70 Anos da TV Brasileira: Outras Telas - Episódio #5 - TVs Legislativas

Taí a verdadeira rede de TV que mais cresce no Brasil. Imagem: Astral (site)
 

Não é fácil entender, mas o mais perto que a TV brasileira chegou de ser um veículo de massa democrático e pleno foi justamente a televisão feita pelos políticos. Por incrível que pareça, as TVs Legislativas têm um papel fundamental na democratização da comunicação e na valorização aspectos da nossa indústria, com a produção de conteúdo e a diversidade da programação. E, quase que imperceptivelmente, mudou a história da cobertura política, não só em Brasília, mas em vários rincões que puderam contar com sua TV Câmara Municipal. Essa faceta um tanto desconhecida dos 70 anos da TV brasileira é apenas uma nessa trajetória que faz da televisão nacional uma história única no mundo. Uma televisão que ninguém assiste, mas que todos já viram!

A TV Legislativa, ao se propor exibir as plenárias e reuniões, se transformou na fonte primária no que, anteriormente, era mediado por uma série de agentes nem sempre confiáveis: as limitações editoriais da pauta legislativa em parcos minutos, repórteres setoristas editados pelos donos de jornais, além de assessores dos próprios políticos. Mas há uma diferença significativa entre "o deputado fulano de tal questionou o seu colega por acreditar que ele faltava com a verdade" e o video de um personagem avermelhado de raiva dizendo, ao vivo, "sua excelência é um filho da puta mentiroso!" 

Essas emissoras mudaram a forma como imaginávamos os nossos políticos em ação, uma vez que não os víamos, eram quase seres etéreos. Portanto, não é um ato simples e banal quando as TVs Legislativas trazem a luz (melhor, as telas mais populares do Brasil), os seus agentes em plena ação. Para o bem e para o mal. Meu primeiro emprego como jornalista no interior de Minas era cobrir a Câmara Municipal. Não era fácil traduzir aquela balburdia, principalmente porque às vezes era mesmo intraduzível: há algo de teatro do absurdo nessa vida política provinciana, que tanto discute projetos importantíssimos como um plano diretor da cidade até a completa falta de noção e de conhecimento de parlamentares sobre tudo! Mais um ponto para as TVs Legislativas: podemos ver que essa toada surrealista não se modifica nas esferas estaduais e federal.

Podemos dizer que as TVs Legislativas é a vitória do circuito interno. Sou do tempo que o circuito interno era considerado um tipo de comunicação, uma espécie de intranet audiovisual. Empresas, escolas e as casas legislativas já contavam com o sistema para que a comunidade daquelas organizações pudesse se assistir, em atividade, ou circular conteúdos de interesse para seus membros. Com a Lei do Cabo (8.977, de 1995), em que há a obrigatoriedade dos operadores da TV paga disponibilizar canais de interesse público, entre eles as casas legislativas nos três níveis (federal, estaduais e municipais), eis a chance de sair do portão para fora. Sejam bem-vindas TV Senado, TVs Assembleias, TVs Câmaras (federal e municipais)!

Se, no seu princípio, era privilégio de assinantes de TV paga, é da primeira do campo público de televisão (como passam a denominarem-se aqueles canais) a alcançar voos próprios. E valoriza uma característica um tanto desprezada pela indústria da televisão pré-Netflix e que só agora as TVs comerciais começam a se dar conta de sua importância: a produção de conteúdo. Antes da Netflix tirar a galera do seu lugar de conforto, as TVs tradicionais ainda trabalhavam como no tempo das fitas de video: programa velho é tudo aquilo produzido das últimas 24 horas para trás e não merece consideração (a prática de apagar as fitas para reutilizar era constante na era pré-digital - o que apagou uma grande parte da memória televisiva nacional - mas ainda era a prática do produtor de televisão). Conteúdo antigo só servia como curiosidade, algum aspecto saudosista. Nem o sucesso do canal Viva, da Globo, ligava a luz que televisão produz, antes de mais nada, conteúdo. E, como tal, pode ter vários usos que não só o entretenimento imediato.

Um deles, vejam só, é servir às outras emissoras com o seu conteúdo. Afinal, veículos de comunicação são, em essência, para veicular conteúdo. Assim as TVs Legislativas, ao passaram a vida política de suas casas na real, o caminho e o embate político-partidário na veia, se transforma numa produtora do real e obriga a instalação de uma televisão em cada redação de jornal e emissora de rádio e TV no país. Se você nunca assistiu uma sessão plenária na íntegra, muitos jornalistas, assessores políticos e formadores de opinião o fazem diariamente. Quer melhor definição de televisão do que essa? Uma parte significativa da vida política do Brasil é vista, ao vivo e em cores, no momento que acontece, sem retoques ou efeitos especiais. Mais Santa Clara, impossível (ainda mais que em algumas situações parece mesmo que estamos experimentando algum tipo de alucinação, dado o surrealismo)! Melhor, tal flagrante fica registrado, caso queiramos ratificar ou retificar alguma impressão anterior. No caso das televisões, nem precisa se dar o luxo de duvidar: está lá reproduzido com a marca d'agua da TV legislativa de origem.

As TVs Legislativas contam com uma enorme vantagem sobre as demais emissoras do campo público: têm um orçamento que, em geral, não é modesto (claro, os colegas que lá trabalham devem discordar, mas convido-os para visitarem a grande maioria das TVs comunitárias, educativas, universitárias e até as pequenas comerciais locais e aí vão entender que moram numa Alphaville no universo da televisão fora do círculo das grandes comerciais). Melhor, saltaram rapidamente para o sinal aberto em centenas de localidades. Isso por motivos óbvios: primeiro, têm grana (pública que, se bem gasta, vale cada centavo) para comprar equipamentos de transmissão; segundo, têm força política para conseguirem destravar processos no Ministério das Comunicações e Anatel. Antes da Lei do Cabo, é fato, já existiam em sinais abertos, mas a visibilidade que alcançam, principalmente ao serem 'retransmitidas' pelas TVs tradicionais, fazem com que elas entrem efetivamente no cotidiano dos telespectadores. Não é arriscado dizer que toda a população deste país já viu, em algum momento, as imagens de uma das TVs Legislativas em seu telejornal favorito.

Mas esse história fica ainda melhor quando, se a TV Câmara federal, a TV Senado e as TVs Assembleias já têm garantidas canais abertas e conteúdo nas emissoras tradicionais, seu modelo foi sendo seguido pelos municípios do Brasil. Ora, se existe uma TV Câmara ou Assembleia, e a gente pode ver o deputado lá, porque não ter uma TV Câmara aqui da minha cidade? Pois, imagine-se, num país com mais de 5 mil municípios, é potencial ter cinco mil TVs Câmaras! Ainda estamos longe disso, mas o crescimento neste sentido tem sido enorme. Há uma estimativa de que existam cerca de 300 emissoras legislativas no Brasil! Como só podemos ter uma TV Câmara e uma TV Senado do Congresso Nacional, 27 TVs Assembleias, o resto todo é de TVs Câmaras municipais! E, vou te dizer, é admirável ver o impacto de uma sessão da Câmara ser transmitida pela cidade. Não sendo capital ou um grande centro metropolitano, fica ainda mais divertido.

Quando à frente de TV educativa no interior de Minas, abrimos uma faixa na programação no horário da única reunião plenária semanal da Câmara local. Foi, literalmente, um processo educativo para todos: uma grande parte da população via, pela primeira vez, uma reunião da sua Câmara Municipal. Grande parte mesmo, pois demos sorte de a reunião ser imediatamente anterior ao único telejornal local. A política do interior tem uma dinâmica diferente dos grandes centros e o vereador Fulano da Cicrana é conhecido por uma parte considerável da cidade, mesmo aqueles que não eram seus eleitores. Assim, em grande medida, era possível ver o que era uma parte significativa do que fazia, desfazia ou não fazia um (ou o seu) vereador.

Da parte dos edis, foi rápido o seu aprendizado com a linguagem televisiva. Na TV, a piada interna da equipe era observar o antes e o depois da entrada da sessão no ar: a equipe, de dentro da Câmara, abria as imagens para o tráfego interno e era possível ver que, antes e depois do 'no ar', o pau quebrava entre os vereadores. Mas bastava eles notarem que já eram vistos nas telinhas pela cidade, o aprumo no corpo, o respeito disfarçado ao divergir do 'nobre colega', e a capacidade de síntese no discurso era a gramática audiovisual incorporada. Era só estético, mas era um alívio ver, mesmo que por tempo limitado, uma certa evolução no cotidiano do plenário. Aconteceu naquela TV Câmara, iniciada improvisada, mas que foi ficando perene, tanto nessa cidade, como em tantas outras pelo país.

Porque as TVs Câmaras também foram conquistando canais fechados, outorgas abertas, fazendo WebTVs e ocupando espaços em outras emissoras, quando da impossibilidade de seu próprio meio de veiculação. Hoje, é também um crescente e amplo mercado de empregabilidade, com concursos públicos para formação de equipes pipocando por todo o país, a medida que as casas legislativas locais vão conseguindo operacionalizar suas TVs. Em um país onde, a cada dia, se fecha mais portas para profissionais de audiovisual em TVs comerciais, pela sua perda de receita e pelo avanço de tecnologias automatizadas, é um alento pensar que podem ter mais de cinco mil emissoras com cinegrafistas, editores, jornalistas, produtores, locais, se formando e formando outros, já que a programação dessas emissoras não se restringem as sessões plenárias, mas também a transmissão de outros produtos audiovisuais, também produzidos por produtores externos.

Dado que as TVs Legislativas têm uma outra bela qualidade: para complementar os longos períodos sem plenárias ou reuniões temáticas, optam por uma programação diversa, como os programas de entrevistas, essenciais para o que se propõe uma emissora com esse interesse público. Sabe-se que as emissoras tradicionais delegam tempo muito curto para debates, por achar o conteúdo 'chato' e pouco atrativo. Então, quer lugar mais adequado para conversar sobre política, qualquer política, e com tempo suficiente para desenrolar ideias? A programação também é complementada com muitos documentários sem espaço nas outras emissoras, reforçando seu caráter público e oferecendo um conteúdo gratuito de produções que, geralmente, só podem ser vistas se pagas por assinantes em grandes centros. Quando não, como dito acima, produzido pela própria região.

Obviamente, nem tudo é tão legal assim. Nos seus primórdios, os produtores das TVs Legislativas tinham muito orgulho sob o aspecto democrático de suas emissoras. Com razão: afinal, colocar os políticos para dar sua cara a tapa naquele que é o veículo mais popular do Brasil não é pouca coisa. Mesmo que os políticos já estejam treinados e ávidos para aparecerem em sua emissora legislativa (é até meio patético notar, em pleno plenário completamente vazio, fazendo um inflamado discurso, totalmente voltado para uma suposta audiência, ao vivo ou de uma gravação), ainda assim é um político que se dispõe a mostrar a que veio. Se pensarmos que, antes, os seus discursos eram voltados apenas para os seus colegas e para tentar a sorte em um parágrafo de jornal, me parece um grande avanço.

No entanto, de tempos para cá as TVs Legislativas vêm perdendo uma de suas mais importantes caraterísticas: quando tudo era mato, não eram muito alvo de interesse das cúpulas partidárias. Assim, a diversidade de opinião e de espectro políticos que apareciam nas suas telas eram proporcionais à composição de sua própria configuração. Ou seja, grosso modo, mesmo que os dois parlamentares da situação ocupassem 2/3 da programação, os 1/3 da oposição reivindicava e conseguia seu espaço. Não é nada, era muito mais do que qualquer outra emissora que tinha 100% de sua programação a partir da ideologia do seu dono, dos seus acionistas, da sua mantenedora. Essa lógica, de fato, é que a tornava a mais democrática entre as TVs.

Mas como as coisas na vida político-partidária no Brasil são bem dinâmicas, bem, nos últimos dez anos as tais cúpulas descobriram que podiam parar com essa brincadeira estabelecendo um cargo de direção na sua TV Legislativa: portanto, um cargo a mais para negociar e, claro, quem ocupasse esse cargo tinha obrigações com quem o colocou lá. Daí, infelizmente, essa grande vantagem se esvaiu nas emissoras que tiveram o disparate de assim fazê-lo. Triste para a comunicação brasileira! Mas serve de alerta, você que está fazendo a sua TV Câmara: nada de criar um cargo de diretor da TV. Coloque-a o mais ligado possível a mesa diretora ou a comissão de maior representatividade, na tentativa de blindar às tentações.

Ainda assim, continuo gostando demais dessa história da TV Legislativa, pois, entre outros aspectos, quebra uma máxima da TV nacional, e seus documentários históricos: a que o modelo de televisão brasileira se restringe ao tripé telejornalismo/novelas/programas de auditório. Ora, quem já esteve presencialmente a uma sessão de câmara de vereadores sabe que, no mínimo, é muito chato! Como assim, colocar isso na televisão? Políticos sendo políticos por intermináveis horas? Zero movimentos de câmera, enquadramento imutável, roteiro tedioso, cenário estático, trilha sonora inexistente... E, ainda assim, a televisão legislativa brasileira mudou a história da comunicação social do país.

E se quiser saber mais, é um segmento muito bem organizado... politicamente! Sua Rede Legislativa tem conseguido ampliar a entrada de mais e mais TVs no sinal aberto, brigando e conseguindo espaços para canais onde nenhuma outra televisão jamais ousou. É um dos pouquíssimos segmentos que entendeu o potencial da TV Digital, inclusive usando multiprogramação para transmitir eventos simultâneos, como plenária e sessões temáticas (é mesmo para isso que serve!!). E tem uma associação ativa, como o nome mais legal que eu conheço: a Astral - Associação Brasileira de Televisões e Rádios Legislativas.

No próximo episódio....  

A televisão feita pela Universidade... e mais assistida por quem lá não está! Nas sete décadas da TV Brasileira, a TV Universitária está em cinco, e é o tipo mais antigo depois da comercial. E se aqui, nessa série, defendemos que a televisão brasileira é rica não só por conta das TVs Tupi, Excelsior, Globo, SBT e Cultura, a a televisão da universidade mostra o ápice da diversidade: emissoras com centenas de profissionais até aquelas que funcionam com um estagiário... Mas que até já tem um canal nacional prontinho para rodar!

Próximo segunda, dia 26, nesse mesmo blogcanal!

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