Socorro, pai! O Enem vai me pegar!

Fábula do bicho-papão moderno: "Quer comer? Tem que passar por mim primeiro...", disse o Enem. Crédito: Pixabay CC0 Public Domain 
Nos vexatórios dados do INEP, que apontou a falência do ensino básico, só se salvou a lúdica e desencanada Educação Infantil. Eu desconfio o porquê dessa ilha de excelência: nem pais, nem escola, e muito menos as crianças estão preocupadas com o ENEM - o Exame Nacional do Ensino Médio.

Eu gostava do Enem, sério! Mas agora minha opinião é que não é menos do que uma desgraça na educação brasileira. Saber sobre a ideologia apresentada por Aldalberon de Laon ou "a intensidade do intemperismo de grau muito fraco é característica de qual tipo climático? "(ENEM, 2015) é fundamental para o Estado e, consequentemente, para as escolas e para os pais, embora os jovens estão pouco se lixando para o que realmente significa.

(Abro parênteses, #tamojuntorapaziada: até começar a escrever e procurar questões esdrúxulas do Enem para ilustrar meu argumento - algo que não demorou nem um minuto na primeira prova que abri - eu, que me considero um sujeito um tanto informado, nunca tinha ouvido falar do poeta francês Aldalberon de Laon e menos ainda o que é intemperismo, duas novas fundamentais informações (como pude viver sem elas todos esses anos?) no Google.)

Voltando ao mundo fatal da educação formal, o Enem virou um novo patriarca, um novo coronel, um novo "eu sou o Estado, o Estado sou eu, a mão forte, o protetor, o messias, o visionário, que lhe pegará pela mão e lhe conduzirá para o seu futuro melhor, que só eu sei dizer e conduzir...". Essa parece ser nossa maldição, enquanto uma sociedade que parece gostar ainda de quem lhe apadrinhe, mesmo na ilusão de democracia que as novas mídias oferecem.

Ou seja: todo mundo por conta do Enem! Os pais querem que seus filhos tirem as melhores notas. As escolas não querem perder ainda mais alunos (diminuição das proles + crise), e aí ficam reféns da ansiedade dos pais e dos grupos de WhatsApp das mães. No princípio, o Estado, sem saber como avaliar a educação fora das tabelas estatísticas e como distribuir de maneira socialmente justa suas milhares de vagas no sistema gratuito superior. Então, pessoal, deixemos o Enem resolver para todos nós!

E o jovem? Alguém anda perguntando para ele o que ele quer? Ah, não, somos nós os adultos responsáveis, eles não têm condição fisiológica e psíquica para decidir. Bem, embora seja um bom argumento, no mundo real não só eles se mostram como capazes desta decisão como efetivamente decidem. Ao dar as notas que vimos ou, simplesmente, ao deixarem a escola em números absurdos.

Os resultado do Inep deveriam ser vistos muito menos como estatísticas e mais como a voz desse jovem. Vou traduzir em poucas palavras o que eles disseram: "O que eu estou estudando não faz sentido para mim. Faço obrigado. E tudo que faço obrigado, faço mal, porque é da natureza do jovem a contestação do que é obrigado, porque não sei o que estou fazendo e, bem, só porque quero fazer assim como manifestação da minha identidade."

Os pais pressionam e as escolas rebolam para colocar alguma noção pedagógica nas toneladas de conteúdos inúteis, mas são convencidas pela lógica do mercado uma vez que, se não tratarem o Enem como ponto final, em detrimento de uma esquecida formação do sujeito para atuar na sua sociedade, "vou levar meu filho para outra escola".

Qual é o projeto pedagógico? Que valores transmitem? Quem lê isso? O ranking do Enem é muito mais instrutivo para saber qual a melhor escola para onde vou mandar meu filho no regime semiaberto invertido que virou a educação formal: fica preso durante o dia e vem dormir em casa! Pelamordedeus, tem escola que coloca crianças nos primeiros anos do ensino fundamental para fazerem prova de caneta para já ir treinando para o Enem...!

À propósito, atenção, Fundamental I (pais, escolas, Estado), esqueçam o Enem! Como estaremos daqui há 10 anos? Será que ele terá a mesma importância? Alguém inteligente terá descoberto uma maneira menos cruel de distribuir vagas na universidade e de medir a qualidade da educação? Que tal deixar por conta e confiar no carinho, na dedicação, na percepção apurada, nas técnicas pedagógicas inclusivas da educação infantil? Aprendamos em colocar a criança e o jovem no seu centro da atenção e atuação, no acolhimento e no acompanhamento dos progressos cognitivos, sociais e culturais desses estudantes, não numa porcaria de questões elaboradas por doutores que desconhecem a importância de um Pokémon ou uma estratégia de RPG para a rapaziada.

Desde cedo o Enem virou, portanto, um bicho-papão a ser derrotado, o que será para poucos, mas o sofrimento da antecipação da batalha será para milhões, e por dez anos! Nossos jovens não merecem isso. Quero que meu filho se lembre dos seus próximos dez anos como um período de crescimento com prazer (e um pouco de dor), onde a educação lhe tenha servido como incentivador da construção da sua identidade, dando sentido, portanto, ao prazer e a dor. E que não desperdice esse tempo maravilhoso correndo de e atrás de um bicho-papão.

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