14 apostas de 15 anos atrás sobre tecnologia: qual o placar dos acertos?



Ao arrumar alguns arquivos velhos, encontrei uma Superinteressante de 2001 que, ao comemorar os 14 anos da revista, apontou 14 tecnologias que iriam mudar o mundo nos próximos 14 anos. Eu gosto dessas tendências. Não para saber o que vai acontecer, mas para medir o grau de pretensão do ser humano em adivinhar o futuro, esse momento imprevisível, tão sensível a tantas e diversas variáveis que ainda fico me perguntando porque ainda tem gente que se arrisca. Sempre me prometo a anotar as previsões de final de ano para cobrar no fim, mas acabo relevando, dado que é mesmo irrelevante. Mas, há 15 anos atrás, eu guardei a tal revista exatamente para que o meu eu futuro achasse e pudesse comparar. Em se tratando de tecnologia, algo que costuma ser mais racional e preciso do que as crenças místicas, deveria ter um grau de acerto maior. Bem, então vamos ver como ficou o placar. Se acredita em horóscopo, o resultado não vai te surpreender.

Atenção, que para a análise levo em conta o meio cotidiano brasileiro, de classe média, de uma cidade grande (Belo Horizonte), mas não uma metrópole cosmopolita. Dá para imaginar que é uma espécie de média mundial, um centro urbano não tão sofisticado quando as mais ricas cidades e populações do planeta, mas também não tão pobre e desguarnecido como boa parte dos habitantes mundiais (mesmo porque esses serão os últimos a aproveitar os ganhos da tecnologia). Ou seja, se temos uma tecnologia já existente, mas ela não está presente no cotidiano de BH, não ganha ponto. Não é um critério perfeito, mas me pareceu fazer sentido.

A reportagem de Otávio Rodrigues foi publicada na revista Superinteressante de setembro de 2001 e apontava 14 tecnologias que iriam bombar nos próximos 14 anos, ou seja, no ano passado. O placar não foi bom.

1) Computador dobrável: a reportagem dava como certa que, em breve, teríamos que manusear apenas uma folha transparente, como já apareceu em vários filmes de ficção científica. Embora de quando em vez lemos sobre a tal tela dobrável, que realmente já existe, me parece que ainda está longe de ser vendida no Magazine Luiza. As telas flexíveis mudaram a vida dos outdoors, mas ainda digito esse texto em um computador não muito diferente de 14 anos atrás (em termos estéticos e operacionais, não de memória e processamento, diga-se). Jornais, e-books e demais produções literárias realmente estão sendo, cada dia mais, acessados por dispositivos eletrônicos, mas não pelas tais telas dobráveis. 1 X 0 para 'bola fora'.

2) Implante de chip: teríamos mini processadores implantados em nosso corpo para medir, transmitir, cuidar e corrigir problemas físicos inatos ou adquiridos. Uma espécie marca-passo para prevenir ou cuidar de doenças como Parkinson ou sensores para registrar, documentar e enviar ao nosso médico nossas condições de saúde. Também já vi aqui e ali, mas meu plano de saúde ainda não me ofereceu um que cuida da minha asma. Ademais, o sistema de saúde não consegue manter uma ficha digitalizada com os dados do paciente! 2 X 0 para 'bola fora'.

3) Agente virtual: essa acertou em grande parte. Previa que os computadores e sistemas de busca iriam, a partir de nossos desejos e comportamentos, nos direcionar para opções que mais se adequassem ao nosso perfil. No entanto, a previsão era que tal sistema seria capaz de nos livrar do lixo eletrônico e nos oferecer apenas o que seria relevante. O que vimos hoje é que o tal lixo é maior do que se imaginava, ou então gostamos também muito de um lixão. E que a tal seleção seria feita, além dos sites de busca, pelas redes sociais. Mas, em grande parte, a aposta acertou: 2 X 1.

4) Computador atômico: a promessa do supercomputador, o tal computador quântico, iria mudar o velho sistema binário (o 0 e o 1) para uma natureza multidimensional das partículas. Me parece que ainda está um pouco longe. Mesmo porque o sistema binário ainda tem funcionado muito bem e a melhoria dos processadores não têm gerado uma demanda maior por outra forma de computação. Os tais computadores atômicos podem até existir em grandes corporações, embora desconheça, mas aqui em casa o 0 e o 1 ainda reinam. 3 X 1.

5) Bactérias escravas: a ideia era transformar células orgânicas em computadores. "Um comando manda um sinal elétrico para o DNA da célula e faz um gene se ativar ou desligar". Embora a nanotecnologia, inclusive farmacológica, tenha evoluído muito, as bactérias podem dormir tranquilas, pois sua escravidão ainda parece coisa de ficção científica. 4 X 1.

6) Chips moleculares: a aposta era que o silício - material que sustenta a miniaturização dos chips - estaria com os dias contatos, já que tem seus limites. Seria substituído pelo "buckminsterfullerene", um novo material de carbono, muito menor que o silício, e mais resistente. Bem, talvez por causa do nome de zagueiro alemão, não se tem notícia de um vale tecnológico com essa denominação. 5 X 1.

7) Vacinas comestíveis: A reportagem, provocando um chiste, disse que seria "o fim da picada" e a solução para as epidemias em países pobres. Pois a ironia e o sinistro é termos uma epidemia mundial de Zika, e o contínuo extermínio de populações pobres ainda por doenças facilmente controladas. Essa bola saiu fora do estádio: 6 X 1.

8) Remédios sob medida: essa parecia fácil. Após o domínio do mapeamento genético, cada paciente poderia ter seus remédios a partir de suas características biológicas próprias. "Felizmente, o remédio igual para todos está com os dias contatos", sonhava a reportagem. Ao que parece, a indústria farmacêutica não gostou muito da ideia, e continuo comprando os medicamentos de linha receitados pelo médico, que nunca pediu meu mapeamento genético. Talvez porque achasse que não valia a pena vender meu rim para isso. 7 X 1.

9) Computador invisível: a reportagem citava a Kio, um computador "vestível", que poderia ter nossos arquivos e fazer nossas conexões pessoais, a revelia de nosso consciente. No final das contas, não temos uma Kio, mas uma turma inteira nos regulando. No relógio digital que conecta com nosso celular que conecta com nossa nuvem que conecta com as redes sociais... de fato, nosso cotidiano está sendo administrado por uma série de computadores invisíveis que conversam entre si, muitas das vezes sem nosso conhecimento, atendendo nossos supostos desejos cotidianos e colocando tudo na memória do smartphone e das empresas de big data. A previsão errou quanto aos óculos como nossas novas telas (o Google tentou, mas ainda não foi dessa vez), mas, nesse placar tão adverso, vamos considerar uma bola dentro: 7 X 2.

10) Nanorrobô: na realidade, não tenho provas que eles existem, mesmo porque a função deles é ser essa mesma, robôs invisíveis se metendo em todas as áreas, fazendo, como diz a reportagem, "nanocoisinhas". Mas estou certo que eles estão por aí.... 7 X 3.

11) Teleimersão: Era o nome esquisito para a realidade virtual. A aposta era que, em 2011, estaria disseminada no cotidiano. Mas só agora alguns jogos têm aprimorado a experiência, que continua longe de outras áreas do entretenimento ou do dia-a-dia. Mesmo essa atual onda de produtos de realidade virtual ainda precisa ser testada, já que a televisão 3D também era uma promessa, mas nunca passou disso, nem mesmo na bilionária indústria do cinema. Bateu na trave, mas ainda é bola fora: 8 X 3.

12) Reconhecimento de voz: "Fazer o computador responder a um comando exato, do tipo "abra a porta", é uma coisa. Outra bem diferente, é torná-lo capaz de associações espertas e fazê-lo abrir a porta quando dizemos "abre aí, sou eu" ou "abre, p..., estou com pressa!"", profetizava a reportagem. Pois bem, talvez porque precisamos, primeiro, aprender a ser educados, inclusive com as máquinas, os sistemas de reconhecimento de voz ainda estão no "abra a porta", embora muitas vezes entendam "a brasa morta". É inegável, no entanto, o avanço, inclusive também nos programas de tradução, como previa a reportagem, mas ainda está longe de fazer parte do cotidiano, e ainda mais do nível de interpretação que a aposta previa. 9 X 3.

13) Carro esperto: o carro de 2015 teria: faróis que dosam a intensidade da luz, sistema de comando de voz para todos os sistemas, bancos que se movimentariam na hora do choque para proteger o motorista, sensores que ajustam automaticamente os assentos, o volante e o painel de acordo com a retina do usuário, motor híbrido (elétrico e hidrogênio líquido, não gasolina e álcool), acelerador e freio no volante, movimentação independente do motorista e de acordo com o trânsito, cartões magnéticos e senha no lugar das chaves, microcâmeras nos para-choques... opa, esse aí já tem! Mas, o restante, só mesmo algumas poucas inovações estão em carros luxuosos. O irônico é que o mais moderno hoje, a tal baliza automática sem a necessidade do motorista, alardeada nos comerciais mais recentes, não estava na lista. 10 X 3.

14) Roupas autolimpantes: As roupas viriam com uma bactéria que se alimentaria de nosso suor e... bom, precisa dizer mais? 11 X 3.

Claro, é cruel fazer essa análise, ser analista do ocorrido. Mas a ideia de reportagens como essa é passar a impressão que temos tudo sob controle e sabemos aonde estamos indo. De vez em quando é bom trucar, como se diz aqui em Minas Gerais, quando se duvida das cartas que o outro diz ter. Pois aqui valeu o truco: como pode-se ver pelo placar, as previsões tecnológicas não parecem ser muito diferentes das astrológicas. Mas é uma boa notícia, nos lembra que temos que nos concentrar no agora, no que temos em mãos e o que temos que resolver para a melhoria da qualidade de vida da humanidade neste momento. Pensar no futuro é importante, mas tentar adivinhar ele a partir do hoje é uma tarefa arriscada e, às vezes, danosa, pois nos tira a necessidade emergente, em troca de uma esperança alienante.

Outra boa notícia da edição antiga: uma reportagem fala sobre o porquê o Brasil ainda não aprovava casamentos gays. Pelo menos essa etapa já vencemos.

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