Colégio Magnum é uma nova Escola Base? E a fácil arte de não aprender!

Colégio Magnum (BH) e Escola Base (SP): 25 anos as separam no mesmo esporte cruel de acusar sem checar. Imagem de kalhh por Pixabay
Condenaram uma escola e seus profissionais do mais cruel e nojento crime contra crianças. Viu-se que não haviam provas. Não, não é o caso da Escola Base, em 1994, que acabou socialmente com a instituição e parte de seus educadores. Aconteceu em 2019! Pior, há conotações comerciais cínicas, de disputa de um mercado e interesses publicitários, num contexto onde o que menos importa são os estudantes. Tudo isso, sim, é que é cruel e nojento!

Do princípio: há duas semanas, no domingo (dia de maior leitura), em Belo Horizonte, estamparam-se fotos imensas de uma escola tradicional da região nordeste, com manchetes do tipo "polícia investiga abuso sexual de aluno de três anos no Colégio Magnum". Isso mesmo, nada de "suspeita de" ou algo do gênero. Seguiu-se previsível show midiático nos dias seguintes, na mídia em geral. Na quinta-feira passada, a polícia encerrou o inquérito por falta de provas! Foram duas semanas infernais para todos os envolvidos, embora os órgãos da imprensa tenham se divertido com suas manchetes e cliques de visualização. Alguns desses envolvidos, como no caso da Escola Base, jamais irão se recuperar totalmente.

Em tempo: nada, nem ninguém pode mensurar a dor de uma mãe que constata, por suas observações e conversas com seu bem mais precioso, que alguém o/a está abusando. Não é disso que aqui se trata, e sujeitos nojentos, e instituições que os acolhem conscientemente, devem sentir a força da lei. Aos pais que fizeram as denúncias, é preciso não esmorecer com o resultado. Buscar, junto com a polícia, a continuidade da investigação, e com os profissionais de assistência psicológica, que se cuide para que as vítimas não tenham consequências ainda mais graves, assim como mais informação qualificada das crianças para entender realmente o que houve. Mantendo-se a suspeita de abuso, que se vá fundo até origem e descubra-se o que for preciso. Mas, justamente por conter uma carga enorme, incalculável, de questões emocionais, para todos os envolvidos, os cuidados com o trato de acusações devem ser redobrados, e as acusações reais feitas dentro dos trâmites legais, e não pela internet, onde todos ficam expostos, inclusive a criança, hoje e amanhã. Ao não cuidar disso, o dano psicológico pode ampliar-se ainda mais e, como num tsunami, arrastar um grande número de inocentes do entorno.

Posto isso, volto ao Colégio Magnum e a Hudson Freitas, auxiliar de educação física, que foi acusado. Resumo rápido: Hudson botou a cara a tapa logo no início, deu entrevistas para quem quisesse escutar a sua versão, e suas respostas já desmascaravam um tanto da coisa. Ora, quem acompanha casos assim, sabe que é comum TVs buscarem imagens de câmeras que coloquem sob suspeita qualquer um, até mesmo um borrão. O negócio é gerar comoção, com aquelas imagens em preto e branco, picadas, mas, vá lá, olhaí o flagrante! Pois Hudson desafiou que houvesse qualquer imagem, e a escola tem câmeras por todos os lados, pega aí qualquer uma que o incriminasse! Disse que é difícil conseguir, no interior da escola, ficar com uma criança sozinha, e muito menos ele, que ajudava o professor de educação física, e certamente seria notado caso fizesse algo assim suspeito. Sim, o crime teria sido cometido na escola, e para o cinismo da ocasião, parece que era importante que a suspeita assim o fosse.

Hudson foi rapidamente abraçado por pais e mães, em sua defesa. A imprensa babava e chegaram a dizer que já haviam, agora, três denúncias de abuso. Mas os advogados de Hudson foram dois pais de alunos da escola. Houve manifestação na porta para ele. Com todo esse movimento, e o não surgimento de provas, as manchetes continuaram presentes, mas não é que o "abuso" foi virando "suspeita de abuso"? A versão do rapaz ganha uma machete, mesmo que mais de uma semana depois da primeira reportagem? Aos poucos, as chamadas foram ficando menos programa policial e mais, ah, que saudades, jornalísticas!

Quanto ao Magnum, é importante, de novo, abrir um parênteses: não tenho carta de porta-voz da escola. Ao contrário, meu filho foi muito feliz lá por vários anos (inclusive na Educação Infantil) e estudava até o ano passado, e mudamos de escola por não concordar com sua atual pedagogia. Não que seja errada, me parece bastante adequada para os pais que matriculam seus filhos lá. Eu e minha esposa é que acreditamos não ser o perfil de nosso filho, simples assim. Mas, não é porque não gosto de como a instituição atua que eu não deva brigar por justiça, ainda mais quando envolve dois assuntos prioritários deste espaço: comunicação e educação.

Sim, porque, desde a primeira manchete, me pareceu que tínhamos um enorme problema de comunicação, antes de mais nada. Eram gritantes as magnitudes das fotos e do nome Magnum nas manchetes e reportagens. Mas o que há de estranhar nisso? Ora, os jornais têm sido muito ciosos na divulgação de nome de empresas em casos de investigação policial, o que, a princípio, eu creditava ser uma questão de ética jornalística (tolinho!). Afinal, o estrago para a imagem de uma empresa por uma manchete, nesses tempos de "reencaminhamentos", polarizações, condenações midiáticas instantâneas, é fato preocupante para todos.

Exemplar um caso, também em Belo Horizonte, quando a Polícia Federal recentemente deu belas batidas em empresas varejistas de renome, quando do escândalo do Cruzeiro, e os mesmos jornais foram discretíssimos ao divulgaram seus nomes. Já no segmento estudantil, no mesmo dia, uma reportagem complementar sobre a morte de um estudante depois de ingerir um novo xarope popular entre os jovens ("purple drink"), cita depoimento de seus colegas da escola onde ele estudava, sem citar o nome da instituição. Dois pesos, duas medidas?

O que há em comum entre as empresas que não tiveram suas sedes fotografadas e seus nomes engarrafados? São belos anunciantes. O Magnum, não. O colégio está em uma região, Cidade Nova e arredores, onde reina absoluto no segmento que atende e praticamente não precisa anunciar. Os principais colégios de BH estão na zona sul, digladiando-se para colocar aluno nas salas. E Belo Horizonte ainda tem uma característica a mais: a agressividade com que atuam para terem boas notas no Enem, o que torna o exame quase que uma disputa provinciana: cinco das dez escolas mais bem ranqueadas no Brasil estão na capital mineira (sim, no Brasil, não é só em Minas)! Entre elas, está o Magnum, mas sozinha em sua região. As outras estão brigando na zona nobre da cidade. Daí que, em alguns levantamentos de sites de consumidores, o Magnum aparece como o mais caro da cidade. Oferta e demanda, baby!

Ainda assim, para o Magnum, as denúncias não poderiam ter vindo em pior ocasião. Estamos em outubro, justamente o mês que os pais confirmam, procuram e trocam de escola. Só essa coincidência já é para a gente ficar de orelha em pé. Fuça daqui, fuça dali, e não é que me lembram que uma grande escola de Belo Horizonte está prestes a abrir uma unidade justamente na região? Agora, são os pelos que se eriçam! Qual? E não é que é um dos grandes anunciantes do segmento? Meu Deus, será? Sim, parece teoria da conspiração, e é daquelas ocasiões que estou torcendo mesmo para estar redondamente enganado. Seria cruel, perverso, cínico demais! Mas, bem que estou esperando para breve algo como "venha para a nossa nova unidade na Cidade Nova! Segurança e confiança para a sua criança."

Minha esposa diz que assisto séries demais! Que fico assustado com tudo, paranoico, até! Tomara que seja o caso. Mas a Escola Base já havia nos ensinado que o campo da educação - por mais nobre que seja - não está, nem de longe, imune das irresponsabilidades de que o ser humano é capaz de fazer, para o meu desgosto como humanista e romântico. Os casos de desvio de verbas de merenda escolar e creches deveriam nos manter alertas.

A imprensa não está imune, a nada e nem a ninguém. A sorte, desta vez, é que, ao contrário da Escola Base, a polícia foi rápida: foram mais de 40 depoimentos, de pais, mães, professores, educadores. Olharam as imagens, periciaram o telefone do rapaz, e nada. E, antes que acabassem de vez com a vida do Hudson, e a reputação da escola, as delegadas foram também para a mesma imprensa dizer que não há provas. Mas estou certo que um bom estrago foi feito. Hudson ainda reluta em voltar para seu emprego. E não tenho dúvida de que, dos que procuram uma nova escola aos que lá já estão, todos vão se lembrar do caso e uma pontinha de desconfiança estará consigo, sabe-se lá até quando. O Magnum, que surgiu no mesmo ano que derrubaram a Escola Base, construiu uma reputação que precisou desses 25 anos para ser construída, e que apenas duas semanas podem ter trincado.

O Ministério Público pode ou não acatar a investigação que inocenta Hudson Freitas e o Colégio Magnum. Caso haja uma decisão diferente da polícia, espera-se que, ao menos, as manchetes estejam em outro nível. Ou não?

Comentários

  1. Cláudio,
    Parabéns pela sua facilidade de colocar em palavras, neste brilhante texto, tudo aquilo que sempre pensei e defendi durante todos estes dias de lamentável exposição a que o colégio, funcionários, pais e alunos foram submetidos. Concordo com cada palavra sua, e nem de longe acho que você está assistindo séries demais! Muito pelo contrário, este foi o texto mais lúcido que li nos últimos tempos.
    Mais uma vez parabéns pelas suas colocações, o mundo precisa de mais pessoas com responsabilidade nas palavras, assim como você!

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    1. Agradeço as suas palavras! Você tocou sobre o sofrimento da comunidade da escola, algo que citei muito rapidamente. Obrigado por reforçar. Sobre as séries, vou avisar a minha esposa, mas acho que ela não irá se convencer...rsrsrs...

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  2. Texto perfeito, que consegue cingir a perfeição os meus sentimentos. Parabéns Cláudio pela lucidez.

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    1. Agradeço suas palavras. São incentivos para mim e para quem mais ousar a dar seu pingo de indignação.

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  3. Fui funcionaria do MAGUNUM por 20 anos e tinha certeza de que isso jamais aconteceria na escola. Lá criei minhas filhas e netos. Lá é uma família . O cuidado e carinho com alunos e funcionários sempre foi e será a grande missão da escola. Obrigada Colégio Magnum por tudo que representou na vida da minha família.

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    1. Obrigado pelo seu comentário. É importante esse testemunho.

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  4. Sensacional. Uma excelente colocação sobre os fatos.

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  5. Meu filho estudou no Magnum do ensino infantil ão último ano do ensino médio. Desde os primeiros rumores desse fatídico episódio sempre soube que havia algo errado. Fico perplexa com a insensibilidade humana. Espero que as pessoas que causaram tanto estrago tenham a hombridade de se retrataram. Fico na torcida de uma breve recuperação tanto da escola quanto do rapaz. Que Deus faça justiça.

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    1. Obrigado pelo comentário. Hoje mesmo a minha esposa apontou uma repórter de TV que enchia a boca para falar de "estupro" quando da ocasião. Nada de "suspeita" e nem "abuso". Não vimos retração em lugar nenhum...

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  6. Parabéns por suas palavras pois elas ratificam o que venho afirmando desde o principio: tudo isso tem origem em interesses ocultos os quais pretendiam denegrir o Colégio Magnum. Confio bastante na linha direcional e pedagógica do Magnum pois lá trabalhei como professora, tendo meus filhos ali estudado do Maternal ao Ensino Médio. Obrigada por expor muito bem o pensamento de muitos.

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    1. Obrigado. Seu testemunho, e dos demais, é um importante reforço. Agradeço por compartilhar.

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  7. Parabéns, texto perfeito! Sempre suspeitei que havia algo errado. Que seja feita justiça!

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    1. Muito obrigado, é sempre bom ler, ainda mais quando o coração está carregado.

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  8. Sou militante e atuante no combate ao abuso sexual. Desde o início quando vi as entrevistas e aparições de Hudson, me bateu o click de que algo de muito estranho estava por trás de tudo isso. Só não imaginava o quê. Esse seu texto e análise sobre os fatos deixa mais que claro que o rapaz é e sempre foi inocente. Que a justiça para Hudson seja feita, porque não se pode comprometer toda uma vida passando por cima de um inocente. A que ponto chegamos...

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    1. Puxa, seu depoimento é fantástico! O que me lembra que, em nenhuma das reportagens, vi um especialista sobre o assunto dar sua interpretação! Certamente, porque, assim como você, veria furos que não se encaixariam na versão panfletária! Obrigado por compartilhar.

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