Requiem da TV Cultura! Chorem as crianças...

Cocoricó: sem continuidade em 2014.
Parece praga!

Comentei na segunda passada a desistência das emissoras abertas pelo público infantil, consolidando mais um fosso social via programação de TV.

Crianças abastadas têm uma rica e diversificada programação infantil. Às pobres resta o mundo cão adulto e seus reflexos retorcidos e distorcidos de realidade nos demais programas das TVs comerciais. Nada teria contra isso se a programação de TV das emissoras comerciais, então, não fosse a única opção para uma criança empurrada para dentro de casa pela violência urbana, pela falta de opções culturais, de entretenimento e de espaços sociais de convívio infantil.

Pois bem, ficou ainda pior. A tão ciosa emissora "pública", a TV Cultura de São Paulo, acaba de extinguir sua gerência infantil.

Isso mesmo, a criadora e produtora das principais referências de programação infantil no país - de todos os tempos -, finalmente se despe de seus últimos despojos sociais e volta-se exclusivamente para o desejo maior de ser como qualquer outra emissora comercial. Por mais anúncios da Casa Bahia que tenha, aviso: nunca vai conseguir.

Aliás, até há um ponto bom nisso: acaba-se a hipocrisia que nutre a TV Cultura há algumas décadas. Este desnudamento, em ritmo de conta-gotas, já não enganava a mais ninguém mesmo. A emissora estatal paulista - sim, ela é estatal e nada tem de pública -, que adorava se arvorar como um balaústre de TV nacional - uma BBC brasileira, iludia-se -, há tempos deixou de ser o que era em passado longínquo para se mostrar o que se tornou: uma TV que se apequenou, buscando a audiência pela audiência (para quê? pois não é essa a sua função) e, claro, sonhar por algo que nunca conseguirá pois, afinal de contas, não é a sua praia.

Assim como não se espera da Globo, da Band, da Record, do SBT, um Castelo Rá-Tim-Bum, um Cocoricó, um Mundo da Lua, um Ensaio... ah, você entendeu!. 

Desde que eu mesmo era retransmissor da emissora, nos anos 1980, 1990 e 2000, via sua decadência, uma emissora se achando muito mais do que era, ignorando as praças fora do seu umbigo paulistano, fazendo desdêm para outras redes educativas que se formavam, como se fossem uma Globo do bem, imbatível em sua produção premiada e suas boas intenções. Foram vendo sua rede esfarelando e, como a raposa das uvas verdes, criaram um mundo só seu, isolando-se cada vez mais, quando precisavam, desesperadamente, cada vez mais, de todos os apoios que pudessem contar.

Adorei a fase de dissonância cognitiva em que se diziam ser a TV "dos contribuintes paulistas" e que não poderia ser gratuita para o resto do país. Passaram a cobrar pelo seu conteúdo às dezenas de retransmissoras nacionais que, como ela - ou muito pior -, lutavam para pagar a conta de energia do transmissor. Afinal, são tão tão melhores que os outros que, ok, se quiser, tem que pagar. Como se os custos já não tivessem sido pagos, sim, pelos contribuintes paulistas, mas também por todos os brasileiros nas isenções de impostos federais e, não vamos nos esquecer, nas outorgas gratuitas e que são um patrimônio da Nação. Parte do que faturam das Casas Bahia vai para a União?

O Cocoricó está órfão e não terá nova temporada no ano que vem. Mas não se preocupem. A turma do sítio da vovó, junto com o Castelo Rá-Tim-Bum, podem ser vistos na Globo Internacional. Portanto, mais uma opção para a galerinha de Miami.

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