70 Anos da TV Brasileira: Outras Telas - Episódio #7 - As (verdadeiras) TVs Educativas

Hora do Enem' é líder de audiência em canal de TV
Programa produzido pela TV Escola. Imagem de divulgação

 No Brasil, só deveriam existir TVs comerciais e educativas, se fôssemos nos ater apenas na legislação. Enquanto as primeiras foram de vento em popa nos 70 anos da TV brasileira; as segundas, que têm o direito legal de usar esse nome, só o são na certidão de nascimento, amargam uma marginalidade na programação mental do brasileiro. Mas as verdadeiras TVs educativas estão pelo país, são excelentes, mas quase que completamente desconhecidas pelo público em geral, e parcamente conhecidas por um tipo de telespectador que deveria ser sua razão de viver: estudantes, professores e a galera geral das comunidades acadêmicas escolares. 

As verdadeiras TVs educativas brasileiras são um daqueles exemplos nacionais de como temos bons exemplos de aplicação de recursos públicos aliados a um enorme desperdício de talento humano e um mísero retorno para aqueles aos quais deveriam mais receber. Talvez você já tenha ouvido falar da principal delas, a TV Escola. Ela surgiu em meados dos anos 1990 e tinha um processo ambicioso. Alguns vão lembrar: instalou-se antenas parabólicas em praticamente todas as escolas do Brasil, não importava o qual distante que ela ficava. Junto, um video cassete. O objetivo era fornecer programas educativos de qualidade para que os professores pudessem ao mesmo tempo se aperfeiçoar em determinado tema, mas também tivesse um material atrativo e lúdico para lhe apoiar em sala de aula, quando exibisse para os seus alunos. 

Não faltaram recursos, como se vê. Não só para enviar todos os kits com antena e video, como para a produção de videos de qualidade e de catálogos periódicos caprichados com a programação, para que o/a professor/a pudesse escolher os programas do mês a serem aplicados na sua vida acadêmica. Era bonito de se ver, quando se viajava pelo país, cada escola com uma antena parabólica espetada ao lado. E foi quando, pela primeira vez como pesquisador social, notei dois fatores que me marcaram para sempre: de fato, o inferno deve estar mesmo cheio de boas intenções; qualquer projeto voltado para a educação tem dimensões bem distintas, e não considerar as mais importantes é passo certo para o fracasso.

Em resumo: naqueles respiros finais do Séc. XX, foi uma judiação mandar um equipamento com relativa sofisticação. As escolas tiveram todas as dificuldades imagináveis: desde a complexa instalação da antena até a programação de horário no videocassete para aquele programa de ciências que iria passar as 4h15 da manhã. E, claro, tem a manutenção do equipamento, a compra de fitas cassetes, e criação de uma videoteca... Mas, se há uma única constante em todos os períodos da vida escolar, é uma sobrecarga em cima dos professores e definitivamente o que deveria ser uma solução virou mais um problema para administrar. Melhor deixar isso para lá...Mas a ideia de uma TV voltada para a comunidade escolar se manteve, mas teve que aguardar o avanço da internet. 

Antes, convêm um longo parêntese: como assim, você não considera como TVs educativas a TV Cultura e Rede Minas, mesmo que elas, oficialmente, sejam educativas? Pois é, está lá também se dizem públicas, quando só são estatais (mas esse não é a conversa aqui). Então, como já conversamos aqui, não é porque se dizem educativas ou comunitárias, elas assim o sejam. Talvez eu esteja apenas sendo chato, querendo que elas tenham todas as características do que se conceitua-se 'educativo' e 'público'. Pois não me considero assim tão hermético e se, de fato, elas tivessem, pelo menos, 50% desses atributos, dava-lhes o crédito. Não acho se seja o caso.

Embora tenhamos aí mais de três mil anos de conceitos do que seja educação, ouso um precário resumo, utilizando a origem da palavra: conduzir. Portanto, educação é uma prática social, deliberada e metodológica, de conduzir o sujeito do seu ponto A, de seu atual conhecimento, para um ponto B, onde poderá sorver mais uma gota deste oceano turbulento que chamamos de vida. Tal absorção lhe dará mais condições de usufruto, sobrevivência ou afogamento neste mar caótico em que estamos (à deriva? mesmo barco? em iates e canoas furadas? - deixemos essa parte para a filosofia e a religião).

Obviamente, é um movimento moto-contínuo, pois, ao se chegar no ponto B, ele se transforma em um novo A, e é preciso uma nova condução... São muitas águas a serem enfrentadas. Quando trazemos tal metáfora para as nossas escolas, é fácil perceber: uma série de marinheiros que, diariamente, se preocupam em formar (educare também é formar, criar, instruir) os seus marujos, com a intenção deliberada de prepará-los para as tempestades. Certamente, pode-se questionar tudo, desde a metodologia dos marinheiros até se os barcos-escolas devam ser cruzeiros, barcas ou fragatas. Mas a intencionalidade de educar, ou seja, conduzir e formar lá estão. Podemos dizer que a programação das autodenominadas TVs educativas assim o fazem?

Acredito que todas elas já tiveram, ou ainda têm, seus lampejos educativos. É inegável que um Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura de São Paulo;  Dango Balango, da Rede Minas; ou até mesmo horários de teleaulas, têm essa intencionalidade educativa, mas o grosso da sua programação é uma tentativa fútil e ineficiente de perseguir as TVs comerciais, em busca de números de audiência, na ilusão de que, por gravidade, atrairia mais recursos e fama. A futilidade só é ultrapassada quando, no caso das TVs locais, prestam serviços de comunicação social, que até podem ter iniciativas educativas, mas em geral atendem às necessidades de informação daquela localidade. Da mesma maneira, as TVs comerciais também têm seus momentos educativos, o que até deveriam fazer mais, por força da própria lei. Mas, como se vê, lei e televisão brasileira não estão sintonizadas.

Pois bem, a história é diferente para as emissoras como a TV Escola (MEC, depois ACERP), TV PauloFreire/EducaPlay (Paraná), TV Anísio Teixeira (Bahia), JuvTV (Fortaleza), MultiRio (Rio de Janeiro), entre outras tantas. São equipes de profissionais de audiovisual de braços dados com educadores e até com estudantes, para fazerem uma televisão que tenha como principal objetivo o aprimoramento da educação formal. São projetos ligados às secretarias públicas de educação ancorados em políticas de formação de educadores. Mas não só. 

Aproveita-se os recursos, financeiros e humanos, para também oferecer conteúdo, que servem tanto para ilustrar e melhorar a experiência das aulas, como disponibilizar material de consulta e mesmo uma video legal que possa divertir e educar para o internauta distraído em busca sobre a Amazônia. E são importante lugar de socialização de projetos educativos da comunidade acadêmica, o que amplia ainda mais o seu papel social, já que outras coletividades podem se inspirar ou copiar bons exemplos. Mais educativo do que isso, é difícil de ver.

Ao contrário da fama que foi colada nas TVs educativas, a de ser 'chata', a programação é muito variada e, quando contam com recursos, pode ainda ser bem competitiva pela atenção do público. Um bom exemplo é o A Hora do Enem, da TV Escola. O nome já diz tudo: um divertido, bonito e educativo produto audiovisual que ajuda todos os envolvidos nesse momento importante para os estudantes brasileiros. Com os seus episódios, estudantes, professores, escolas, pais e demais agentes educacionais encontram farto material para apoiar a educação formal. Ênfase no verbo apoiar. Porque esses projetos não têm a intenção de substituir a educação formal, portanto não é EaD e nem Telecurso. Mas fornecer conteúdo formal dentro de um veículo costumeiramente ligado ao informal e, por isso mesmo, mais atrativo e sedutor.

Também coloco o relativamente conhecido Canal Futura nesta categoria, embora seja bancado por um pool de instituições privadas, capitaneadas pela Fundação Roberto Marinho, ligada a Rede Globo. Junto com a TV Escola, é a que tem o projeto mais sólido, de continuidade e produção com qualidade técnica apurada, além de abrir diversos editais para produtoras externas e, bem legal, a produção por escolas, com estudantes tutorados por professores. O Futura também tem uma ligação com TVs universitárias, reforçando seu aspecto educacional.

Essas verdadeiras TVs educativas colocam seus programas ambientes como as TVs a cabo e a Internet, mas, infelizmente, estão fora do sinal aberto, onde poderiam beneficiar muito, mas muito mais gente. E nem se tem mais a desculpa de que o espectro não comporta. Com a implantação da TV digital, seria fácil todas essas emissoras migrarem para o sinal aberto, até aproveitando que as comerciais estão dando ênfase para a internet. Aproveita-se os espaços abertos, principalmente para a população que não tem recursos para banda larga e TV paga. Mas seriam precisos novos investimentos, na estrutura de transmissão, e, definitivamente, não estamos em um bom momento para essas TVs.

Elas nunca nadaram em dinheiro, mas agora o cerco está ainda mais fechado, e não mais só por questões orçamentárias. Com a guinada conservadora que nos atingiu, projetos que rimam com formação de professores, produção de conteúdo com pegada social, melhoria da qualidade na educação, viraram tóxicos e os governantes estão até fazendo questão de se mostrarem refratários a eles. Não a toa toda a atual briga da TV Escola com o Governo Federal, que inclui até barraco. No Paraná, há um esforço para substituir o nome da TV Paulo Freire para EducaPlay. Imagine como deve ser difícil a vida do/a coordenador/a dessas emissoras ao ir ao governador negociar o seu orçamento?

Por fim, é irônico, senão cruel e cínico, vermos que diversos governos, por conta da pandemia, trataram de, rapidamente, transformar parte de sua programação de sua TV estatal em uma TV educativa. Em Minas Gerais, o projeto Se Liga na Educação fez, em poucas semanas, o que já poderia estar sendo feito há anos. Com a TV Digital, todo estado ou prefeitura poderiam ter sua TV Educativa usando multiprogramação (aliás, já previsto na Lei do Cabo, mas com pouco uso, a exceção da MultiRio). O estado de São Paulo compartilha, em multiprogramação da TV Cultura, a Univesp TV, voltada para o ensino superior. O mais difícil, já se tem: capital humano na comunidade acadêmica e, em diversos casos, até o conteúdo produzido e estocado onde poucos têm acesso. Agora, nem mais se precisa de antenas parabólicas, e os educadores e estudantes já têm uma relativa alfabetização digital (um tanto aprendida à força pela pandemia). 

Ou seja, faltaria pouco para termos as verdadeiras TVs educativas ganhando ares e ajudando, um tanto, nas enormes dificuldades que nossa educação sofre. Precisamos, rapidamente, levar essa questão de A para B.

No próximo episódio...

Ainda na temática educativa, ao completar 70 anos, a TV brasileira vê despontar uma nova categoria de televisão: as TVs das escolas que, diferente das educativas que acabamos de falar, surgem espontaneamente pelos alunos e professores e que, mesmo com uma produção fora dos padrões, cumprem o que é mais raiz na comunicação social.

Próximo segunda, dia 9, nesse mesmo blogcanal!

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