Dia Internacional de Combate ao Câncer Infantil e a Desinformação no Câncer da Rita Lee

Amo Rita Lee e gostaria muito que fosse verdade, mas ela não está curada do seu câncer. Divulgar isso é um desserviço a todos que sofrem e lutam contra esse coletivo gigante de doenças chamada câncer. No Dia Internacional do Combate ao Câncer Infantil é fundamental lembrar que desinformação não pode e nem deve ser associada apenas às fake news, mas também as bem intencionadas notícias com fraca apuração, mas que igualmente são falsas ou, na melhor das hipóteses, má redigidas em prol da busca de simpatia dos seus leitores.

Não, não se fala que um câncer descoberto em 2021 esteja curado em 2022! De acordo com todos os sérios oncologistas, só se pode falar em ´cura´ - e ainda assim com quilos de ressalvas - quando passados cinco anos sem qualquer recidiva ou metástase. Minha esposa se deprimiu mais na sua primeira recidiva do que quando teve a notícia do seu câncer de mama aos 36 anos: faltava-lhe apenas dois meses para completar cinco anos!

Ela ficava possessa - e aprendi a ficar junto - quando uma celebridade vinha a público dizer que estava ´curada´ do seu câncer quando, na maioria das vezes, mal tinha acabado de fazer seu primeiro tratamento: aliás, final de tratamento convenientemente ´confundido´ com a tal cura pela mídia que cobre tais celebridades - e, infelizmente, muitas vezes por elas mesmas em busca de holofotes que tragam a simpatia rentável de seu público.

E porque isso seria tão grave? Qual o problema de um pouco de otimismo, meu chapa? O problema, repito, é o desserviço que tais celebridades e nossos coleguinhas jornalistas fazem para a já sofrida comunidade que luta contra o câncer, e reforçando o gancho com a data, para dar a correta informação para as novas gerações e aquela meninada que está tendo de enfrentar a sua doença sem entender toda a sua extensão e encontrando nas tais celebridades sua fonte ´fidedigna´ de informações.

Olha o que provoca uma simples manchete dessas, assinada por uma deusa do Olimpio midiático:

No mínimo, a ideia que o câncer é uma doença do tipo microbiológica, ou seja, eliminado ou não enxergado o ´vírus´, ´bactéria´ nos exames ou em manifestações clínicas, beleza, está curada, como se câncer fosse gripe ou caxumba, e não uma doença sorrateira que tem justamente na discrição sua principal característica. 


E o que a gente faz quando está livre do vírus da gripe? Volta a tomar gelado de novo, tira a máscara, vida que segue que esse trem já não está mais em mim. Quanto ao paciente de câncer - ainda mais agora com novas e promissoras tecnologias - deve permanecer atento e seguir fielmente aos demais tratamentos (estou certo que a Rita Lee tem um rolzinho de remédios e exames periódicos!). Depois de um ano, não é hora de relaxar - e sinalizar para todos os outros mortais - de que está tudo resolvido. Todas as outras oito recidivas que acometeram minha esposa foram detectadas por ela mesma, porque nunca mais ela relaxou: "ninguém conhece meu corpo melhor do que eu", ela dizia, e nenhuma celebridade pode dizer que seu câncer estava curado após um ano e sinalizar para outros pacientes que pode relaxar que eles estão no mesmo caminho.

"Ah, que ranzinza, a Rita Lee e a Ana Maria Braga não falaram que o câncer delas são o mesmo das outras pessoas, cada um interpreta do seu jeito". Seria lindamente um pensamento liberal se as pessoas que estão em tratamento não buscassem incessantemente por sinais de esperança e de conforto, quando muitas vezes têm que enfrentar os duros diagnósticos dos seus médicos não midiáticos. Pergunte a qualquer oncologista quantas vezes e em que circunstâncias ele já escutou e teve que responder porque "o câncer da Ana Maria Braga foi curado e o dela não?". Já pensou o que é você, médico que tem que ler 'n' periódicos sobre pesquisa, ter que primeiro explicar que, tanto a deusa Ana Maria Braga, como seu oráculo, a mídia, não estão dizendo a verdade? E depois ter que explicar que o mundo não é simples?

Agora imagine para uma criança com câncer, uma celebridade dizer que está curada apenas um ano depois? Como ela vai ser convencida por seu médico não celebridade de que aquilo é uma desinformação, que ela ainda terá muito tempo de luta, e que tempo para o câncer é extremamente subjetivo (pode aniquilar em semanas ou dar sobrevidas de décadas e até transformada em uma doença crônica que, assim como diabetes, deve ser cuidada e monitorada diariamente)?

Esperança, românticos, é bom mesmo para os tratamentos, mas não a ponto de substituir o medo que nos obriga a cuidar e não só esperar pelo melhor.

Fora que tais ´comemorações´ de cura - enorme desejo de estar sempre comemorando nessa sociedade do espetáculo, da individualização e da festa como sintoma de felicidade - apagam, quando não cancelam, as verdadeiras e mais importantes comemorações dos pacientes de câncer, que são as vitórias periódicas de cada uma das etapas dos tratamentos. Na clínica onde minha esposa se tratava, tinha um sino onde os pacientes - junto com a equipe médica e os parentes - tocavam a cada etapa vencida. Não era a cura, mas a vitória de um campeonato com várias rodadas árduas e, portanto, supermerecedora de comemoração. Que venham os próximos torneios, era a verdadeira comemoração daquele dia!

Particularmente, acredito ser muito mais legal comemorar sempre, a cada etapa, do que uma comemoração única (ainda mais fake). Vê se não seria muito mais legal se crianças (de todas as idades) em tratamento de câncer lessem que a tia ou vovó Rita Lee (para quem não sabe, também uma escritora talentosa para esse público) acaba de vencer sua primeira batalha! E que está bem confiante para as próximas, que ela é como uma heroína de videogame, cada etapa é mais difícil que a outra, mas para cada uma delas ela vai mais fortalecida! Veja, não há promessa de cura, ainda mais que todos nós estamos em processo de game over, mas a indicação de que o importante é o jogo bem jogado, confiança e determinação.

Para os adultos também! Desinformação traz o gosto amargo de que tem algo errado, comemoramos com um certo pesar, ´será?´. Já a informação correta, honesta e transparente, causa muito mais simpatia, para aqueles que torcem, e empatia, por aqueles que sofrem.

Rita Lee, parabéns pela sua primeira etapa muito bem conquistada. O game está longe do over, mas sua luta é linda e vamos acompanhar todas as novas etapas, torcendo e vibrando.


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