O futuro das Startups e os LPs


Startups estão realmente melhorando a humanidade? Crédito: Pixabay CC0 Public Domain
Um aluno, o Douglas Marques, recentemente me fez a seguinte pergunta: "Diante do seu conhecimento nas áreas de comunicação e marketing, como você enxerga a projeção das startups para no mercado para os próximos anos?"

Aparentemente, seria uma resposta rápida. Afinal, ao que parece, as startups vieram para ficar. Como uma espécie de nova revolução industrial, só que desta vez tendo suas 'fábricas' não em terrenos físicos e em países de desenvolvimento estabelecido, mas numa rede etérea, espalhada pelo planeta e com ramificações que, à princípio, são um não-lugar, uma não linearidade e uma não concentração dos meios de produção. Tudo bacana, tudo ao contrário das instalações de linha de produção fordistas, grandes fábricas opressoras e seus milhares de operários com qualificação suficiente para tocar sua limitada bancada de trabalho.

Mas, sei lá, não fico à vontade com essa visão um tanto otimista (e olha que sou mais para o copo metade cheio). É como se a sociedade da produção estivesse sendo substituída por essa tal sociedade da informação e algo inteiramente novo acontecesse. Como não acredito que algo novo acontecendo na história da humanidade - há apenas a sua repetição enquanto comédia, drama ou tragédia -  aproveitei a pergunta do Douglas para pensar melhor e, talvez, sair da forte correnteza que nos leva a pensar o crescimento das startups como algo tão inovador, revolucionário e que está democratizando tudo, inclusive as relações de trabalho, que é o que mais nos aflige. Bem, vou me sentar à margem do rio e dar uma olhada melhor.

E aí me descubro que o que penso sobre o mercado das startups é, para mim, uma verdadeira incógnita. Não sou um especialista de análise deste segmento. Dito isso, até me parece que ainda se expandem com uma boa regularidade, mas não com a mesma velocidade que alguns anos, o que pode caracterizar uma certa acomodação. Algo como um segmento econômico de expansão permanente, mas sem novos grandes piques. 

Daí, fico pensando em cenários. Posso ser totalmente desmentido, quando penso sobre acomodação, visto que pode surgir um novo pique com alguma outra tecnologia revolucionária. Por outro lado, pode simplesmente se esgotar e estagnar no que já existe, com o surgimento de novas startups na mesma proporção que quebram as antigas. Lembremos da bolha da internet no final do Séc. XX para mostrar que já temos um histórico.

E nem descarto, inclusive, uma onda conservadora onde tecnologia não será tão bem vista. Uma nova onda de Ludismo, o movimento que, justamente, veio contra a revolução industrial, quebrando máquinas que substituíam os homens nas fábricas. Não imagino nada tão violento, mesmo porque acho um pouco difícil ir sair quebrando provedores de internet pelo mundo, mas há sinais de esgotamento de alguns segmentos. Está duvidando? Pois os LPs, os antigos bolachões, superaram, em 2016, a venda de arquivos digitais no Reino Unido. Sem falar de alguns segmentos mais silenciosos, mas que têm mostrado sua cara, como consumo de alimentos orgânicos e o slow-food (contra a pressa de comer da contemporaneidade) e que, ironicamente, têm utilizado da internet para ampliar sua atuação, nem sempre ligada a uma startup. 

Quanto as relações de trabalho, que seriam algo realmente revolucionário e que poderia mudar a nossa história, o que vemos hoje são apenas a perda de direitos trabalhistas e o aumento de horas de trabalho. Os milhares de atendentes dos serviços de startups melhoraram sua condição de trabalho? Trabalhar em casa e não no ambiente da empresa é bom pra quem? Desde o sujeito que atende ao cliente àquele que mantêm a tecnologia de informação, me parecem estar trabalhando com a mesma precariedade dos primeiros operários, com jornadas exaustivas, serviços repetitivos, pouca liberdade de atuação e criatividade e ainda aumento de custo de vida, já que têm que manter a sua própria bancada. E sem muitos dos direitos trabalhistas conseguidos justamente na briga contra os males da revolução industrial. Mas muitos estão achando essa modernidade linda!

Não confundamos as belas fotos dos campos da Google com a realidade da imensa maioria daqueles que estão na frente das telas mantendo vivas as startups. Seria o mesmo que dizer que a vida de jogador de futebol é fácil, com grandes salários, apenas a partir daqueles craques que conhecemos, quando mais de 80% dos atletas ganham salários ínfimos, segundo a CBF e Ministério do Trabalho. Seria salutar fazer uma pesquisa nesse sentido nas startups. Será que estão caminhando para uma massificação do caso do Uber, que perde significativamente seus motoristas justamente pela precarização do trabalho? 

Portanto, permitamos, caro Douglas, ficarmos com um pé atrás. Tomara que as visões pessimistas não se concretizem, mas vamos combinar que 2016 não ajudou. A onda conservadora mundial, os escândalos políticos nacionais, a crise financeira, o aquecimento global mostraram que o ser humano nem sempre sabe aproveitar a melhoria da tecnologia para melhorar a condição de vida da humanidade. Não consigo relaxar pensando que as startups possam se descolar dessa nossa trajetória.

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