As 10 Hipocrisias sobre Homeschooling no Brasil

É preciso limpar a mesa primeiro, antes de falarmos de aprendizagem doméstica. Imagem de Gabi El Erian por Pixabay

 Como toda boa praga mundial - que seja doença ou guerra - em algum momento posterior a Humanidade colherá bons e saudáveis cogumelos que nascerão no meio às excrescências por nós produzidas. Grandes saltos tecnológicos e medicinais surgem nesses períodos. O problema é que tais avanços, deslumbrantes, costumam ofuscar o contínuo caminhar de bobagens em novos trôpegos passos. Ou seja, no mesmo tempo que cientistas aceleram suas invenções para o bem da espécie, oportunistas encontram a mesma oportunidade de ampliar suas maldades. Tanto acontece na dimensão global, como na local. O homeschooling, aulas em casa, fora da estrutura educacional formal, parece ser a bola da vez. Eu, hein? Quem conhece nosso diverso país, sabe: já temos homeschooling há muito tempo - e não é aqueles casos que a família está brigando na Justiça! É regulamentado e com comércio liberado há um bom tempo.  Vejamos:

Hoje milhares de jovens já estudam em casa (no trabalho, no ônibus...) e isso não é fruto de algum avanço educacional brasileiro. Ao contrário, é uma das amostras cruéis de nosso atraso. Nosso país é tão cara-de-pau que, sabendo da evasão colossal que as políticas públicas provocam nas escolas formais, teve que oferecer o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos, mais conhecido como Encceja. São as provas para conclusão das etapas escolares que jovens acima de 15 anos (para o ensino fundamental) e 18 anos (para o ensino médio). O que deveria ser uma exceção, na última inscrição para os exames foram mais de 3 milhões!! Assim, se a rapaziada quiser, abandona a escola, estuda em casa e volta quando achar melhor.

Mas, na verdade, não é que a rapaziada não quer. Ela é simplesmente expulsa da escola pelas políticas públicas de Educação. E não me venha com "ou a falta de políticas públicas" - isso não existe, há uma política implementada que, mesmo não sendo a que eu considere ideal, todos os dias funcionários públicos a respeitam - mesmo que a contragosto. Por exemplo: a opção por manter um currículo inchado e não ter um projeto de modernização para o Ensino Médio, mesmo sob novas premissas do BNCC - Base Nacional Comum Curricular, e, sim, uma política de governo. Totalmente infeliz, mas é uma política.

Portanto, é o suprassumo da hipocrisia: expulsamos ou não oferecemos condições para que nossos jovens permaneçam nas escolas e depois oferecemos como graças a sua reabilitação ao mundo do trabalho pelas provas do Encceja. Aviso mais do que importante: sou totalmente a favor, e super fã do Encceja. É uma boa política pública de reinserção de excluídos socialmente e só não é excelente justamente porque falha como as demais políticas públicas de educação: joga o sujeito ao deus-dará, um tipo de 'se vira, tá pegando o boi que estou dando essa segunda chance'. Aí, onde essas pessoas estudam para fazer a prova?

Imagem: Divulgação Globoplay

Uma parte importante faz cursos EJA - Educação para Jovens e Adultos, ofertados por escolas regulares (algumas, privadas, em troca de benefícios fiscais, não exatamente por serem boas de coração). Para os afortunados que acham fofa a empregada doméstica, o auxiliar de pedreiro ou o porteiro (desde que seja o diurno) frequentarem salas de aula, deviam aproveitar sua conta na Globoplay e assistir a ótima Segunda Chamada. Tirando os romances de praxe, é uma representação dos dramas que eles enfrentam, e uma fotografia de seus rostos cansados por enfrentar uma labuta pesada durante o dia e exigir que o cérebro aprenda de noite, seres sofridos pela vida puxada e com uma esperança um tanto magoada, bem típicos dessas pessoas resilientes. E, em grande maioria, são adultos tentando tirar o atraso, não os jovens que deveriam ter passado pelas escolas regulares até outro dia.

Esses, quem pode, paga caro em cursos preparatórios, lembrando que é justamente as pessoas mais pobres que se beneficiam do Encceja. Fora esse grupo, é só homeschooling. E aí alimenta outra indústria, a de apostilas, que também não custam barato. O INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira até oferece todo o material gratuito, mas daí o gargalo é a oferta de internet, o aparelho para guardar o vasto material, a falta de usabilidade digital numa cultura educacional de papelaria, e a falta de tutoria em uma sociedade ensinada a ser dependente de um superior.

Não tenho a menor ideia da porcentagem de quantos que fazem o Encceja estão em cada um dos segmentos: EJA, Cursos Preparatórios ou estudando em casa. Mas, em um país do nosso tamanho, onde mais da metade dos adultos não completam o Ensino Médio, quase 30% dos jovens de 15 a 17 anos estão em uma etapa inadequada e quase 75% dos jovens de 18 a 24 anos estão atrasados ou abandonaram os estudos, não deve ser especulação que resilientes (que, no Brasil, ainda significaria centenas de milhares), por falta dos mesmos recursos que os expulsaram das salas, tentem fazê-lo de forma autônoma, estudando sozinho e/ou com tutores particulares (pagos ou não). Afinal, em 2019, foram mais de um milhão de jovens e adultos realizando os exames. E com uma evasão nauseante, pois os que foram são menos dos 40% inscritos.

E agora vem aí um pessoal querendo regulamentar o tal homeschooling! Para mim, a leitura é "regulamentar o homeschooling para os ricos", isso sim! Só a insistência em usar o termo em inglês, e não educação doméstica, ensino domiciliar, ensino em casa, educação fora da escola, aprendizagem domiciliar, ou qualquer termo em português que pareça menos pedante e colonizado, já diz muita coisa. Segundo alerta: não, não sou contra a regulamentação, muitíssimo ao contrário, aqui é para regulamentar mesmo, pois é inevitável, uma vez que já acontece. A questão, portanto, não é ter ou não ter ou quando, mas como, o porquê e para quem

Em seguida, vamos a algumas temáticas sobre o tema que mostram hipocrisias que alimentam, erroneamente, o debate:

1) Escola é sobre Socialização e Construção de Conhecimento, não sobre conteúdo: de boa ou má fé, há uma confusão do papel da escola. Ela não está lá para abrir a cabeça dos meninos e encher de informação, na torcida que isso fará algum sentido hoje ou no futuro. A pandemia nos ensinou que, se fosse isso, ninguém precisava ir à escola, basta ligar o monitor e fazer o que se faz hoje, ou mesmo ver todas as aulas gratuitas no YouTube. Mas o Conhecimento da raça humana é uma construção, não uma sequência de downloads. E, seres gregários que somos, o verdadeiro saber só se realiza com o outro. Não somos muito diferentes dos leãozinhos, que simulam brigas entre si, sem se machucarem, mas já construindo experiências e referências de situações que viverão, nas quais estarão entre a vida e a morte reais. Portanto, a obrigatoriedade constitucional de mandar os jovens para as escolas não é para obrigar a aprender, mas obrigar a conviver. A apreender o mundo pelo olhar coletivo, pela diversidade humana, pela interação ambiental, algo impossível de se realizar em uma bolha doméstica. A lógica não é muito diferente da vacinação universal, onde eu preciso que o outro esteja bem para que eu também esteja. Para (sobre)vivermos, é preciso que aprendamos também juntos.

2) Homeschooling já existe e, portanto, é inevitável: como já defendido anteriormente, não é mais quando teremos a educação doméstica, mas como ela irá se expandir e o que queremos dela. O Distrito Federal, Cascavel/PR, Vitória/ES já são locais que se aproveitaram de uma decisão do STF de 2018 que julgou como não inconstitucional a prática (embora precise de regulamentação), para fazer suas próprias regras. Com a pandemia, o debate, antes restrito, ganhou força e não há como evitar a sua aplicação em outras instâncias. Assim, a discussão não deveria ser em ter ou não ter. E sim como podemos ter de forma que se preserve a necessidade humana da construção do conhecimento com outros seres que não só aqueles da sua bolha, que garanta um olhar diversificado e coletivo e favoreça a interação social e ambiental. Antes da implantação do sistema escolar como conhecemos, isso acontecia em alguma medida em escolas socráticas, orientais com aquela pegada meio budista, com tutores em famílias abastardas e o artesão-mestre para os vassalos. Todas soluções ruins para os tempos atuais, dado o número de jovens, a diversidade cultural e o grande risco de se ampliar ainda mais a desigualdade. Mas, que têm em comum a única coisa boa para se resgatar: a importância do educador que apresenta o mundo ao educando. Portanto, pensar em legislar homeschooling sem muitos questionamentos, quando ainda nem sabemos valorizar os professores no atual modelo, é um convite para repetir, e ampliar, os atuais desastres.

3) O debate não é sobre melhoria de ensino, mas moral, econômico e de conveniência: portanto, já começa tudo errado! De acordo com o IPC-PCM - Instituto de Pesquisa Chutômetra Prof. Cláudio Magalhães (tenha senso de humor...), somente educadores neste país dão importância devida à educação. Quem chega perto são os pais pobres, que acreditam que o estudo poderá melhorar a condição de vida dos filhos, embora é crescente o número daqueles descrentes que qualquer coisa vinda de cima o poderá ajudar. Parte da classe média e a rica, que defende o homeschoolling, a mais estridente e mais iludida, finalmente encontrou seu momento de vingança contra a escola, essa entidade que insiste em trazer a desarmonia ao lar, ao dar uma nota que não é compatível com a inteligência superior e emocional do meu filho, de dizer que os valores familiares tão nobremente defendidos não são os únicos com possibilidades de estarem certos, expor a heresia de outras visões de mundo, incompatíveis com a daquele líder político-espiritual que ilumina a nossa existência. Agora viram seus filhos na frente dos seus notebooks e pensaram "ah, isso eu posso fazer! E seu eu não puder, a sobrinha da vizinha da minha tia pode fazer - já tenho que pagar aula particular mesmo para esse menino...". Já sobre a importância para o governo e para as empresas privadas, entre os argumentos para mostrar seu desprezo, basta ver como remuneram, que, desde que o mundo é mundo, me parece a primeira maneira de dizer ao seu funcionário sobre sua consideração (não se paga boleto com prêmios). O índice deles só não é menor que os acionistas das holdings educacionais, para quem, se a ação está subindo, que se dane o resto. Para fechar a tampa do caixão, pergunte para os próprios jovens sobre a importância da educação: em geral, com medo de serem repreendidos e julgados, vão repetir as frases feitas dos pais e professores. Na intimidade dos seus grupos sociais, simplesmente todo aquele conteúdo não faz sentido para eles. E, veja, eles gostam da escola, mas para encontrar os colegas. É como irem ao clube e não entrarem nas piscinas. Pudera, a água é gelada! E não adianta culpar os instrutores de natação, essa piscina é herança, não empreendimento próprio. Ao final, eles têm que entregar um robozinho programado para fazer tantos metros em tantos segundos, muito semelhante ao ENEM.

4) Acabou o namoro com a EaD:  a ampliação do respeito pela Educação a Distância no Brasil foi um avanço fantástico no imaginário da população. Um país continental, com tantas dificuldades sociais e econômicas, com tanta gente precisando ser educada e ter acesso a conteúdo para aprimorar seus conhecimentos, a EaD é mais do que necessária, é fundamental. Vítima de discriminação - forjada por um mercado de ensino que não queria pagar por salas de aula vazias - as próprias empresas viram que poderiam lucrar repassando os custos físicos para seus alunos. Daí para a EaD virar a queridinha da Educação, foi um pulo. Na pandemia, iniciou-se com muito estranhamento de todas as partes. Depois, educadores e alunos foram se acostumando - era o que tinha para hoje, e até que estava indo bem, apesar das limitações. Daí a esperteza começou a falar alto (aumentaram turmas, não diminuíram mensalidades, começaram a devolver imóveis, diminuíram salários) e agora estamos todos exaustos, menos os donos e acionistas das escolas. Se a novidade tecnológica, em meio a tanta desgraça da pandemia, nos trazia algum alento até por conta de um novo tipo de proximidade da família, agora estão todos contando os dias para abrirem as salas (alguns, sem noção, até querem fazer antes mesmo de se ter ambientes seguros). O EaD, portanto, terá o destino que merece: um instrumento a mais para educação, para públicos distintos e com necessidades específicas, não substituição do presencial, uma economia no orçamento e menos ainda como salvadora da pátria. De novo, utilizar o EaD como argumento para homeschoolling já não cola mais, e funcionaria justamente ao contrário.

Imagem: divulgação DC
 5) Homeschooling em si, é bom, em nós é que seria uma  desgraça: aqueles que namoram o modelo têm um pé no andar de cima do planeta e outro fora da realidade brasileira. Há uma inveja de países como EUA, ou assistiram filmes demais onde jovens milionários tem tutores gênios que ensinam de tudo ao pupilo herdeiro. O sonho dessa elite, portanto, é contratar o Alfred! Mas não existem Bruce Waynes na vida real e nem mais Aristóteles, tutor de Alexandre, o Grande, e Verrocchio, o grande tutor de Leonardo Da Vinci. Cada vez mais temos menos professores. Poucos alunos querem seguir carreira (dado a desvalorização de que falamos); as escolas de formação, em geral, estão estacionadas no Séc. XIX; e sequer conseguimos cumprir o preconizado pela Constituição para as políticas públicas por falta de verbas e interesse político-partidário. Se já existem enormes dificuldades de aprendizagem em escolas, como seria se tirarmos delas o controle da educação? Ao se liberar o homeschooling indiscriminadamente para atender essa elite, colocaria-se em risco todo o já frágil sistema educacional brasileiro. Imagine líderes religiosos vendendo seus sub-líderes religiosos como tutores; empresários de escolas virando agenciadores de professores e os transformando em ubers pedagógicos;  cursinhos ensinando pais a serem professores (que se dane as faculdades de licenciatura!); esvaziamento da estrutura pública com êxodo de educadores e perda de relevância e seu consequente fechamento de salas para os mais pobres. "Ah, mas nos EUA não ficou assim!" Claro, tem um sistema implantado há dezenas de anos, com uma regulação forte e uma educação básica pública, em geral, de qualidade e integral. Quem gostaria de pagar se pode ter uma boa educação de graça e ainda ocupar o menino até as cinco da tarde?

6) Inteligência Artificial (IA) vai invadir a Educação: a próxima fronteira da IA está desenvolvendo programas que tiram tarefas dos professores. Isso não é inteiramente mal, pois o que os softwares se propõem a fazer é tomar para si o que os humanos fazem de forma mecânica e repetitiva. O problema é que nosso sistema educacional - e as obrigações dadas aos professores - são basicamente mecânicas e repetitivas! Daí, a hipocrisia de acreditar que se poderá segurar a educação em ambientes físicos quando ela já caminha para acontecer nas nuvens. Então, o que restará aos mestres? O que a educação tem de melhor a fazer: mediar a informação com os sentidos dos alunos, pensar nos conteúdos não como dados a serem computados, mas experiências do passado que devem ser experimentados no presente para que se construa as novas experimentações do futuro. Mas, para tal convergência entre informação, pessoas, ambiente, história e cultura, ainda não se encontrou fórmula melhor para a nossa espécie do que o contato humano presencial. Que se deixe a decoreba necessária, e suas avaliações behavioristas, para a IA.

7) Pais estão procurando o que fazer em casa: a pandemia deu a real para uma parte da população com mais recursos no banco: menos emprego, ou trabalho em casa, ou flexibilização de horários (nem sempre de forma benéfica), o mundo do trabalho mudou e a casa deixou de ser dormitório. O sentimento de que somos pais agora não podem mais ser amenizados com um beijinho de bom dia e boa noite, ou uma visita ao shopping. É preciso fazer mais para que a consciência pesada de que não somos bons pais (vem no combo). Ou, pior, moldar aquela criatura a minha imagem e semelhança, já escutei isso em algum lugar. Esses pais não precisam ser professores, precisam é de terapia.

Imagem: charge francesa clássica
8) Querem tirar da escola o seu papel de fiscal da família: um dos argumentos mais fortes contra o homeschooling, e que concordo, é que a escola é uma instância importantíssima para se detectar abusos domésticos. Acrescento também as deficiências cognitivas ou mesmo aspectos emocionais que os pais, por diversos motivos, não querem ou não dão conta de detectar. É mais um dos bônus da socialização, que não é só com os coleguinhas, mas também com outros adultos. Já que os defensores gostam tanto dos exemplos norte-americanos, que relembrem os pavorosos casos de jovens trancafiados em casa durante anos, sofrendo abusos e/ou descuidados intelectualmente, e que viraram manchetes sensacionalistas quando um vizinho desconfia. O negócio é que tal movimento coincide com uma parcela que quer, a todo custo, tirar o protagonismo da escola formal na educação, misturando as tarefas dos pais com a dos professores. A escola tem sido bombardeada a todo instante com cobranças que não lhes compete diretamente - disciplina, respeito, valores morais. Basta frequentar um grupo de pais no WhatsApp para ver o tal desequilíbrio racional e emocional que alguns demonstram. Não acredita? Em 2017, uma pesquisa apontou que 77% dos atuais problemas da escola acontecem por conta de brigas no WhatsApp. É mole?

9) Não existe 'Papai Sabe Tudo': é engraçado pensar que os pais serão os professores. Acho fofo os exemplos de pais ao defender o homeschooling ao dizerem que faz parte do seu currículo levar as crianças aos museus ou ensinar o seu próprio ofício, como se fosse algo banal de se fazer, e, se fosse, não faria parte das atividades usuais familiares, e não escolares (escola, quando vai ao museu, vai de excursão, muito mais divertido por ser coletivo com os colegas; e ensinar ofício nas escolas chama-se educação profissional, feito em ambientes muito mais - pois é - 'profissional'). Todo bom terapeuta pede pelo amor de Deus que eles façam seu papel de pais, que já não é fácil. Ao confundir as tarefas, confunde a cabeça dos meninos, que não sabem como olhar aquele sujeito: ele está ali para me orientar e me acolher, ou está ali para me dizer a importância das Cruzadas na história medieval? A neurociência já nos informou que são partes diferentes do cérebro nessas questões. Nos pais também acontece o conflito: não a toa temos pouca paciência para ensinar aos filhos sobre cruzadas das mais diversas - as nossas próprias e as novas deles, mas somos cheio de paciência para ensinar aos outros como devem conduzir suas vidas. O campo do afeto é complexo demais para enfiar a diferença entre adjetivos e advérbios enquanto tentamos aprender a amar o desprezo que temos por aquela música irritante que eles escutam. É claro que é possível, e louvo a meia dúzia que consegue. Infelizmente, não é uma experiência replicável.

10) Querem da exceção, virar uma cômoda regra: é certo que há circunstâncias em que o homeschooling é necessário. Famílias nômades por conta das profissões dos pais e especificidades de saúde da criança em cidades sem estrutura podem ser duas delas. Mas são exceções que não justificam transformar em uma regra que, ao ser generalizada, poderá trazer consequências nefastas em uma realidade escolar frágil, e cheia de tubarões ávidos por pais distraídos, ingênuos ou omissos. Nossa Constituição deixa claro que a tarefa de criar as nossas crianças é algo compartilhado pelos pais e pela Nação, ela, afinal, dependente de suas gerações para tocar a lojinha. Justo, dada a especificidade gregária da espécie. Portanto, há também um movimento de também tirar das costas do Estado essa obrigação, escondida na argumentação da liberdade da família de criar do jeito que achar mais adequado. Nesse sentido, em um extremo, daríamos a liberdade para uma família criar crianças nazistas ou terroristas, ovos de serpentes que prejudicaram a sociedade como um todo. Do outro lado, famílias carentes, informadas que a educação não é mais obrigatoriedade, vão defender o almoço de hoje e comprometem - mesmo que a contragosto - o futuro dos seus filhos com a conivência do Estado.

Então, em resumo, a aprendizagem domiciliar (pode dar outro nome, mas vamos combinar de parar de chamar pelo nome pomposo?), sendo já existente e inevitável, precisa ter um debate mais amplo, mas usando os eixos temáticos corretos - não as fantasias dos pais e os interesses dos barões da educação. É preciso que envolva ensino-aprendizagem, não abrir mão de socialização e contato com diferentes olhares, proposta de ensino dentro de um plano nacional de construção de nação, avaliação dos impactos sociais dentro da nossa realidade e não dentro de um fetiche idealizado pelas experiências estrangeiras, fortalecimento (e não o contrário) das escolas, mecanismos de freios ao consumismo de apetrechos escolares, adoção de tecnologias de inclusão (e não o contrário), e, por fim, e sendo o principal, o fortalecimento do professor na sua formação como educador e tutor, pesquisador e curador de conteúdo, aplicador e elaborador de metodologias pedagógicas, referência de diversidade àquela encontrada no lar. Como se vê, não é tarefa fácil, embora esteja sendo realizada, nas dentro das escolas. Tirar desse ambiente e levar para a casa não é impossível, e parece, em alguns casos, inevitável. Mas, não se debater adequadamente, será puramente lamentável.

 


A ideia desse ensaio veio do programa Diálogos #25, da Eterno Aprendiz Web TV - Especial Dia Internacional da Educação, onde tive o prazer e a honra de debater com a Profa. Wânia Maria de Araújo e o Prof. Reynaldo Maximiano. O programa pode ser assistido aqui: https://www.youtube.com/watch?v=i6_38QeljRA 

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