Socorro! Os jovens estão desistindo! (ou Deem-lhes asas, não tijolos!)

O que estamos fazendo (hoje) para ajudar os jovens? Crédito: Paixabay

Que mané sobre cinema o quê! O grande escândalo que foi noticiado e que deveria ter chamado a atenção no Enem passou desapercebido: 30% dos formandos da escola pública não se inscreveram no Enem! Se somar com aqueles 40% que não concluíram o Ensino Médio, de fato temos uma minoria de jovens de 19 anos, especialmente nas classes vulneráveis, que disseram algo como "estudar não é pra mim!" Para quem gostou de comentar sobre o tema da redação do Enem de 2019, aviso de spoiler: estamos nos créditos iniciais de um filme catástrofe!

Amplio a angústia daqueles que já notam mais um dos fatores do alargamento da indecente desigualdade social: 95% dos alunos das escolas privadas disseram presente para o Enem. E ainda falta apurar se, dos 23% que desistiram no primeiro dia (mais de 1,2 milhão!!!), qual a porcentagem era das escolas públicas. Mas, daí, nem sei se importa mais tanto!

Caramba, são Jovens! Desistir diante de um desafio não é natural para quem tem 19 anos. Pode-se buscar qualquer teoria comportamental, todas elas vão dizer, de uma forma ou de outra, que devemos nossa evolução a essa rapaziada, desde os tempos de caçadores-coletores até os movimentos dos anos 1960 (e também os recentes no Brasil, de 2013, nas jornadas de junho). Que sejam as drásticas mudanças hormonais, a busca obsessiva por sua própria identidade, condicionamento cultural ou mesmo para matar o pai (metaforicamente, hein?), o que importa é que jovem naturalmente não é derrubado facilmente. Mas não é que, entre todas as mazelas que esse país enfrenta, temos mais essa característica? Matamos a natureza do nosso jovem. Como isso está acontecendo? O que podemos fazer?

As respostas são complexas? Sei não, dizer isso sempre me parece algo como "nossa, que complicado, não dá para resolver...." e passamos a bola adiante ou debatemos se a temática da ditadura foi contemplada na prova do Enem. Na realidade, a situação é até simples: estamos colhendo os frutos envenenados de anos de safras de uma política educacional (ou a falta de) para os jovens no Ensino Médio. Dá para resolver? Dá, se cada um que tenha um pezinho no mesmo Ensino Médio começar a olhar para ele com um carinho pró-ativo (porque carinho do tipo 'coitadinhos' já não está resolvendo mais), e fazer alguma coisa. Meu pé não está lá, mas o coração, sim, e estou dando meu pingo aqui. Pode dar o seu daí?

Seguinte: o Ensino Médio não faz sentido para esse jovem. Eles não veem como algo que lhe acrescente à vida (as principais informações do mundo já teve lá no Fundamental, segundo sua visão, ou tá lá no Google). Para os educadores dos tempos idos, era o lugar do desenvolvimento do pensamento abstrato. Bem, essa rapaziada não precisa mais disso, pois a digitalização do mundo e a oferta de toneladas de bits de informação diária já o transformou e, mesmo sem muita direção, desenvolveu seu próprio pensamento abstrato. Então, ele esperaria que o Ensino Médio lhe indicasse o caminho nessa nova etapa em que seus hormônios, o sistema educacional e a sociedade de consumo diz "voa, passarinho!"

Mas cadê as asas? Definitivamente, não é a decoreba dos milhares de conteúdos que, no entender dele, só servem para pesar um tempo em que já são sobrecarregados pela cultura produtivista/capitalista/consumista, que lhe obriga a buscar rendimento para si, quando não para a sua família. E você vem me ensinar a aplicação da Lei de Newton nas galáxias? Atenção, os educadores são os que menos têm culpa: a quantidade de conteúdo que são obrigados a tentar empaturrar a cabeça dos jovens é cruel. Tudo para que possam vomitar uma vez por ano numa prova que mais parece a porta da eternidade: passe por ela e serás feliz! Pena que o tamanho é de uma fechadura!

Diante disso, seria preciso repensarmos como estamos é falando com essa garotada: sim, cabe aos adultos entender a motivação e tentar acionar incentivos que façam esses meninos e meninas pegarem no tranco novamente. Dizer que o sucesso não pode ser medido pelos 'influencers digitais' ou pelo vídeo viral da semana, casos que são exceções, e, mesmo eles, grande parte foi resultando de trabalho duro anterior. Ou seja, embora não pareça, a ideia de que não tem almoço grátis ainda prevalece, e que a lógica é trabalho, estudo, esforço, 90% de transpiração, 10% de inspiração (que vieram do trabalho, do estudo e do esforço) é o que rege. "Sem disciplina, o talento não serve para nada", diz uma das referências filosóficas de uma parte significativa dessa rapaziada: Cristiano Ronaldo (se você não sabe quem é, taí parte do problema. Se sabe, saiba que, alguns momentos, é mais eficaz que Freire).

É preciso que digamos, sem nos cansar (jovens precisam de repetição como método de ensino-aprendizagem), que, se está difícil com estudo, imagine sem. Um curso superior é, estatisticamente, responsável pelo aumento de 2,5 no salário. Mesmo um curso técnico faz uma grande diferença. E a Inteligência Artificial (IA), e a tecnologia em geral, estão tirando o emprego justamente dos menos qualificados. O que restará para esse jovem?

Pois é, está dando para entender o aumento de sofrimentos mentais dos jovens? A obsessão pelas mídias digitais e seu mundo fantasioso e efêmero? Mas temos a obrigação de resgatar nossa própria auto estima. Temos o que dizer. E é preciso que se diga, nas aulas, em palestras, em vídeos... mas partindo deles, do que gostam, do que lhes faz sentido, e não do mundo quimérico, ou saudosista, que os adultos acreditam ser melhor para um jovem idealizado. Essa fórmula - meu passado é que te condena - não funciona mais para a rapaziada, e cabe a nós o puxarmos do fundo do poço da desmotivação. Não esperemos o Estado fazer isso, nem mesmo o safado mercado de trabalho e menos ainda das mobilizações sociais. São segmentos sociais que até podem ajudar, devem, até, mas eu meio que já tô com preguiça deles. Os jovens tem pressa. Melhor, nós é que temos, para que eles não desistam. E com sua desistência, condenemos seu futuro e nossa esperança.

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