Espaço: a fronteira final

 

A busca de desafios nos impulsiona a ir além das nossas constantes crises. Imagens: Canva

Essa frase era o início de cada episódio de Jornada nas Estrelas, iniciado em 1966 nas televisões norte-americanas, que consagraram o Capitão Kirk, seu primeiro em comando, Sr. Spock, e o médico da espaçonave Enterprise, Dr. McCoy. Naquela ocasião, o programa sobre viagens espaciais fazia consonância com a corrida espacial para quem chegava na lua primeiro. Quando eu penso o quanto dinheiro foi gasto, tantas vidas perdidas, tanta tensão, para uma competição do tipo 5a. série... ("quem chegar por último...!"). E é tão verdade que, quando os EUA, ao 'pegaram a bandeira' em 1969 (no caso, fincar ela lá!), perdeu-se a graça (até a primeira série de Jornada acabou naquele ano). Que pena, logo na minha vez, não ia poder passar as férias no satélite! Pois não é que estamos num déjà vu? Só que agora as metas são Marte e também quem instala um cassino na estratosfera primeiro. Mas porque voltamos a ter interesse novamente pela fronteira final? Vou dar um spoiler: na realidade, nunca perdemos o interesse!

Você deve ter notado que, nas brechas do noticiário sobre a pandemia, o espaço voltou a ser uma pauta: além da chegada de novos robôs norte-americanos em Marte, com um inédito voo de um mini helicóptero humano em um planeta que não o nosso, a China agora é a nova URSS na corrida espacial, ao colocar também seu robô em solo vermelho (ops!). A diferença dos anos 1960 é que, embora as duas sejam superpotências, o campeonato tem outros times fortes da série B querendo subir (literalmente), como a União Europeia, Índia e Emirados Árabes

O turismo espacial está de vento espacial em popa estelar, com disputa entre os sujeitos mais ricos do mundo, Jeff Bezos, Elon Musk e Richard Branson, os equivalentes ao Tony Stark, Bruce Wayne e Lex Luthor da nossa realidade, cada um querendo construir seu próprio foguete e seu ancoradouro extraterrestre. Como minha mãe me ensinou que a gente consegue ver a diferença entre um louco e um são é que o primeiro rasga dinheiro, concluo que essa turma sabe o que está fazendo, dado que eles ficam bastante aflitos quando caem na lista da Forbes.

Por fim, e não menos interessante, até a conversa sobre ETs voltou ao ar. Não é que o ex-presidente Obama, dos EUA, fez um arzinho misterioso de que há comprovações que os extraterrestres já usaram nosso planeta de hostels? Se tem um cara que tem informação privilegiada, é o presidente dos Yankees, não é? Mas ele nem estava sendo lá tão inovador, já que o próprio Pentágono já tem um tempo que vem cantando essa pedra. Estaríamos prestes a conhecer um embaixador verde?

Até o Brasil ainda tem suas ilusões, mesmo que elas sejam bastante liberais, ao pensar na nossa principal estação, em Alcântara/MA, como uma espécie de shopping, alugando espaço na nossa terra com esperança de sobrar algum espaço fora dela. E até temos uma parceria com a neoespacial nação da Índia, que acabou de lançar nosso primeiro satélite de imagens 100% nacional, o Amazônia 1 (devem ter lançado de lá, para não o risco de queimar aqui...).

Mas o bicho pegando aqui, o que é que estamos fazendo no frio espaço? Pois, analisando nossa história, acredito que é justamente por isso, sabe? Eu curto muito o que nossos antepassados fizeram, quando tinham muito menos conhecimento. Quando lembro de Colombo olhando para o Atlântico, de algum ponto da Península Ibérica, e simplesmente pensado "o que tem lá em frente?", munido apenas de sua coragem, intuição e curiosidade (pois, como sabemos, não era a partir do seu conhecimento de distância), não posso achar que seja só ganância.

E os futuros polinésios, que cerca de 500 anos antes de Cristóvão, saíram de algum ponto da Oceania, com uns barquinhos mequetrefes e foram parar, literalmente, no meio do Oceano Pacífico, assim, do nada, do tipo, 'vamos remar e ver no que vai dar?' Sem bússola, sem referência histórica, mais 'ah, vi umas gaivotas vindo de lá, outro dia apareceu aqui uma alga.... bora navegar uns mil quilômetros no meio do nada e tentar a sorte?'

Sério, a Humanidade é muito sem noção! Para a nossa sorte é que, sem isso, ainda estaríamos nos escondendo nas florestas e savanas africanas. Nossa busca por desafios, em geral não condizente com nossa consonância cognitiva, foi o que nos fez, em algum momento, não fugir do fogo, como nossos demais companheiros de natureza e, mesmo nos ferindo, conseguimos dominá-lo e, com suas chamas, aos demais. Deve ter sido ótimo para o primeiro Homo Erectus com uma tocha na mão e desafiando: 'vem agora, dentuço de sabre!' Deve ter valido as queimaduras de segundo grau.

Dali para frente, cada desafio parecia estar ali, não para ser pensado, mas para ser vencido. Imagino que é o que passou pela cabeça de Colombo. E o que passa na cabeça dos mais de 200 mil candidatos em 2013 que se inscreveram para ir à Marte sem volta. Claro, há a questão do sucesso, de eternizar seu nome, mas a maioria, como eu, gostaria de ter isso e ainda usufruir. Medalha póstuma é, para mim, algo deprimente. Quem recebe, se sente um usurpador, e quem merece, bem, está fora do plano. 

O que me parece unir as vitórias dos grandes desafios da Humanidade são, justamente, os momentos de crise. Quando Ela olha para si e começa a ficar sem esperanças. Daí, costuma olhar para um lugar com uma pegada infinita, do tipo, 'aqui deu, pra onde agora?'. A pandemia, a deterioração do meio-ambiente, a individualização que é contra a nossa natureza gregária, políticos radicais de várias cores, politização e polarização até para escolher a pizza da família... sei não, mas me parece um bom momento para olhar para fora. Como não há mais oceanos a serem desbravados, resta-nos a fronteira final.

Eu sei que é difícil justificar tanta grana para algo que é questionável se até nossos filhos ou netos vão usufruir. Mas, lembre-se, ninguém está rasgando dinheiro. Mesmo Colombo, quando foi, era para ficar rico, e Isabel e Fernando, reis ibéricos que bancaram o moço, também o faziam na esperança igual, para si e para a Espanha. Mas, mesmos eles não foram loucos e deram só três barquinhos para o genovês, meio que, se não voltasse, o prejuízo não era grande. Ou seja, outras nossas características, como a esperteza cruel, não se dissipam pela coragem. Marte tem uma vantagem de não ter vida inteligente, dado nosso histórico da invasão da América (ou vai ver tem, e por isso estão se escondendo).

Pois bem, algo semelhante tem acontecido com os novos agentes da exploração espacial. Os governos estão terceirizando boa parte. Mas os bilionários aprenderam com o navegador e a conta não será paga com o que trouxerem das novas paradas (mesmo porque isso ainda está muito longe de acontecer). A corrida espacial tem muita a ver com corridas de Fórmula 1, esse esporte que a gente se pergunta como pode ser tão caro e ainda ser viável. Porque o que importa na Fórmula 1 não é o esporte em si, mas o laboratório a céu aberto e de aplicação pragmática e rápida (ops!) para a indústria automobilística. Em resumo: o que você vai ter no seu carro daqui dois anos, foi levado ao extremo na pista de Mônaco.

Com a indústria espacial, é o mesmo. Se você tem um micro-ondas e uma panela de teflon em casa, agradeça aos astronautas e cosmonautas. Numa sociedade dominada, cada vez mais, por tecnologia eletrônica, testar todo tipo de coisa na situação extrema de uma viagem espacial gera patentes milionárias, e soluções de problemas que nem sabemos que tínhamos. Quer um exemplo? Um fungo, Cryptococcus neoformans, achado vivo e feliz dentro de um dos reatores de Chernobyl muitos anos depois do desastre, pode nos dar uma solução para os pacientes de câncer que sofrem com a radioterapia, pois absorvem radiação como lanche, ou serem cultivados para serem painéis biológicos solares. Não há toa, foram convidados especiais da Estação Espacial Internacional, já que o que não falta por lá é radiação para que o tal fungo nos diga a melhor maneira para o colocarmos para trabalhar.

Os nossos 'mecenas' milionários esperam continuar ganhando muita grana com patentes próprias ou em parcerias semelhantes. Mas isso não me tira da cabeça que eles poderiam fazer também muito dinheiro sem arriscar o pescoço de suas contas bancárias e as vidas de voluntários. Mas, daí, não atenderíamos o chamado do fogo, do mar, do espaço. Em crise, parece que temos uma tendência melhor para criar, nem que seja mais problemas para nós mesmos. Mas, vá entender, é assim que caminha a Humanidade!

PS. Trekker: a cultura pop parece também me dar razão. São inúmeras séries de ficção científicas que, mesmo sendo muito mais caras para serem produzidas, invadem os espaços das grades nas plataformas de video. Especificamente na franquia de Jornada nas Estrelas, levou-se cerca de 50 anos para se produzir seis séries (Jornada nas Estrelas Original e Série Animada, Nova Geração, DS-9, Voyager e Enterprise). Nos últimos anos (e estou falando de menos de cinco), já são sete já circulando ou estão para sair das docas estelares (Discovery, Picard, Short Treks, Lower Decks, Straght New Worlds, Seção 31, Prodigy). Eu, é claro, com essa notícia, já estou fora de órbita.

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