e-Contos Icônicos: A Chamada

Imagem de Alexander Lesnitsky por Pixabay
 - Triiiiiimmmm!
Era o telefone.
Um rosto apareceu na porta do corredor. Saia do banheiro.
- Triiiiiimmmm!
- Tocou de novo!
Já estava de corpo inteiro, na porta da sala. Olhou para o aparelho. Daqueles antigos, rebuscado como uma igreja barroca, rococós até onde a vista alcançava. Herança de família. A mãe guardara da avó, que tinha deixado para 'a casa do meu neto'. Acabara de chegar com ele debaixo do braço, ainda embrulhado pelo pano de prato de vaquinha. Ele se divertiu, pois certamente a avó nem imaginaria que, quando parasse em suas mãos, telefone fixo era uma espécie em extinção. "Vai ficar exposto como peça de decoração, uma lembrança da vó", pensou.
Nem se deu ao trabalho de ligá-lo.
- Triiiiiimmmm!
Verificou o fio, que saia dependurado do paninho. De longe, como se o aparelho pudesse lhe surpreender com um bote. Olhou aquela tomada típica de telefone na parede. Impassível, estava ela. Completamente abandonada.
- Triiiiiimmmm!
Pois é, nem linha tinha. Era desses que tinha certa ojeriza com telefone e tinha um celular mais por obrigação profissional e amenizar a ansiedade da mãe, para quem o filho estava sempre sob risco. Preferia sempre o sossego que a falta de telefone lhe proporcionava.
E agora isso.
- Triiiiiimmmm!
Resolver atender. Tirou o pano de prato (que ideia essa da minha mãe em embrulhar um telefone num panto de prato?), mas foi ágil para não ter que escutar muito mais vezes. Esperou por segundos antes de tirar o comprido gancho do fone. Mas foi em frente. Decisivo.
- Alô?
Sua voz não foi tão segura quanto calculava e queria, mas abriu-se o diálogo:
- Oi! Tudo bem? Como você está? Tudo jóia? Estou ligando para saber como você está?
Estranhou: quem ainda fala 'jóia'?
- Estou bem, obrigado. Quem está falando?
- Aqui é o Miguel. O Júlio me cobriu direitinho?
- Como é?
- É que estava programado um pequeno acidente com o seu carro. Com a caminhote. Para hoje. Eu tive que resolver um probleminha com outro chegado meu, sabe? Pedi pra o Júlio me cobrir. Aconteceu alguma coisa? Tudo bem com você?
- Não, quer dizer, sim! Teve uma batidinha de uma caminhote na minha... Deu pra frear a tempo... Achei até que não ia parar... Mas como é que...
- Eu sabia, eu sabia que o Júlio não ia me falhar. Machucou? Estragou muito? Putz, se você visse o que ia virar seu carro....
- Olha, desculpa, mas é que... olha... quem é que está falando?
- Aqui é o Miguel, o seu... ih, rapaz, vou ter que desligar. Não podia nem estar ligando... nessa distância, precisa ver a conta. Se o Júlio ligar, agradece a ele por mim, tá? Ah, e... se mais alguém... sabe como é... se alguém, assim... Alguém... que não for o Júlio, claro, se alguém mais ligar, não vá dizer nada, hein? Olha, tô indo. Se cuida aí, que eu te seguro aqui. Aquele abraço.
-Clic.
Não deu tempo para despedir. Não que ele fosse. Mas ficou um bom tempo com o fone à mão, perto da orelha direita. Lentamente foi devolvendo o aparelho ao gancho. Sentou na poltrona próxima ao bar. Olhou mais uma vez para o fio. Longamente, como também fez com a tomada na parede. O olhar era o mesmo, sempre. Fechou os olhos por poucos segundos que, para ele, duraram horas necessárias para sair do transe. Balançou a cabeça, respirou profundamente, levantou o corpo com determinação, foi ao banheiro. Nada como um banho. Que, por sinal, era o objetivo final daquela noite. O resto era supérfluo.
Estava já de cuecas quando o telefone tocou pela segunda vez, naquela noite do banho. Novamente estacionou à porta da sala, em pé. Esperou tocar três vezes. Partiu em direção ao aparelho antes que tocasse a quarta.
Era o Júlio.
- Olha, rapaz, tô ligando para me desculpar pelo caminhote. O Miguel me pegou na última hora, não tive muito tempo para me preparar. O combinado era para que não acontecesse nada... Mas já providenciei a renovação do seguro do moço lá...
- Mas ele disse que estava vencido....
- Não se preocupe... Amanhã ele te liga... Vai receber a notificação de companhia, que ele tinha mais um mês de bonificação e esqueceram de avisar... Rapaz, isso me deu uma trabalheira... Mas valeu a pena.
- Mas como...
- O pessoal da companhia está em débito aqui... transtorno, cara. Vou indo. Se cuida... Ah, se alguém ligar, não sendo o Miguel, já sabe, né?
- Não contar que vocês ligaram...
- Isso. Valeu, hein? Foi bom o tempo do seu lado. Tchau.
Outro clic.
Ficou um pouco mais de tempo com o fone no ouvido. Estático. Colocou no gancho e, na mesma posição, apertou bem os olhos como quando sonhava um sonho ruim e queria acordar. Não funcionou como costumava funcionar. Talvez porque nada, até no momento, indicara que se tratava de um sonho ruim. Esqueci de agradecer pelo Miguel, foi o máximo que conseguiu raciocinar.
Resolveu esquecer o assunto. Vou para o meu banho que é o melhor, concluiu. Conseguiu entrar no chuveiro, a água caindo em abundância sobre sua cabeça. Uma fonte rejuvenescedora. Os olhos fechados, o corpo inerte, a sensação de alívio. Tivera um dia cheio, com mais do que os aborrecimentos de sempre. E ainda aquele mauricinho e sua molecagem com sua linda e nojenta Hilux, cabine dupla. Custara tanto a comprar um carrinho... dez anos de uso... para vir um filhinho de papai e amassar toda a sua lateral direita. Ainda bem que o Júlio garantiu que o seguro.... Peraí, o que estou dizendo?
- Triiiiiimmmm!
Não era possível, pensou.
- Triiiiiimmmm! insistiu o telefone da vovó.
E na hora do banho, como sempre. Mas desligou o chuveiro para ter certeza.
- Triiiiiimmmm!
Enrolou-se na toalha, ainda teve ânimo em enxugar um pouco, talvez esperando que o delírio acabasse e pudesse voltar para o boxe.
Não acabou.
- Triiiiiimmmm!
- Alô? e desta vez foi mais firme.
- Boa noite, senhor, desculpe incomodá-lo a esta hora, mas precisamos de sua ajuda.
- Hein?
- Não quero lhe ocupar muito. Só preciso de uma informação. Por acaso ligaram para o senhor um ou outro jovem, de nomes Miguel ou Júlio?
Não respondeu.
- Alô, senhor, está escutando bem? Nem sempre as ligações são boas, com toda essa poluição e os problemas do aquecimento solar... Mas, repetindo, o Miguel e o Júlio chegaram a ligar? Alô, senhor...?
- Estou escutando...
- Pois então, o Júlio e o Miguel telefonaram?
- Não... quer dizer... não... bem...
- Senhor, sinto uma certa hesitação, próprias de homens honestos em dilemas éticos... Certamente não é o seu caso, não, senhor?
- Um momentinho, por favor!
Tampou o fone com a palma da mão, como se por ali pudesse passar seus pensamentos. O que faria? O que diria, me Deus? Isso tudo era uma loucura, mas se pagasse o conserto do seu carrinho, tudo bem? Mas ética? Bolas, se tivessem que condená-lo, seus últimos pensamentos já o condenaria. Egoísta, sim, porém prático.
- Desculpe, senhor...
- Armando, a seu dispor.
- Olha, seu Armando, desculpe a demora, mas a noite não tem sido muito fácil. Quanto a sua pergunta...
- ... sobre o Miguel e o Júlio...
- ... eles não ligaram não.
Houve um silêncio do outro lado. Momentos que pareciam eternidades se passaram na mente do afortunado até que o Armando falou. Desta vez, mais grave e sem o tom amistoso e cordial do início.
- O senhor tem certeza!
Não era uma pergunta.
- Sim, tenho certeza, claro que tenho certeza, nunca tive tanta certeza em minha vida. A insegurança que o senhor nota é em relação a minha toalha, uma vez que o senhor acaba de me tirar de um banho...
- Muito bem. Se o senhor prefere assim... Boa noite. E até breve.
E veio o terceiro clic.
O que diabos ele quis dizer com "se o senhor prefere assim"? Meu Deus, porque se despedir com um "até breve"? Foi direto na prateleira onde fica o seu minguado whisky, economizado para ocasiões especiais que, por sinal, a um bom tempo não aparecem. Chegou a colocar um cowboy, embora nunca tenha tomado assim, puro. Não chegou a levá-lo à boca. Empurrou de lado. Definitivamente não precisava de whisky. Já se sentia suficientemente bêbado.
Ânimo para voltar ao banho não tinha mais. Estava prostrado, como que jogado, em cima do sofá. Que ficava próximo ao aparelho bendito. Ou divino, arriscou comentar para si, numa piada que não achou a menor graça. De toalha, pensava em sua vida eterna, se é que teria alguma depois daquela noite. Já se imaginava na defensiva, fui induzido, estava confuso, agi em legítima defesa. Nada ia adiantar. Para onde iria não poderia ser mais quente que sua própria cidade, principalmente de paletó e camisa de linho vagabundo. Que poderia ser pior que a existência num mundo maluco como a Terra? Filosofia numa terça à noite? Isso sim é que é um inferno. Olhou para o telefone com ódio. Tudo por causa dele. Bem que tentou resistir. Mas que mal poderia ter? a vovó ficaria contente, economizaria quando o mundo regredisse tecnologicamente e voltaríamos a ter linha fixa de novo, e ainda decoraria seu apartamento com uma bela peça, dando um charme (quem mais fala dar um charme?)  como nas invejadas casas dos poucos amigos.
Levantou decidido a dar um fim merecido. Não conseguiu tocar no telefone à princípio. Pensou duas vezes. Agarrou o aparelho e, firme, levou-o para o banheiro.
- Triiiiiimmmm!
Não esperou tocar duas vezes. Ensopado, água escorrendo pelos cabelos, pelas coxas e entre os dedos, quase arrancou o fone.
- Alô?, e dessa vez foi de uma firmeza de concreto.
- Boa noite, meu rapaz. Desculpe incomodá-lo nesta hora, neste momento, mas não se preocupe que não irá pegar um refriado, como os de costume.
- Quem é...?
- Meu jovem, não quero lhe impor minha humilde presença por muitos instantes, mas nosso querido Armando colocou-me algumas dúvidas e gostaria de esclarecê-las com você...
- Não estou entendendo...
- Dois jovens de nossa hierarquia mais básica, supostamente, teriam entrado em contato com você, o que caracteriza uma falta gravíssima aqui no nossos sistema de administração.
Então, era isso! E, finalmente, entendi de onde o Detran tirou a expressão para a multa gravíssima...
- Sim, senhor, e então, no que posso ser útil?
- Pois então, gostaria de confirmar a versão dada pelo nosso querido Armando, escutada com um certo espanto pelos meus humildes ouvidos.
- Já respondi! Surpreendeu-se com sua inesperada e pioneira ousadia.
- Isso. Mas acontece que o nosso querido Armando está com um pouco de dúvida...
- Um momento, meu humilde senhor. Pelo o que imagino, o senhor, como supervisor desse teleatendimento, deve conhecer profundamente a alma dos homens, correto?
- Sim, um pouco, mas...
- Pois bem, de uma coisa o senhor pode ter certeza, respondi como assim mandava meu coração de homem, pura herança divina.
Peguei o danado!, pensou.
De fato, o silêncio do outro lado, seja que lado fosse esse, foi prolongado. Seguiu-se uma despedida igualmente cortês de um adversário aparentemente derrotado.
- Você tem toda a razão. Muito obrigado pela sua cooperação.
Clic.
Não acreditara. Pela primeira vez em sua insignificante vida, conseguira fazer um ato de coragem. Começara a gostar da brincadeira. Acabou seu banho assobiando, enxugou-se feliz, levou o aparelho para o criado-mudo ao lado da sua cama (ixe, agora nem falar criado-mudo pode...). Começara a pensar alegremente em tudo, sentia-se um novo homem, um super-herói, capaz de enfrentar qualquer coisa, qualquer um...
- Triiiiiiiiiiimmmmmmmmmm!
Não gostou do estilo do toque. Não sabia porquê, mas era diferente. Mais sóbrio, mais sério, sei lá! Esperou tocar uma segunda vez para ter certeza de sua impressão.
- Triiiiiiiiiiimmmmmmmmmm!
Era mais sério e mais sóbrio. A recém confiança adquirida foi-se embora na mesma velocidade com que tinha vindo. Sentado na beira da cama, entregue, como um condenado, não esperou chamar o terceiro sóbrio e sério toque. Paralisado, nem disse alô.
- Boa noite, filho.
Bem, com certeza não era a sua mãe. Parou de respirar, sentia. Melhor continuar calado.
- Desculpe o incômodo, sei que está tendo um dia difícil, mas não posso me furtar às minhas obrigações...
Parecia um boneco de cera, o coitado. A luz do abajur dava um ar ainda mais cadavérico àquela figura seminua, ereta na beira de uma cama, com respiração em suspense e um par de olhos do tamanho de bolas de ping-pong.
- ... mas você deve imaginar o tamanho do problema que causou.
Meu Deus, eu só queria um banho.
- Sim, eu sei. Mas até aqui temos transtornos do tipo que vocês convivem aí. Olha, não pense que estou lhe condenando por alguma coisa... você tem sido um bom homem, um bom filho... respeitador, honesto, gosto de você, rapaz... mas também gosto daqueles dois, o Miguel e o Júlio, bons garotos, meios verdes ainda, mas de grande potencial... mas, sabe como é, a gente tem que manter a hierarquia, o respeito... compreendo seu gesto com o Armando, não tem nada o que perdoar... você respondeu corretamente da última vez, mas é que...
Já estava mais disperso. Não estava entendendo muito bem aonde estava querendo chegar, pensou.
- Eu explico. É que eu queria um pequenino favor seu. Seguinte: se um desses ligar, diz que lhe dei uma tremenda bronca, evoquei escrituras apocalípticas e tal, e o que mais você imaginar, e que, no final, eu lhe perdoei, quando pediu misericórdia. Eu não acredito que irão ligar, mas, sabe, só por medida de garantia, entende?
- Tudo bem, mas e o Miguel e o Júlio...
- Não se preocupe. Também já resolvi o caso, no mesmo estilo. Posso contar com a sua colaboração?
- Claro!
- Bom filho. Obrigado por sua compreensão. Durma com os anjos. Tô enviando alguns... Adeus.
Foi o último clic da noite. Ficou ainda uns cinco minutos com a mão no fone, o barulhinho de desligado do aparelho. Realmente dormiu um sono tranquilo e reparador. Mas, antes, pensou em sua casa, seu telefone, nos seus poucos amigos, na sua mãe e na sua avó. E no Miguel e no Júlio. E em qual dos filmes iria assistir amanhã e depois de amanhã, depois do serviço. Coisa que estava adiando uma eternidade.

Comentários

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  2. Realismo mágico? Ao estilo de Murilo Rubião? Parabéns pela iniciativa... e sucesso.

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    1. Olá Isabel. Isso mesmo, matou a charada! Gosto demais de Murilo Rubião. Certamente nem posso me comparar com o mestre, e nem garanto que vai ser sempre nessa toada, mas já ganhei a semana e um belíssimo incentivo para continuar comentendo esses crimes de escrita... Obrigado.

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