ENEM, mães no WhatsApp e estatística: filho na escola é pura angústia

Bons tempos que maçã era símbolo de relação professor/aluno. Hoje são as estatísticas que mandam. Crédito: CC0 Public Domain
 


A escola do meu filho caiu no Enem no final do ano passado. E daí? Nós, eu e minha esposa, não estávamos nos importando. Mas sabíamos que a escola iria sofrer uma enorme pressão. Estávamos imaginando a consequência que, ao que parece, já se iniciou - ou deu continuidade: um aperto ainda maior no garoto. E mães estressadas, meio que perdidas nos grupos de WhatsApp, entre um volume meio insano de deveres e a necessidade de se criar autonomia na cria. Mas a pergunta que não quer calar é outra: Porque e para quê tudo isso?

As mensalidade e os custos de educação são itens (se não o principal), dos mais importantes do orçamento doméstico. Todo mês os responsáveis, ao se depararem com o boleto e/ou recebendo os boletins de notas, se perguntam: estou recebendo o que estou pagando?

Há dois enormes problemas para responder essa questão: o primeiro, receber exatamente o quê? O que seria um menino "educado" hoje em dia? E a resposta dessa questão está intrinsecamente ligada ao segundo problema: cada pai/mãe espera o quê de um filho "educado"? Alguns querem que tirem notas altas, mesmo sem saber se o conhecimento foi apreendido ou, pior, se é necessário. Outros, que esteja 'integrado' aos 'novos tempos', como se o uso de smartphones tivesse mudado a essência humana. Terceiros, que sejam felizes, assim, sem muita definição (me incluo, com insegurança, nessa opção). Quartos, que aprendam a se comportarem nos ambientes sociais, que seja dentro de uma futura empresa, que seja no almoço em família. Quintos, que sejam dentro da escola como eles, pais, foram - ou o oposto. A lista não acaba...

De fato, essa relação com a escola efetivamente mudou. Antes parecia haver uma espécie de contrato social mais claro, mas, ao mesmo tempo, mais flexível: eu te entrego meu filho e vocês fazem o possível para colocar nele o que é necessário para que ele possa se virar quando crescer. Era uma relação meio que solta, mas com personagens bem definidos: pais, alunos e professores tinham suas responsabilidades. Como em qualquer relação humana, medir suas variáveis nunca foi possível.

No entanto, estamos na era da informação. E, erroneamente, tem-se a impressão que informação é dado mensurável, é estatística. E é onde o caldo entorna.


Eu entendo a escola. Educação não pode ser medida por estatísticas. Afinal, o que efetivamente acontece com o aluno dentro da instituição que podemos mensurar como, de fato, significativo na formação desse sujeito? A formação do ser humano é tão complexa que suas variáveis podem ir de "a escola orientou completamente o rumo daquele jovem" a "a escola foi só uma passagem obrigatória do estudante, muito mais formado pela sua família e entorno". Imagine as inúmeras nuances entre uma e outra?

Portanto, deve ser difícil entregar para os pais algo que não dá para medir inteiramente qual foi sua parte. Complica um ambiente social cada vez mais complexo para as escolas: diminuição de filhos por família e, assim, uma demanda menor por vagas, crise financeira, estruturas físicas caras, ampliação e exigências de novas disciplinas (tecnologia, formação cidadã, conscientização de diversidades), formação continuada dos professores, e a lista aqui também continua.

Daí, tudo que puder gerar números é feito: olimpíadas, inúmeros trabalhos e provas, competições de todos os tipos. Tudo para que eu possa ver a educação de meu filho em números. E como tudo agora parece 'integrado', quebrando aquele pacto anterior de responsabilidades, se a nota do menino cai, todos somos culpados. O que, no meu entender, gera uma angústia coletiva que, como tal, vira um círculo vicioso, já que todos estão no meio do tornado.

E volto a pergunta inicial: e pra quê? Meu filho tem oito anos e ninguém sabe como será o mundo daqui 10 anos. Seguiremos em uma especialização tão fina que poderá fazer dele um médico da mão direita ou um especialista em informática de smartwatch? Ou a história seguirá sua sina de refluxo e necessitará que ele seja filósofo, um sujeito de conhecimento genérico, porque alguém que entender o todo?

Fico angustiado pela escola e pelas mães do grupo de WhatsApp preocupadas com o dever de casa e se a professora é uma malvada, uma babá, ou uma concorrente. E eu devia ficar menos angustiado. Na realidade, a escola do meu filho nem caiu assim. Ficou na mesma posição na cidade e no estado, só caiu três posições em relação ao ranking do país. E, em termos de pontos, teve a melhor nota em seu histórico. Isso tudo me foi informado pela escola que, por conta dessa tal caída, tratou de mandar um bocado de informativos, desmentidos, com uma série de estatísticas provando que, em relação a isso e aquilo, não só não caiu, como melhorou.

Ops! Estou também preocupado com as estatísticas?É, a gente vai se contaminando. Caramba, educar nunca foi mesmo fácil. Mas precisava complicar tanto?

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