Viva o Dia do Leitor! Mas não faça acusações injustas aos jovens (e a você!)

Se fores um bom leitor, e conseguir cativá-lo até o final, lerás desde as justificativas do porquê defendo ser um mito essa história que jovem de hoje lê pouco como aproveito para indicar a leitura de um jovem escritor mineiro que comprova o que digo. Mas se você for um desses jovens que têm costume de ler pouco, dou-lhe spoolers. Assim, pode fugir o quanto pode e continuar dizendo que os jovens leem pouco...
 
Jovens hoje nunca leram tanto, jovens de ontem também não liam como fantasiamos, nossa condição sociocultural não nos convida à leitura, os jovens leitores ávidos sempre foram exceção e muitos sendo assim resultado de circunstâncias nem sempre edificantes, livro é muito caro, e o jovem é o Thiago Lacerda e sua imaginação sem limite e fez esse velho leitor mudar uma de suas arraigadas convicções. Interessou? Vamos em frente. Mas se não gosta de ler...
Começando pelo Thiago. Me presenteei com um de seus livros, Sombras de Lynary – O Lobo Vermelho, uma catatau de mais de 600 páginas. Não era fã da literatura de fantasia épica, essa de espadas e dragões. Daí, mesmo ávido por séries de outras fantasias, nunca tinha assistido Guerra dos Tronos (uma heresia para os meus colegas nerds). A literatura de Thiago me fez mudar de ideia e hoje sou um fã do gênero. Um conflito de gerações que me dei bem.

O que nos leva aos primeiros argumentos contra o tal mito de que o jovem de hoje lê pouco. A literatura de Thiago não é exceção e há dezenas de jovens e adultos produzindo para esses nerds etc. que consomem de tudo, têm grupos em redes sociais e basta um pulinho em uma livraria pra ver a riqueza de títulos. Bão, e não seria assim se não vendesse, certo?

Agora, sério? 600 páginas? Fiz uma brincadeira na minha estante: claro que comprei o mais novo livro do Thiago, Herdeira do Norte, e a soma das suas lombadas foram maiores que os da Coleção Vagalume que os saudosistas adoram clamar quando falam dos bons tempos que nós jovens líamos. Se coloco outro sucesso, apenas um dos livros da franquia Manual do Mundo, sobre ciência (cumã?), aí fiquei com vergonha da minha prateleira. O mais próximo de um livro de ciência que li na minha infância, espontaneamente, foi o Manual do Escoteiro Mirim.
E já viram a coleção do Diário de um Banana? Parei de contar no 15° livro. E tem todos os seus concorrentes, como o delicioso Capitão Cueca. Repito: basta visitar uma livraria e ver que a indústria editorial não parece compartilhar do mito.

“Ah, mas estou falando de boa literatura.” “Boa” a partir de quem, cara-pálida? Então o problema não seria quantidade de leitura, mas a sua qualidade? Já leu Harry Potter? Quem é o Caso da borboleta Atíria e o Mistério do 5 estrelas naquela miríades de casas e bichos extraordinários, bruxos hora vilões, hora heróis, um rol de personagens que vem e vão tão misteriosos que me dá um nó na cabeça.

A literatura é reflexo da época que foi produzida. Então, acredite, a literatura infanto-juvenil de hoje é tão complexa como o tempo que vivemos. E isso é ótimo.

Sim, temos enormes desigualdades, mas nenhuma delas pode ser colocada nas costas do pobre jovem, esse ser ainda incompleto e que exigimos tomar decisões que cabem aos seus responsáveis, pessoais e da sociedade que o abriga.

Jovens sempre leram pouco. Preferem, naturalmente, a ousadia do movimento. Mas precisam estudar, ficarem seguros, então os recolhemos. Mas a inquietude é sua essência. E, portanto, sua literatura tem a inquietude de seu tempo. E, se pensar bem, ao se lembrar de jovens leitores, geralmente o são por circunstâncias específicas. Eu, por exemplo, credito meu vício literário a minha asma, que me obrigava a ficar acamado. Outros tiveram a sorte de expostos a bibliotecas misteriosas que lhe empolgavam a inquietude. E mais um tanto que têm especificidades de aprendizagem que os levam às páginas de livros, diferente daqueles que veem no audiovisual, na vida ao ar livre ou na experiência sua escola da vida.

Jovens leitores são exceção desde sempre. O analfabetismo, a exclusão educacional, a ignorância como política de poder até o início do Séc XX foram a regra, e se mantêm até hoje, ao olharmos para as políticas educacionais que temos. Daí vem outro grande motivo dos jovens, desde sempre, lerem pouco: ler é poder. Nossa cultura patriarcal/autoritária nunca incentivou à leitura. “Essa menina é rebelde assim porque fica lendo essas coisas aí!”, “Esses jovens são rebeldes porque leem demais”. Fahrenheit 451, fabulosa obra do sci-fi Ray Brandbury até mostra uma sociedade sonhada pelos déspotas que querem queimar livros. Não à toa a História mostra que nunca foi uma prática deixada de usar pelo ditador de plantão.

Uma vez me perguntaram se não tinha medo de adoecer por ler demais! “Não faz mal pra cabeça?”

E uma das maneiras de se manter a leitura à elite é pela exclusão econômica. Livros estão caros e, de fato, o que mudou foi essa indústria que agora é preguiçosa e só quer vender pros governos. E governos excludentes que não criam políticas para formar leitores, dando menos canja pra grandes editoras. Meu saudosismo está lá numa loja da Ediouro, com aqueles livrinhos curtos, baratos, mas onde li desde a Coleção Gregos e Romanos até as delícias de Orígenes Lessa.

É impressionante como até a benesse da literatura que cai em domínio público, ao invés de gerar livros baratos e disponíveis, faz com que editoras empacotem edições de luxo e mantêm tais obra para nichos endinheirados.

Ainda bem que tem uma galera, a do tipo do Thiago Lacerda, que circulam seus livros e suas leituras fora desse universo consumista. O que mostra que, não só há muitos leitores jovens, mas um mercado, se não milionários, de alguma forma lucrativo.

Portanto, não são os jovens de hoje que leem pouco, os jovens de sempre leem pouco porque não são devidamente incentivados e criadas condições para tal. O que tem feito para mudar isso?

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