A hipocrisia do social das redes

Espelho, espelho meu, existe alguém mais autólatra do que eu? Imagem de Simon Giesl por Pixabay

 Eu sei, é um tema batido. Mas no Dia do Consumidor, 15 de março, me dou o direito de me indignar, ao lembrar que somos principais consumidores de um produto que nos é grátis: nós mesmos! E que as redes 'sociais' têm pouco a ver com a palavra social, que vem do latim, sociālis, quer dizer da sociedade, do sociável. Para, né? Minha foto que está no perfil é como eu me vejo, e/ou como eu gostaria que os outros me vissem por dentro, embora só uma casca pretensiosa está exposta. O que posto é para mim, é para o meu espelho enfeitiçado que me diz o que quero ouvir e ver. Mané, social... ! É egoisticamente individual. O meu consolo é que não sou só eu, e nem começou essa brincadeira comigo, nem nesse século e muito menos com a internet. Aliás, para desgosto de parte daqueles que criaram a rede mundial de computadores, ela serve, majoritariamente, para dar continuidade ao que eles mais temiam quando de sua criação.

As redes 'sociais' foram criadas para rinocerontes e guepardos, não para primatas. Força e velocidade,  em detrimento ao sociãlis, ao catar piolho, transar e rir juntos. Somos seres gregários, não individualistas e solitários. Mas a sociedade de consumo perdeu a graça de vender para grupos sociais, em especial a família, ali pelos meados do Séc. XX. Na realidade, nem dá para culpá-la inteiramente, já que é causadora e consequência ao mesmo tempo. Vivemos milênios como caçadores-coletores, 10 mil anos como agricultores e 300 na Revolução Industrial e 60 de sociedade da informação. Partirmos de uma boca larga de um funil, onde desesperadamente precisávamos uns dos outros, inclusive sobrepondo hierarquias, para ir rodando em círculos cada vez menores até atingir uma Humanidade que valoriza, sobremaneira, o indivíduo. Como tudo que é antinatural, não ia dar certo mesmo. É como obrigar aos guepardos a atacarem em grupo e aos rinocerontes abrirem um clube do livro. 

"Ah, mas achei meus amigos de infância que eu não via a muito tempo". E continuou não vendo! Porque a foto que está lá no perfil é a pessoa dentro de sua idealização, dela, que quer que a veja de tal maneira, e sua, conforme a pessoa habita sua memória. "Nossa, como envelheceu bem" ou "puxa, como engordou" vai depender de quantas bobagens fizeram uma com a outra. Se o aplicativo não serviu, no mínimo, para pegar um telefone e conversar por horas para tirar o atraso da conversa, só serviu para inflar seu ego, lhe dar o prazer do saudosismo, ou valorizar a dieta que se obriga a fazer. 

As redes 'sociais' são um instrumento de consumo, ponto. Por isso, acho até engraçado o poder público querer dizer para o Facebook e o Instagram quem ele pode ou não pode ter como cliente, assim como os clientes exigirem do poder público obrigar que as plataformas sejam uma espécie de ONG. Ora, redes 'sociais' não são serviços públicos e, ao contrário de um hospital e uma escola, só está lá quem quer. E pagam caro por isso, com o que têm de mais valioso: seu tempo e costumes. Não adianta dourar a fachada, é um grande puteiro onde cada um vende a si próprio como acha melhor. E compra do outro o que ele vende, ou o que você precisa para se sentir bem consigo mesmo. Ora, não está gostando do estabelecimento? Cai fora, vai à igreja ou a outro puteiro mais chique. Muito diferente de quem tem que frequentar um posto de saúde lotado ou uma escola sem infraestrutura.

É certo que, como qualquer estabelecimento que atenda cidadãos, cabe ao Estado algum papel. Cuidar para que não prejudique o indivíduo e o coletivo nos seus direitos básicos. Se donos e clientes se desentendem no ambiente e isso fere alguém, cana nos envolvidos e fecha-se o estabelecimento - ou parte dele - até as devidas apurações e punições. Isso quer dizer que se crimes estão sendo cometidos - racismo e outros ismos, injúrias, difamação, apologia à violência, associação criminosa - o dono do boteco deveria ser o primeiro da dar o pé na bunda dos sujeitos para não espantar a freguesia e manter o bom nível do local. Outras opções é o próprio gerente chamar a polícia - vai que o cara é muito grande - ou uma denúncia a quem é de direito e que faz o fiscal aplicar uma taxa doída para ver se consegue ensinar ao cafetão como administrar o seu negócio.

As redes 'sociais' estão já de tal forma embaralhada no nosso cotidiano que até parece uma heresia falar-lhe mal. É natural. Sendo espelho nosso, parece que o insulto é com a gente. Ou, numa melhor hipótese, para aquela tia que achamos ser muito fofoqueira, mas só gente da família pode falar mal. Relaxemos. Não é uma coisa nem outra, é um produto de consumo, ponto de novo. É reflexo de uma sociedade que já vinha se individualizando antes mesmo que a maioria da população nascesse. Com o Séc. XX se iniciando após o fim da vida coletiva - dado pela consolidação das fábricas onde cada qual se encaixou em seu posto de trabalho - fora ou dentro de uma linha de produção - era preciso ampliar os 'públicos-alvo', antes restritos aos abastados e aos pobres. Com a ampliação de uma classe média, o núcleo da família se transformou a principal unidade de consumo.

Mas o processo de afunilamento não parou, e, das famílias, se passou para as 'tribos', grupos de pessoas com interesses mútuos, até, finalmente, chegarmos à afamada 'customização'. Ou seja: ao indivíduo. Mas como as redes 'sociais' se encaixariam nessa lógica, se seu trabalho é justamente aproximar as pessoas? Pois aí é que está o erro de origem: não é para aproximar as pessoas, mas para lhes dar um simulacro de aproximação com as pessoas. Porque o objetivo continua sendo o mesmo, o de nos vender e nos comprar, individualmente. Dos criadores da Internet, nos anos 1950-1960, uma parcela era constituída de nerds de garagem que já previam o caminhar da carruagem e idealizaram a rede mais como um instrumento de ajuda ao trabalho coletivo do que na nova mídia de massa customizada. Ganharam no quesito acesso liberado generalizado (por enquanto, e desde que a banda chegue), mas perderam em todas as outras instâncias.

Não nos deixemos enganar pelo simulacro do coletivo das redes 'sociais'. Porque um verdadeiro diálogo entre humanos é feito com a presença do outro. Nossa percepção é tão treinada que, em geral, as palavras têm muito menos significado que a expressão corporal. Um 'meu amor' falso presencial é instintivamente percebido (percepção, às vezes, igualmente negada, mas é outra história). Um 'meu amor' escrito, ou mesmo gravado, acompanhando de uma foto - nem precisa ser um nude - carrega uma mensagem distinta daquele que enviou e daquele que recebe que, só por sorte, coincidem serem a mesma. A memória de infância é puro saudosismo nas fotos. Mas aqueles olhos verdes piscando na minha frente me lembram que o fdp roubou minha bicicleta, devolveu estragada e nunca se desculpou! 

É óbvio que as redes 'sociais' têm muitas vantagens, e é provável que esteja me lendo agora porque elas existem. Sim, sou fã de carteirinha delas, acredite. Como sou fã do Atlético Mineiro, o Galo. Só não me desvio um minuto do jogo para pensar que aqueles onze sujeitos - e toda a indústria mercantilista que os cerca - estão ali para me fazer um sujeito melhor. Estão ali para trocar meu tempo e dados para vender para patrocinadores. Mas, mesmo sabendo disso, me divirto inteiramente torcendo pelo meu time. É só não me deixar iludir.

As redes vieram para suprir uma das nossas mais caras necessidades - agora mais do que nunca em nossa história na Terra - a de estarmos em grupo, catando piolho, rindo e transando. Notaram, na passagem dos séculos, que estávamos enlouquecendo - e o processo continua. E uma das razões era justamente nos comportarmos como se não precisássemos de estar juntos. Como a fábula do Escorpião, é da nossa natureza, para o bem e para o mal, o coletivo. Navegamos e nos envenenamos juntos. Mas, como a televisão no passado, ainda damos uma nova utilidade para a grande nova mídia de massa, ao apontarmos nossa culpa para ela. Como antigamente, onde a depravação moral era fruto do cinema, das histórias em quadrinhos, da TV, agora são as redes 'sociais'. Mas a depravação é nossa, na negação de nossa natureza, e a recusa em tentarmos resgatar o que nos é precioso, na ilusão de que seria andar para trás, um sinal de fracasso.

Pois estamos já fracassando como espécie. Há animais suicidas, mas não como uma das principais causas de mortalidade, como tem sido o nosso caso. E mesmo os rinocerontes e guepardos cuidam de seus filhotes até que atinjam idade adulta, cuidam do meio ambiente para que ele alimente sua prole, e têm cuidado para não atacar os seus a toa. Deve ser uma dádiva terem um tipo de consciência diferente da nossa. 

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