O Mamute e o Tigre: a fábula de uma TV em mutação

Faz de conta que o Mamute é a TV e o Tigre é a Internet: estão achando melhor entrar em acordo, não? Imagem de Michi-Nordlicht por Pixabay

"A televisão é um elefante rumando para o cemitério, mas, até chegar lá, ainda vai derrubar muita mata pelo caminho". Essa frase é de Walter Silveira, me relatada pelo mestre e amigo Gabriel Priolli. Somo a essa lembrança uma mais recente, de outro amigo, e agora meu mais novo mestre, Fabiano Pereira, quando apresentou dados de que o elefante continua seguindo em frente. No entanto, penso que talvez a melhor metáfora seria usar o mamute: também caminhou para o seu fim, mas, antes que acontecesse, deu bases o moderno elefante, um novo ser, mais forte e mais adaptável, com características e habilidades copiadas de outros seres com quem convivia. É a lei da evolução também acontecendo nas tecnologias de comunicação em massa.

Isso não faz com que Walter, profissional de longa data da televisão brasileira, passando pela TV Cultura de São Paulo e TV Brasil, e hoje diretor da Rádio Cultura FM do Distrito Federal, estivesse errado. A televisão, do jeito que o senso comum conhece, de fato está indo para seu cemitério, e, por mais que seja moderninho dizer que a internet e as redes sociais agora são um belo tigre, lindo, feroz, ágil, cruel e faminto, a realidade mostra que a mata também é espessa para eles.

Segundo dados lembrados por Fabiano, em sua palestra 'As múltiplas telas das novas audiências', durante o Fórum da Associação Brasileira de Televisão Universitária, em 2019, a televisão é ainda o aparelho quase que hegemônico nos lares brasileiros, estando em 95% deles. Há mais televisão no Brasil do que geladeiras, e ela só perde, no quesito eletrodoméstico, para o fogão. E embora já há uma média de mais um aparelho de telefonia celular por habitante, isso não se reflete nas casas, onde estão em 89% (se contar só smartphones, cai para 67%). E nem vou falar em computador, pois seus 38% de presença remete a outro assunto, embora tangencial, que é a oferta e o uso da internet pelo cidadão comum.

Portanto, é precipitado o anúncio da morte do Mamute em questão. O que é irônico, embora só confirme o aspecto mórbido de quem gosta de imputar às tecnologias tendências homicidas. Ela mesma, a TV, foi apontada como possível assassina de algumas tecnologias de comunicação em massa, como o rádio e o cinema. Só que não! O que se viu foi, especificamente no caso do cinema, um reforço nas suas diferenças enquanto meio, mas uma amálgama enquanto linguagem. A experiência do cinema retringe-se às suas salas, mas o cinéfilo amador se confunde com telespectador no que condiz a expectativa do que assistir nas telonas ou telinhas. Com exceção dos aficcionados, tanto de um quanto de outro meio, sem problemas. Desde que o mundo é mundo, as tecnologias vão se fundindo, aprimorando-se e deixando para trás peças soltas e inúteis pelo caminho. Cada um tem sua mata para caminhar, mas está tudo na mesma floresta.

No caso da TV me parece claro que estamos tendo é o previlégio de presenciar uma mutação in loco. Se posso ousar em dizer que a televisão vai muito bem, obrigado, talvez o que chamo de bem não seja exatamente o que pensávamos antes do que seria bem: enormes audiências nas suas pouquíssimas emissoras, rios de dinheiro pagos por clientes e empresários despreocupados com resultados com métricas precisas, produção e glamour semelhantes aos astros de Hollywood e deuses do Olimpio. Essa TV, de fato, já ficou pelo caminho, e há tantas evidências que precisaria de um artigo só para elencar os pedaços já deixados na mata.

O brasileiro ainda assiste uma média de 19 horas de TV por semana, mais que as 13 horas que fica à frente do smartphone. A tela doméstica perde apenas para a do PC (26h), mas a comparação é injusta, pois o computador é um instrumento de trabalho. Já se sabe que nós nos transformamos em telespectadores simultâneos (vemos o mesmo conteúdo em telas diferentes, como assistir a novela no seu canal de origem, mas o episódio que perdeu na plataforma da emissora, pelo celular) e sequenciais (emendamos a temática do que assistimos com conteúdos em outras telas, como quando vemos uma notícia na TV e buscamos complementar a informação na plataforma de um jornal). No primeiro caso, somos 61% dos assistentes, contra os 39% no segundo caso. Qual é o seu perfil?

"Assistir TV deixou de ser uma atividade que comanda nossa atenção completa", afirma o Fabiano Pereira. 52% da população brasileira acessa a internet enquanto vê a TV. Mas mantêm-se a tradicional média de cerca de três horas e meia assistindo televisão, média que já existia em tempos pré-internet. A diferença agora é que essa programação pode estar em outras telas, e concomitantemente com outros conteúdos, a maioria das vezes associado o que se vê, mas não necessariamente. Uma coisa é certa, porém: amamos videos, e os 92% de usuários de internet fazem uso dela para assisti-los. Moral da históra: Mamute e Tigre resolveram assistir NatGeo juntos, e estão vendo se aprendem algo juntos.

No entanto, há muito ainda o que se discutir, por exemplo, sobre a desigualdade digital. A banda larga empacou no Brasil e não chega no interior. De fato, a popularização da telefonia celular passou por cima e se hoje temos uma penetração de 70% da internet, deve-se a ela. O problema é que é cara e ainda mantêm quase 1/3 das pessoas sem as suas benesses, como informação diversificada, possibilidades educativas e economia no consumo (ao viabilizar comparação de preço ou mesmo a compra). O plano de banda larga social, abandonado há um bom tempo, deveria, em tese, não deixar mais esse fosso social. Mas advinha quem, mesmo com a internet, ainda está na casa das pessoas? A tal da TV.

O Fabiano Pereira ainda explicita algumas coisas que já desconfiava: apesar de uma aparente dominação da internet e seus novos brinquedinhos (VOD, IoT, IA, OTT e outros ingredientes dessa sopa de letrinhas), há diversas oportunidades para quem gosta de ver ou trabalhar com televisão. A TV regular, e eu gosto de enfatizar as suas vertentes locais, ainda são referência no factual e, mais ainda, quando se imagina eventos programados e, principalmente, nos ao vivo. A credibilidade da televisão, nessas ocasiões, é inegavelmente superior a desacreditada internet, e a sua busca faz parte da necessidade por uma experiência real, e personalizada. Quem tem algumas décadas de existência, é capaz de se lembrar, com detalhes, onde e quais os sentimentos teve quando assistiu a queda das torres gêmeas no atentado de Nova York. Mas lembraremos de alguma notícia impactante que lemos na internet, e que não veio com um sentimento de "hummm, será?" As pessoas confiam mais num elefante do que um tigre...

As oportunidades também estão nas já experimentadas sinergias de conteúdos, passeando da TV aberta, para o canal pago, para o sistema de 'tvflix' de cada uma das emissoras. Sem contar os pequenos trechos de programas, jornalísticos e de humor, circulando por aplicativos de troca de mensagens. Junte-se a isso os mecanismos de busca, e aquele conteúdo que, uma vez exibido na TV uma vez só, ganha abrangência, reprodutividade e qualificação. 'Puxa, perdi aquela reportagem da chamada!' Seu problemas acabaram, basta dar uma busca e lá está!

Puxando a sardinha para nossa luta, queria ver mesmo tudo isso nas televisões locais, TVs Universitárias, TVs comunitárias, as emissoras pequenas do interior, webTVs, canais regulares do YouTube feito pelas escolas fundamentais.... Com a imaginação solta, sem compromisso com anunciante, mas de trato com sua audiência, as TVs podiam retornar sua vocação de agregar as pessoas em torno. Agora, não mais em torno do televisor (esse aparelho que, erroneamente era caracterizado como televisão, quando era apenas um dos seus exibidores). Mas em torno da produção, da sua missão enquanto instrumento de comunicação social.

De boa, estou ansioso em ver, no mínimo, os aplicativos 'flix' das TVs universitárias pelo país. Quem será a primeira?

Tudo isso, somada à citada presença majoritária do aparelho nas casas, mostra que a televisão resolveu ser mutante, e, ao contrário da música da Rita Lee, não optou por seguir sozinha. O Manute está se reinventando como elefante de pele grossa, mas social o bastante para se fazer acompanhar do Tigre, que também há quarenta anos atrás nada mais era um daqueles gatinhos comuns nas universidades, nos quartéis e nas garagens dos nerds. Agora, se pudermos olhá-los sobre seus aspectos evolutivos, veremos que ambos não são e nem serão mais as midias que adoramos conhecer. Mas qual o problema nisso? Saudosismo nunca funcionou mesmo muito bem com a tecnologia. Estou otimista demais? "Aí de mim que sou romântico! Ai de mim que sou assim!"

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