próprio YouTube e a internet como um todo, pois seria um ótimo exemplo de uso da rede em contrapartida as cada vez mais onerosas formas de transmissão e recepção do nosso principal esporte.

Bem, tinha alguém que não estava satisfeito. A Federação paranaense - que, supostamente, deveria defender o esporte estadual - barrou a transmissão alegando uma burocracia qualquer, daquelas que poderia ser resolvida com um bom papo. Mas, o esporte do Paraná não ia sair ganhando com isso? O Brasil inteiro, com acesso a internet, podendo assistir ao principal clássico do estado, sem pagar pelo um PPV (pay-per-view) ou ter que ter uma TV por assinatura? E, ora, os dois principais times que sustentam a entidade não deixaram suas rivalidades de lado e entraram em acordo? Até a Globo também não teria por que ter objeções, já que ela mesma deu por encerrada as negociações e nem ia ser transmitida por uma concorrente direta...

Ok, essa última afirmação já é mais problemática. As redes sociais explodiram em teorias de conspiração e viram as digitais da emissora platinada no ocorrido. Claro, Tadeu Schmidt, com uma cara seríssima que não lhe é peculiar, negou, ao final do Fantástico, antes dos gols da rodada, momento que, desconfio, é o de maior audiência do programa. Para estar ele lá, lendo um editorial tão do tipo "não temos nada a ver com isso", é que a repercussão deve ter batido forte. Se a Globo tem a ver com isso ou simplesmente a Federação quis fazer bonito para a emissora, ninguém nunca saberá. Mas o que a Globo não pode fazer é negar que, se todos agora apontam o dedo acusador para ela, bem que ela merece...

E é aqui que conto duas historinhas, vindas lá da minha origem de TV educativa. A primeira é muito conhecida no nosso segmento, embora praticamente - e compreensivelmente - desconhecida no mundo comercial da televisão. Foi quando o Santa Cruz, time de Pernambuco, estava lá pela quarta divisão e, portanto, longe dos olhos dos interesses das emissoras comerciais. No entanto, o Santinha tem uma torcida apaixonadíssima, que vai assistir até treino debaixo de chuva. E, naquela ocasião, estavam disputando a tal série com times para lá de desconhecidos, em horário bem diferente - por exemplo, no horário das novelas, olha que heresia! -, mas sempre com estádio lotado. Assim, a TV Universitária de Recife (a primeira emissora educativa do país) pensou "ah, já que nenhuma emissora se interessa, vamos nós mesmos transmitir". Fizeram um acordo com o clube e, já no primeiro jogo, pau a pau com a audiência da Globo, então a emissora com o maior índice. No segundo, resultado igual... no terceiro, a conhecida mala preta passou por lá, comprou os direitos de transmissão por uma merreca e... não transmitiu-se mais qualquer partida. Compraram para não exibir.

Aqui, não responsabilizo somente a emissora comercial - está defendendo seu mercado e não fez nada de ilegal, embora certamente uma sacanagem com o torcedor santista. Mas também a tacanha mentalidade curta dos dirigentes de futebol, capazes apenas do quanto ganham hoje, e não pensando o negócio como um todo. Com a não exibição do futebol, perdeu-se a médio e longo prazo a confiança de possíveis patrocinadores, que querem ver exibidas suas marcas, além de ganhos paralelos, como a comercialização das placas do estádio, ou até mesmo parcerias com a própria emissora educativa no sentido de estabelecer projetos em que ambos pudessem capitalizar a iniciativa de sucesso. Mas, depositar a grana no banco parece ser mais fácil....

Essa falta de visão do negócio é também centro de outra historinha, desta vez ainda mais singela. Em Ouro Preto/MG, onde dirigi uma emissora educativa, tem um campeonato amador. Há times tradicionais, mas nenhum de destaque no cenário mineiro, haja vista que sequer tem algum representante nas séries principais. Mas, futebol é também cultura brasileira, envolve paixões e muita atenção e, vamos lá, é muito legal, pronto! Como a emissora ficava em cima de um morro, e que de lá de cima dava para ver o campo onde se disputavam as principais partidas, a equipe da TV, boa parte também amante de futebol e carregada de gente empolgada em fazer coisas diferentes e inovadoras, resolveu tentar a transmissão dos jogos. Como vantagem, pela localização, a câmera que daria a imagem geral ficaria na própria sede! No campo, apenas câmeras para pegar os detalhes e entrevistas com os jogadores. A equipe de locução da rádio local não viu concorrência aí e, alegremente, incorporam-se à equipe para o que seria a primeira transmissão ao vivo de um clássico da cidade.

Super animados, fomos conversar com os dirigentes dos clubes, totalmente confiantes que eles iriam também ficar muito empolgados com o momento histórico e a oportunidade de serem vistos por todo o município (ainda mais que a presença de torcedores no estádio era bem decepcionante...). Na nossa cabeça empolgada, que emoção seria o ouropretano ligar sua TV e ver, ao invés de um Corinthians X Flamengo, um Rosário X Guarani! E lá fomos nós conversar com a liga da cidade que... em primeiro momento, ao invés de brilhar os olhos de entusiasmo como imaginávamos, perguntou: "e de quanto será nosso direito de imagem?"

Lembre-se daquela musiquinha de decepção dos desenhos animados, é a hora de tocá-la em sua cabeça: tom-tom-tom-tom-toooooommmmm.... Voltamos com o rabo entre as pernas, já que dinheiro é efetivamente algo que uma emissora educativa local não tem. Ao contrário, a equipe, perante a necessidade de várias horas extras que seriam necessárias (afinal, seria em um domingo, era preciso arrumar o equipamento um dia antes e outro depois, sem parar as atividades regulares da emissora), já estava disposta a trabalhar de graça, ou fazer compensações em um futuro imperfeito, só para providenciar e participar do momento histórico e, porque não, estabelecer uma nova grade de programação, puramente local, para seus vizinhos. Mas não fique triste, pois não desistimos e, numa segunda rodada, conseguimos mostrar aos dirigentes as vantagens deles não nos cobrarem pelo direito de imagem, que havia uma certa distância entre nós e a Globo/Band, e também entre os times deles e da primeira divisão brasileira. E, aí, transmitimos muito jogos, que foi divertidíssimo e com excelente audiência.

Mas, deu para perceber como foi educada a cabeça dos dirigentes de futebol? E que, se em Ouro Preto, eles pensam no ganho imediato, fácil, mas descompromissado com um projeto que valorize o futebol como um todo, não dá para culpar - imediatamente - os dirigentes do Santa Cruz. Sair dessa caixinha, que foi sendo construída ao longo dos mais de 50 de TV no país, não é simples. E é isso que dá mais valor às atitudes dos dirigentes paranaenses. E no momento certo.

É porque, com a implantação da TV Digital, temos aí dois caminhos diferentes para adotar, e chamamos mais duas pequenas e significativas histórias, que contrapõe um Portugal X Argentina, ambos povos que os brasileiros gostam de envolver em piadas depreciativas. Pois, neste caso, temos que olhar para ambos e aprender lições. A Argentina, quando da implantação da sua TV Digital, usou justamente o futebol - aprisionado nas empresas de TV paga - como carro-chefe da sua popularização, ao liberar os sinas dos jogos para aqueles que adotassem a nova tecnologia. Gostando de futebol como nós, é claro que funcionou, embora as operadoras de PPV bufaram. Já em Portugal, que deveria ser um bom exemplo, europeus, desenvolvidos e tal, e que também gostam do esporte da bola redonda, nossos patrícios só conseguem ver um Benfica X Porto, dentro de sua casa, se puderem pagar. Lá, deram para a telefonia paga o processo de digitalização da TV. Deu no que deu.

O que vai acontecer com o esporte na era da TV Digital por aqui, ainda é um mistério. O máximo que se tentou foi implantar uma legislação onde, em caso de compra de direitos esportivos e a sua não exibição por decisão da emissora detentora, as TVs educativas e públicas - que não teriam como ganhar dinheiro como as emissoras comerciais - poderiam exibir a disputa. Tipo, a emissora X comprou o direito de transmitir todos os jogos do campeonato, mas aquela partida que envolve aqueles timinhos na rabeira, desconhecidos do grande público, e que ela nunca irá transmitir, poderia ser cedidos para a TV educativa local, e a população poderia ver seu time jogando, ao invés de ser obrigada a assistir uma disputa longe de seu cotidiano. Assim também para esportes desconhecidos e que, na compra de um pacote do tipo Olimpíadas, a emissora nunca iria transmitir, mas uma TVE sim, ampliando o repertório de esportes que a população em geral pudesse conhecer.

É claro que, num Congresso onde, irregularmente, há um número enorme de donos de TV, isso nunca passaria. Daí, a importância do gesto dos clubes paranaenses. Quem sabe sirva de motivação para que os times de Ouro Preto, da 4a divisão do Brasil afora, dos esportes universitário e locais, vejam na internet uma oportunidade de parceria com as emissoras educativas, universitárias, comunitárias, para levar suas imagens e, com isso, adquirir o direito de serem vistas e amadas?