E não é que os estudantes estão vendo sentido na Escola?


Escolas ocupadas dão lição de cidadania. Crédito: EBC
Finalmente, o Ensino Médio fez sentido! Pelo menos para os estudantes de quase 1.200 escolas pelo país. A ocupação estudantil, em protesto pela Medida Provisória (MP) do Ensino Médio, tem se tornado, como vários jovens têm dito, a melhor formação em cidadania que já tiveram.

Como todos sabem, o Ensino Médio faliu! E que uma das mais polêmicas decisões do novo governo foi a edição de uma MP que o reforme. Pelo menos, já deu um resultado positivo (embora não fosse a intenção do Executivo): foi o suficiente para reacender a chama natural dos adolescentes em brigar com os adultos e acharam um propósito para chamar de seu, um incentivo para irem naquele prédio público que se assemelha a uma espécie de regime semiaberto às avessas, dorme em casa e fica preso durante o dia!

Embora os movimentos estudantis não têm sido uma novidade nos últimos anos, são muito diferentes daqueles do Séc. XX. Embora não desprovidos de ideologia - algo impossível em qualquer movimento - não são baseados na ideologia político-partidária e menos ainda em dogmas panfletários. O resumo da ópera é o simples questionamento: de quem é a escola?

Os estudantes têm a resposta: a escola é deles, é para eles que deve servir. Embora não estivessem mobilizados anteriormente para reivindicar a melhoria do seu ensino, a provocação de fazê-lo sem sua participação tirou seus celulares do Pokemon Go e levou-os a buscar informações e usar suas redes sociais virtuais para se posicionarem.

Nada, ao que parece, que vai mudar o Brasil radicalmente: o movimento é uma gota d'água na imensidão da estrutura educacional do país: são 190 mil escolas, sendo 150 mil públicas. Portanto, menos de 1% estão mobilizadas. No entanto, graças às novas tecnologias de informação, não dá para calcular o quanto dos estudantes se encontram, no mínimo, atentos para as questões reivindicadas pelo movimento e, no máximo, em prontidão para seguir os colegas.

Será curioso ver a reação do Governo. Já ameaçam tirar o Enem das escolas mobilizadas, o que é bem cruel, e mostra que podem jogar duro. Isso significa que tais mobilizações estão vistas como suficientes para mudar a tramitação da MP? O prazo está correndo, e há duas grandes alternativas (entre outras menores): a primeira é voltar atrás e transforma a MP em projeto de lei e abrir para uma discussão mais ampla da reforma, com a participação dos jovens, mas que certamente levaria meses que extrapolariam o atual mandato Temer. A segunda é bancar a MP, agregando eventuais emendas parlamentares, sob influência ou não dos movimentos, absorvendo o desgaste político que porventura possa-se ter, mas na esperança que as férias estão logo ali e tudo irá se arrefecer.

Essa segunda opção já teve seu primeiro teste. Se o assunto pegou fogo logo no princípio, hoje ele se perdeu no meio das eleições do segundo turno, e não de forma tão natural assim: a imprensa em geral tem jogado a temática para o rodapé da página 8! Ou chamado a atenção para os aspectos negativos, como o ridículo choro de que as mobilizações fizeram com que a eleição ficasse mais cara por conta da mudança de lugares de votação! E isso, em plena discussão sobre os altos custos do Judiciário em outras rubricas menos nobres. Tomara que eu seja desmentido agora que as eleições acabaram e se aproxima o prazo final para a aprovação definitiva (ou não) da MP e o assunto ganhe novas manchetes.

O que não faz de mim um admirador da teoria da conspiração, aquela que submete ao poder da mídia a manipulação dos comportamentos políticos da população, quando não atendidos os padrões dos seus detratores. Sim, é inequívoco o tal poder da mídia, mas desconfio fortemente que é muito menor do que desejam ambos os lados e que só funciona se interligado e sintonizado com outros poderes por aí. Eu mesmo, com cinco décadas, três de jornalismo, e que me considero um sujeito que tenta se manter informado, consulto hoje apenas um jornal impresso uma ou duas vezes por semana e não me lembro quando vi um telejornal inteiro. Imaginem então esses jovens se estão aí para essa grande mídia cada dia menor!

Sabe-se que sua principal fonte de informação são os sites de redes sociais, para o bem e para o mal. Isso porque, ao mesmo tempo que bebem de vários mananciais informáticos, também podem estar com overdose e dependência de apenas aqueles que concordam consigo mesmo. Qual o impacto disso no movimento é o que eu gostaria de saber. A importação da PEC da limitação dos gastos públicos para o movimento - o que amplia perigosamente o debate e pode custar a ênfase na reforma do Ensino Médio - mostra que a integração das informações é certa, mas com resultados que não podem ser previstos.

No momento, no entanto, me satisfaço com esses jovens aprendendo a aprender pela prática, pela vocação, pela necessidade de se fazer pertinente e pertencente em uma sociedade excludente como a nossa. Que seja um vírus do bem, que contamine os demais e, principalmente, a reforma do ensino médio, da maneira que ela vier. Obviamente, de forma ordeira, sem violência e extremismo, como parece estar acontecendo com esmagadora maioria. Mas também espero que mais capítulos emocionantes virão, fazendo de Malhação uma besteira ainda maior no que condiz a representação dos jovens brasileiros.

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