Enem e BH: excelência de ensino ou um show de quem vai ser o dono da rua?

Belo Horizonte tem o maior número de escolas no ranking do Enem: o que a capital mineira tem de especial? Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Já escrevi algumas vezes sobre meu incômodo pela disputa das escolas para estarem bem posicionadas no ranking do Enem. Volto ao assunto, dando continuidade as indignações sobre o caso do Colégio Magnum, no post anterior, que me pareceu um dos perversos efeitos colaterais do mal que minha cidade sofre: por que justamente Belo Horizonte concentra tantas escolas bem ranqueadas?

Uai, isso não deveria ser motivo de orgulho? À princípio, sim. Mas fui desconfiando ao longo desses últimos anos. Assunta daqui, assunta dali, não consegui ver o padrão de qualidade associado, por exemplo, ao que acontece no Ceará, onde uma política de estado (e não mais de governo), parece ter colocado a Educação como uma prioridade. Não à toa, Fortaleza emplacou seis escolas dentre as 50 em 2018.  É o mesmo número de escolas de São Paulo, o que também faz sentido, dado a demografia da cidade, seu histórico com a educação elitista e a grana que os responsáveis pagam por ela. Poderia descrever o Rio de Janeiro da mesma maneira, mas não funcionaria: teve menos escolas ranqueadas que a capital mineira (4).

Pois BH emplacou sete! (atenção leitor atento, considere a de Nova Lima, dado que a escola de lá não só é o desdobramento de uma instituição tradicional da capital, como tem como grande público uma parte elite da capital e seu prédio fica quase na divisa dos municípios). Isso num estado que está ali na série B na educação nacional, pagando professores em atraso, parcelado, e sem cumprir piso, e com uma política errática, que dança entre a briga dos caciques do PT e do PSDB nas últimas décadas (na qual nada de Novo apareceu até agora). Esse clima é mesmo o berço de excelência? Então, porque só a capital, com tantas cidades grandes pelo estado? As outras escolas mineiras que aparecem no ranking, com poucas exceções, são ligadas às instituições federais.

"Ah, mas estamos falando de escolas privadas. O que tem a ver com a política pública de educação?" Ora, tudo! E o Ceará é um exemplo disso. Quando há uma política de fortalecimento de um setor, todo o ambiente, público e privado, costuma ir em consonância, tanto pelo olhar romântico do #tamojunto como pelo interesse econômico de que, se a máquina do estado puxa, os vagões de todas as espécies, do sucateado conteiner público ao vagão do restaurante nobre, tendem a ir atrás. Como pensa o empresário da educação cearense, caso ele visse que a educação pública estivesse começando a ocupar o imaginário da qualidade na cabeça da população? "Ora, é melhor melhorar o meu aqui também, senão vou perder alunos e, consequentemente, grana". Simples assim.

Tal rede de interesses entre políticas públicas, estado e economia privada é melhor vista nas tradicionais vocações produtivas dos estados, principalmente aqueles com forte produção agrícola. Minas Gerais, recentemente, mostrou que a sua valorização de políticas para áreas como a mineiração, em detrimento à educação, tornou-o dependente da (ir)responsabilidade das empresas: rompem-se barragens e o estado quebra!

Mas sinto dizer ao leitor que, talvez, eu não tenha a resposta do porquê Belo Horizonte é esse fenômeno intelectual. Seriam os nossos professores e estudantes mais inteligentes que os demais pelo país? Seria um belo exercício de etnocentrismo e, como tal, completamente dissassociado da realidade empírica. Como cientista, para chegar perto de uma resposta, deveria fazer um pesquisa de campo, depois de levantar hipóteses, conversar com as pessoas, tentar entender todas as variáveis, enfim, dá uma bela dissertação de mestrado ou uma tese. Como aqui não é o espaço para tal, me cabe só especular a partir da minha experiência. E, como exerci no post anterior, a parte dela que me grita é justamente aquela que pensei ter deixado para trás: a do marketing.

Sim, já fui professor de marketing, e não é passado que renego. Ao contrário, é uma bela área de atuação e de estudo, embora muitas vezes injustamente torpedeada como uma espécie de arauto do mal do capitalismo. Tanto que quando você quer xingar alguém que só pensa no lucro, é só chamar de 'marqueteiro' (eu achava mais engraçado o 'porco capitalista' ou o mais elegante 'capitalista selvagem', mas parece que tais expressões estão no mesmo limbo do 'caiu a ficha'). O problema, portanto, não é o marketing, área instrumental de planejamento e aplicação, mas o mesmo mal que o homem dá às suas tecnologias: o uso inapropriado das ferramentas.

Portanto, segue aí minha opinião nada científica: o que se viu foi um embate de egos, associado as jogadas de marketing não recomendáveis a menores de 18 anos (que, por sinal, não deveria ser o público delas?). Em resumo: por uma briga infantil, tipo o Cebolinha querer se o dono da lua e não a Mônica, dá-lhe planos infalíveis! Principalmente, os eticamente reprováveis, como enviar um contingente selecionado de alunos, de uma específica unidade, para fazer a prova do Enem, embora o resultado aponte o conjunto das escolas com o mesmo nome. Ou a contratação de estudantes brilhantes, por bolsa ou grana mesmo, tirando-os, inclusive, de suas escolas de origem, para integrar suas fileiras. Tais práticas causaram reações do MEC (ao parar de divulgar os seus rankings, que eram manipulados em propagandas) e uma batalha de rankings 'alternativos', específicos de escolas que fizeram o exame com centenas de alunos, outras de grande porte, ou de estudantes com mais de três anos na mesma escola. Valia de tudo para ficar bem no pódio. Certamente, essas práticas não são exclusivas dos mineiros, mas, pelo resultado no ranking, vê-se que as escolas belorizontinas as transformaram em candidatas aos jogos olímpicos (ora, se o poker pode, blefar tornou-se uma qualidade....).

Certamente, nem todas as escolas utilizaram tais práticas, e algumas foram realmente vítimas das maquinações da concorrência desleal. Mas, mesmo essas, também têm seus pecados, pois mantiveram, em suas propagandas e nos seus discursos para amealhar estudantes, a retórica fácil de "olha como estamos bem no ranking do Enem". Uma vez, em visita a uma dessas que eu mesmo achava ser uma vítíma, vi um poster que elencava as principais qualidades acadêmicas da instituição. A número um não era a excelência do ensino, a metodologia inovadora da aprendizagem, o cuidado na formação do humano e do cidadão, a primazia do seu corpo docente e a sua constante formação continuada, o currículo desafiador e integrado às questões contemporâneas, atividades de extensão e de incentivo à pesquisa para os estudantes, o material didático, a infra-estrutura.... Não, a escola acreditava que sua principal característica acadêmica é ter "os melhores resultados no Enem". Algumas das outras que mencionem acima, vinham em seguida, humildemente, de cabeça baixa.

É óbvio onde está a preocupação com o aluno? Está na planilha de notas. Não é novidade responsáveis (ou alguém conhecido) terem sido intimidados. A escola meio que deixou a entender (quando não diz na lata) que "nossa escola não é o perfil do seu filho". Aí, fica fácil, não é? Criança que gosta de estudar em escola que gosta de estar no ranking fica bão demais. Às favas o desafio de educar uma criatura que, naturalmente, acha que estaria melhor praticando esportes ou vendo TV, e que ainda não entende a importância da educação. A escola deixa de se desafiar, em apresentar o mundo a esse sujeito, como ela acredita que deva ser, e passa a competir para quem pontua mais em um exame que, por mais que tenha méritos, ainda é um retrato recortado de uma visão de mundo daqueles que o elaboraram, e que as variáveis de sucesso na nota passam por questões que vão desde histórico da importância da educação da família até a qualidade de sono no dia anterior.

Ou seja, não é justo colocar essa turma para servir de pelotão de vanguarda em uma guerra que não lhe diz respeito. Sei que não é fácil ser diretor de escola, os pais cobram demais também o tal ranking, mas educar também é um ato de coragem. É preciso repensar a tal briga e pensar mais no aluno. E confiar no trabalho acadêmico. Se bem feito, o ranking será algo natural. Se o ranking não vir, olhar com carinho para esse estudante: teve uma trajetória feliz na instituição? Está relativamente preparando para o mundo? É um sujeito desprovido de preconceitos discriminatórios e capaz de viver em uma sociedade diversificada? Se ele precisar, poderá encontrar caminhos e métodos para continuar, discernir e ampliar seus estudos? Consegue ver partes do caráter que o enaltece e que foi construído pacientemente durante sua permanência na escola?

São perguntas que não cabem numa planilha excell. Mas acho que as coisas começaram a desandar quando começamos a olhar mais os números do que o número de olhares que dedicamos aos nossos estudantes.

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