Em quem acreditar mais: TV ou Internet? Pobre, com pouca instrução, é o mais desconfiado



 
Pixabay CC0 Public Domain

Da série "qual a diferença entre a TV e a Internet?" No nosso caso aqui, acrescenta-se "afinal, a internet vai mesmo acabar com a TV?" Pois bem, como aqui se defende que a TV está ficando cada vez mais forte (independente de onde esteja sendo veiculada, no televisor ou no smartphone), um dado recente reforça uma diferença importante entre as mídias: a TV é muito mais confiável que a internet. E a diferença é, mais ou menos, entre acreditar no padeiro da esquina e no político de Brasília. No caso do primeiro, eu preciso acredita que o pãozinho é saudável. Já, no segundo, não acredito nem na intenção do 'bom dia'.
 
A Pesquisa Brasileira de Mídia de 2016 apontou que, enquanto mais de 50% das pessoas confiam nas notícias veiculadas na TV, o mesmo acontece com apenas 20% em relação a internet. Invertendo, o grau de desconfiança na TV é de 46%, bem alto, mas bem menos do que os 78% na internet.


Grau de confiança nas notícias que circulam em cada mídia

Confia sempre
Confia muitas vezes
Confia poucas vezes
Nunca confia
Não sabe
TV
27
26
38
8
1
Radio
29
28
35
6
2
Jornal
30
30
36
4
1
Revista
15
25
51
7
2
Internet
6
14
62
16
2
  Fonte: Pesquisa Brasileira de Mídia 2016

Mais dados interessantes: o rádio ganha da TV por quatro pontos, e ratifica que metade dos brasileiros confia em sua radiodifusão. Atenção, a boa notícia (sem trocadinho) é que metade NÃO confia. Isso dá munição para ambos os lados da teoria da manipulação da mídia. No entanto, no caso da TV, a idealização de um pobre ignorante manipulado pela Rede Globo e pelo Silvio Santos não encontra respaldo. 

Quando destrinchada por renda, o mais desconfiado é justamente o de menor poder aquisitivo, sendo o campeão em citações de quem nunca confia nas notícias das emissoras (12%). Aliás, o grau de desconfiança, somando os que declaram que nunca ou confia poucas vezes nas notícias da TV, é muito semelhante entre as faixas de até um salário mínimo e acima de R$ 17.600,00 (50% e 52%). Já nas demais, há pouco diferença também, embora, em relação aos números dos muito ricos e muito pobres, sejam mais crédulos em, pelo menos, 5 pontos. 

Grau de confiança nas notícias que circulam na TV por renda

Fonte: Pesquisa Brasileira de Mídia 2016
Já em relação a escolaridade, os mais desconfiados em relação as notícias veiculadas na TV são justamente os analfabetos e os de fundamental incompletos. No primeiro caso, quase 20% nunca confia nas notícias da TV, enquanto que, no segundo, mais de 50% desconfia fortemente (soma dos que nunca confiam com os que confiam poucas vezes). E, a medida que o grau de instrução melhora, mas se acredita na TV! A ponto de que, a partir do médio incompleto até o superior completo, o grau de confiabilidade fica entre 57% e 58%.

Grau de confiança nas notícias que circulam na TV por escolaridade

Fonte: Pesquisa Brasileira de Mídia 2016

Outro dado interessante: ao mesmo tempo que o campeão de credibilidade é do bom e velho jornal impresso (60%), seu irmão rico, a revista, só ganha da internet, com 58% de desconfiança. Não vamos nos aprofundar nesse dado aqui, mas vale um "bem feito" para essas publicações que têm construído seu próprio túmulo com suas escolhas editoriais condenáveis. Já em relação os jornais, mostra que eles ainda têm capital de credibilidade e que precisam apenas achar um modelo negócio em equilíbrio entre o papel e o digital, sem cair nas tentações que afundam as revistas impressas.

Ok, mas vamos combinar que nenhuma é mesmo muito confiável. Mas, daí é a história da mídia. No conjunto, nunca foram muito confiáveis mesmo. Apenas boa parte do público acredita numa imparcialidade auto relatada, mas que inexiste, tanto por ser um produto e, como tal, vulnerável as demandas de mercado, tanto porque o ser humano é incapaz do afastamento de seus próprios interesses, altruístas ou egoístas, mesmo escrevendo ou editando. 
 

Temos uma espécie de acordo tácito com a mídia, algo como uma dissonância cognitiva, do tipo "me engana que eu gosto". Não é algo novo. Precisamos, para não nos entregarmos a paranoia, de uma fonte confiável de informações, dado que, seres comunicativos que somos, informação é necessidade básica. O trato da notícia, do que acontece, das ameaças e oportunidades, foram e são elementos fundamentais de nossa evolução enquanto espécie. Daí, é preciso acreditar.


Antigamente, a religião e os poderosos eram essas fontes. A partir da disseminação dos impressos, jornais e livros, a 'verdade' estava tangível. As mídias eletrônicas foram sua continuidade, assim como a internet. É preciso crer, mas o que se percebe é que a desconfiança, presente, lá no fundinho, de todo acordo tácito, tem ganhado uma importância, o que é bastante salutar. Não é preciso se entregar a paranoia, mas desconfiar sempre é uma boa.

A Pesquisa Brasileira de Mídia tem muitos mais dados, muito ricos e detalhados, que tentaremos explorar nas próximas semanas. Mas qualquer um pode, e deve, também fazer suas próprias análises já que é um levantamento público. A investigação é de bastante fôlego, e foi realizada pelo Instituto IBOPE Inteligência, para a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República, com 15.050 entrevistas domiciliares face a face, em 740 municípios, entre 23 de março e 11 de abril de 2016. Lembremos que as pesquisas eleitorais mal passam de 2 mil entrevistas.


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