O cientista envergonhado

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Meu filho de 8 anos quis saber minha opinião sobre o que ele deveria ser quando crescer: cientista ou cantor? A sua anterior primeira opção, jogador de futebol, está em baixa, não sei exatamente o porquê, mas também não quis perguntar. Afinal, a dúvida era dele. Eu disse que preferia cientista (que me perdoem os cantores), mas o que me encafifou foi da onde ele tinha tirado a opção cientista, até então longe de suas pretensões.

Teria a escola incutido nele esse desejo? A escola estaria despertando a busca pelo conhecimento? Não, sua resposta foi mais simples:  "Uai, de você. Você não é um cientista? Não vive fazendo pesquisa?"

Pois é, não é que me descobri um cientista envergonhado? Sim, porque não é exatamente como preencho aquela parte de profissão nos cadastros de hotel e menos ainda em outros documentos oficiais. Mas, porque isso? Não deveria ficar orgulhoso de ser um cientista?

Pois bem, certamente a culpa é minha por isso acontecer e, como disse o sábio contemporâneo Homer Simpson, como é minha, eu coloco em quem eu quiser. Assim, coloco na bendita área das ciências sociais que, como um todo, não se coloca muito neste papel.

Na realidade, nós, cientistas sociais, realmente fugimos do estereótipo popular do cientista, com jaleco branco e um laboratório com equipamentos exóticos e perigosos. Tenho por mim que isso não é a toa (bom, se achasse, não seria um cientista social...). Em algum momento lá atrás, as ciências naturais acharam por bem que elas são as que representam a ciência e nós simplesmente acatamos. Talvez porque questionássemos até mesmo a noção de ciência, filha da ideia de alquimia, transformando o abstrato em concreto, oferecendo respostas onde haviam perguntas. A gente se acha mais do que isso!

Tem a questão da grana. Cientista que é cientista tem que ter dinheiro para bancar os tais jalecos e laboratórios exóticos. E como dinheiro gosta é de mais dinheiro, e não necessariamente de ciência, vai atrás daquilo que rende mais dele mesmo. Ou que fique bonito na foto, como um centro de estudos de arquitetura duvidosa, mas com conceito bacaninha que possa aparecer no Fantástico como a mais nova descoberta científica que irá melhorar a vida do homem (de classe econômica específica, diga-se de passagem...). Com tudo isso, mostra-se o quanto a ciência é 'comprada', 'capitalista', 'extensão dos meios de produção opressores'. Bem, você sabe, nós, das ciências sociais, não gostamos de nos misturar com esse pessoal. Dinheiro, geralmente, é coisa suja. Nós somos pobres, mas somos limpinhos.

É certo dizer que seria outra discriminação afirmar que as ciências naturais se restringem somente a isso. Somos todos cientistas, pronto! Queremos, a partir de um problema, descobrir as possíveis soluções, usando metodologias éticas que possam nos auxiliar a chegar a resultados propícios a analisar sua reprodutividade, aplicabilidade e sociabilidade. Até que alguém questione tudo e se recomece o processo. Não importa se é para descobrir um polímero ou uma metodologia pedagógica. Mas ainda acho que o filho do cientista químico não deixaria o pai desconcertado ao querer seguir seus passos.

Portanto, acredito que a questão é ainda mais grave. Essa separação é perniciosa e tem muito prejudicado as áreas de humanas e sociais. Um bom exemplo é a década em que os cientistas sociais lutam por mudanças nos critérios de análise dos Comitês de Ética, nas mãos ferrenhas dos cientistas da área de saúde. A plataforma digital onde se coloca os projetos pertence ao Ministério da Saúde, nem da Ciência e Tecnologia, ou, vá lá, da Educação.Ou seja, para saber a opinião dos consumidores de produtos recicláveis, precisa-se do amém dos enfermeiros. E só porque eles podem.

É certo que a preservação da proteção aos pesquisados, voluntários e contribuintes das pesquisas é inegociável. Mas também é inquestionável que o risco de quem vai se oferecer para testar uma abordagem clínica é muito diferente daquele que somente vai responder um questionário sem identificação sobre sua opinião política. Qual o resultado disso? Negativas por cientistas de áreas distintas sem escopo para analisar os verdadeiros riscos (se os há!), solicitações esdrúxulas como representações estatísticas para pesquisas puramente qualitativas. Ao final, atrasos significativos em pesquisas que tem prazo e verbas determinadas para acontecer, tentativas com ou sem sucesso de criação de eufemismos para contornar as interpretações 'duras',  quando não a simples desistência do tipo de abordagem por uma que não precise sofrer mais do que necessário: troquemos conversar com as pessoas para fazer um estudo bibliográfico e documental.

Na mesma toada, áreas que não estão alinhadas com as ciências naturais, ou as mais representativas na comunidade científica, são rechaçadas. Vejamos o exemplo da comunicação social, sequer atribuída como áreas de conhecimento e saber. Isso justamente no Séc. XXI, uma reconhecida Sociedade da Informação. Seria como não reconhecer as áreas da mecânica ou da administração em plena Revolução Industrial. Ou vai ver, porque sou jornalista e professor de comunicação social, só sou um ressentido e a história me resgatará. Portanto, ilusão ou exclusão, são as minhas opções.

Como nenhuma dela me agrada e me deixa confortável, é melhor eu sublimar (ops!) e escrever mesmo "professor" ou "jornalista" na área de profissão. Embora, como disse meu filho, ele não me vê nem aparecendo no jornal, nem dando aula. Mas, todo o dia, me vê lendo e fazendo pesquisa...

Ora, penso eu, se isso o motiva, bem também que poderia servir para mim. Para nós. A busca do conhecimento como modo de vida não pode depender de um jaleco, um laboratório e menos ainda de uma discriminação feita há séculos atrás e que repetimos já nem sabendo o porquê. Ainda bem que temos cientistas sociais para nos abrir os olhos. Ou uma criança.

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