Aquecendo afetos: os banhos quentinhos que nos unem aos idosos


Um banho quentinho nunca é só um banho. É, no mínimo, uma página virada. É para começar um novo dia, é para terminar um dia, é para dar um tranco no dia. A melhor coisa nos herdada pelos índios. E onde está a tecnologia nessa epifania úmida? Porque, como toda boa tecnologia social, às vezes nos esquecemos que se trata de uma invenção humana, com alguns objetivos pragmáticos e outros nem tanto, e que há nuances específicas que o senso comum nubla. É o que acontece com os banhos quentinhos dos idosos que precisam de cuidados. Claro, há outros grupos de pessoas que também se beneficiam, ou têm problemas, com banhos quentes, mas aqui vamos tratar desse público específico, o que justifica-se adiante.

Então, quem já teve parentes acamados, momentânea ou permanentemente, sabe o valor de um banho. Tanto para quem recebe quanto para quem aplica. Dá trabalho, para ambos, mas a sensação de alívio, de, como disse, página virada, é grande. Somos seres de água, 70% parte líquida. Portanto, é como se voltássemos ao aquário, ao líquido amniótico, ao caldo aquoso eletrificado que produziu a todos. Tá bom, é uma viagem, mas deu para entender que nossa ligação com a água vai além da higiene.

Os idosos que precisam ser cuidados geralmente tem uma limitadíssima cotidianidade. Infelizmente, vivem mais de passado do que do presente e, ainda menos, do futuro. Como afirmam vários estudos, a hora do banho é mesmo um momento especial, quando se conecta com as boas sensações inatas de aconchego, acolhimento, segurança, equilíbrio, um fluxo de retornos e idas. E sim,  ajuda a pensar melhor sobre o futuro, já que o banho também é uma fonte de incentivo. Como sabemos, banho quentinho nos revigora! (Relendo o parágrafo, não vejo diferença entre nós, nossos banhos e o das pessoas idosas sob cuidados).

Isso não é pouca coisa para alguém onde o banho, em boa parte, é um dos mais importantes momentos do dia. É o caso de idosos abrigados. É de se imaginar que todos conhecem o conceito de asilo, hoje uma palavra desprezada, já que carrega um estigma negativo, como uma espécie de depósito de gente esperando à morte. A nomenclatura agora mais usada é mesmo mais acolhedora: abrigos! Sei, existem outras variações, umas mais chiques, mas todas orbitam a ideia de um conceito que achei num dicionário e que me parece a mais legal: lugar de refúgio contra a intempérie!

Pois bem, além das pessoas acamadas nesses abrigos, ainda existem por aí as antigas vilas vicentinas, com casas autônomas onde residem idosos carentes e sem vínculos familiares (por ausência de parentes ou, na grande maioria, abandonados). Descobri toda essa história do banho em uma dessas comunidades, na Vila Vicentina de Sete Lagoas, mantida pela Sociedade São Vicente de Paulo. Descobri muita coisa: que o banho, além de todas as qualidades elencadas anteriormente, também pode causar medo (por conta dos constantes choques elétricos), a sua falta amplia o desânimo e a auto depreciação, ajuda a ampliar problemas de saúde, por conta da higiene e do favorecimento aos sintomas da depressão, mas também é fator de confiança na sua capacidade autônoma e, principalmente, uma atividade prazerosa (dentre das poucas que lhe restam).

Tal aprendizagem foi realizada graças a Mirla Carolina Braga do Carmo, uma jovem publicitária que se descobriu pesquisadora social quando a Cemig (a empresa de eletrificação de Minas Gerais) instalou um sistema de aquecimento solar na Vila. Ela foi à luta, conversou com os residentes, observou e sensibilizou-se enquanto cientista e pessoa acolhedora, e o resultado de sua investigação rendeu uma dissertação de mestrado, um documentário da experiência (que pode ser visto aí em cima) e um artigo recentemente publicado na conceituada Revista Tecnologia e Sociedade, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, no Dossiê Temático Planejamento Energético e Sustentabilidade – Consequências da Exploração e Uso dos Recursos Energéticos.

Mirla foi à Vila Vicentina para descobrir os benefícios estatísticos/energéticos de um sistema que prometia a economia financeira para uma entidade que precisa desse tipo de iniciativa, dada a precariedade que a sociedade lhe confere. Mas, além da tal economia, descobriu pessoas que tiveram sua qualidade de vida melhorada apenas por dar-lhe a oportunidade de um banho quentinho, com segurança e cotidianidade. E que tal ganho nos faz lembrar que a tecnologia deveria ter sempre esse propósito como objeto e objetivo.

Meus banhos quentinhos nunca mais foram os mesmos!

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