Robie e os robôs do bem


Rosie dá um tempo nos Jetsons e agora caça políticos em Brasília: o sistema de IA teve o nome inspirado na personagem de Hanna Barbera. Crédito: divulgação

Sinto que, recentemente, a ideia das máquinas pensantes criadas pelos homens têm criado uma apreensão maior entre as pessoas. Os motivos para tal angústia podem vir desde a atual onda conservadora, que responsabiliza tudo que é moderno como um mal para a sociedade, até a ampliação da conscientização do que os sistemas robóticos já nos tiram de autonomia, como as escolhas que o Facebook têm feito para selecionar o que, supostamente, achamos mais relevante.

A ficção ajuda. Não são poucas as produções cinematográficas que colocam os robôs como vilões. No entanto, também não faltam àquelas onde eles são os mocinhos. Que tal também olharmos para esses bons exemplos? Um maravilhoso robô do bem tem sido a Rosie, que tem deixado preocupados políticos do Brasil todo. Como deixar político preocupado é sempre uma coisa boa, taí um bom exemplo do uso de inteligência artificial (IA).

Rosie foi criada por uma turma de jovens idealistas, financiada por um sistema coletivo, e é um sistema de IA desenvolvido para buscar as pequenas corrupções que os políticos fazem quando do uso de verba indenizatória. Vamos, então, lembrar que robôs, na realidade, são aparatos tecnológicos, com ou sem (IA), mas que não necessariamente têm um formato humanoide, embora fiquem mais aceitáveis para nós se tiverem dois braços, tronco e cabeça com olhos e boca. E que têm como função substituir trabalho humano de forma autônoma, em processos de produção repetitivos, em que o seu supervisor de carne e osso tenha pouca ingerência, e que ela se restrinja, se possível, a uma programação inicial. Neste sentido, os robôs já estão presentes desde os primórdios da revolução industrial, e não é a toa que a programação feita para os primeiros teares serviram de inspiração para a criação das linhas de programação dos computadores modernos.

Voltando a Rosie, mas que ideia, hein? Aparentemente, a fiscalização dos gastos dos políticos é simples, dada a legislação de transparência a qual são submetidos, e aos diversos sites, públicos e privados, onde estão disponibilizados. No entanto, esses dados estão escondidos nas tramas do ciberespaço, e é razoável pensar que é por querer. Se a gente não acha o telefone obrigatório de atendimento ao consumidor nos sites das empresas, imagine como deve ser para o cidadão comum saber se o seu político gastou os recursos públicos com manutenção de escritórios regionais ou em uma viagem a Miami?

Pois, para a Rosie, seus problemas terminaram! Ela faz a busca dos dados, cruzando as informações disponíveis (CNPJ da empresa da nota fiscal, por exemplo) com dados fundamentais, como a coerência da despesa com a atividade parlamentar e previsão na legislação, e dados aparentemente desconexos, como presença do deputado na Câmara ou quanto uma pessoa pode comer por dia.

Segundo reportagem de Tâmara Teixeira, do jornal O Tempo, em dois meses Rosie 'dedou' mais de três mil casos suspeitos. "Já foi encontrada uma nota de R$ 170 de um restaurante onde o quilo da refeição custa R$ 14. Ou seja, teriam sido consumidos 12 kg em um dia. Ainda tem o reembolso de um almoço de R$ 41 feito em São Paulo, apenas 35 minutos depois de o deputado ter discursado em Brasília." Segundo outra reportagem, de Lucas Carvalho, do Olhar Digital, o deputado tem que responder para a Câmara, quando essa recebe a denúncia, e a maioria reconhece a bobagem e devolve o dinheiro. Os demais tentam justificar e a Câmara determina se ele está ou não com a razão.

Ok, é pouco, já que a cara de pau dos sujeitos é enorme e fazem a despesa no estilo 'vamos ver se cola', e quem deveria punir são os mesmos que se beneficiam. Robie, no entanto, é fruto de uma nova cultura, do uso da tecnologia em benefício da cidadania, e pode ser o início de uma revolução nesse sentido, como tem sido o uso das mídias sociais nas eleições. Aliás, não é a toa que seu sistema é aberto e pode ser aprimorado e reproduzido por qualquer um que se disponha.

O importante é que tais sistemas aprendem ao longo dos processos, e daí a diferença dos atuais robôs, quando providos de IA, dos primeiros que foram para as linhas de produção de fábricas. E, com aprendizagem, tudo se transforma em uma bola de neve. São pensados novos sistemas que melhoram a vida do ser humano, como robôs que fazem companhia para pessoas, principalmente aquelas isoladas, como crianças ou idosos. As aplicações são inúmeras.

Certo, para o bem e para o mal. Por isso, não devemos nos tornar amantes platônicos da tecnologia, sem questionamentos. Mas coisa boa é que é isso mesmo, não se deve relaxar. Nem acreditar que os sistemas de computação que são feitos para pensar por nós são a solução da lavoura, nem tampouco a praga de gafanhotos. Mas ficarmos atentos em o que nos auxilia como cidadão, e o quanto temos que ficar espertos para não sermos usurpados por quem a programa.

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