Somos todos gênios: pena que isso é uma má notícia.

Albert Einstein (1879-1955): gênio para Humanidade, um retardado para a sua escola. Crédito: CC0 Domain

Estou lendo um livro que cita o historiador da arte, Bernard Berenson (1865-1959), que conceituou a genialidade como "a capacidade de reação produtiva à própria educação". O autor de A dinâmica da criação: o que faz as pessoas serem mais originais, o psiquiatra Anthony Storr (1920-2001), sabe que não se pode aplicar a definição para todos os gênios, mas certamente dá para explicar uma parte deles. O gênio não acreditaria no que lhe foi ensinado, por ser insuficiente, irrelevante ou só falso. E, de uma forma que pode ser considerada agressiva pelo seu entorno, quer mostrar a 'verdade'. Em uma sociedade de informação estressada, onde as 'verdades', as pessoas e as instituições são  frequentemente consideradas como insuficientes, irrelevantes ou simplesmente falsas, estamos todos sendo gênios? O mundo comporta tantos? E teremos todos o destino tradicional dos gênios clássicos, condenados à tristeza da exclusão e da incompreensão?

E onde as mais importantes instituições educativas se encaixam nesse contexto? A família e a escola têm de adaptado ao volume de gênios que brotam por todos os lados? A existência deles já se vê por toda a parte: crianças já contestadores em tenra idade, enchendo os consultórios de psicopedagogia e psicologia, e fazendo a alegria da indústria farmacêutica; jovens adolescentes que abandonam mental ou fisicamente o ensino médio, por não ver sentido em sua existência; adultos sem noção que infestam a internet com suas 'verdades' incontestáveis, sem possibilidade do contraditório.

Ou seja, todo mundo se acha no direito de se considerar um gênio, que é quando, nas palavras de Storr,  o inovador deve "romper com o passado antes de poder criar sua própria obra". Só que mesmo que Storr diga isso usando Beethoven como exemplo, não consigo deixar de pensar que crianças, jovens e adultos meio que tentam fazer isso quando gritam suas contestações e tentam imputar suas 'verdades' na marra. Nas épocas de Da Vinci, Beethoven e Einstein, as 'verdades' eram mais claras, haja vista que o conhecimento científico era para poucos. Hoje, basta acessar o Google. Pior. Pesquisas indicam que o Facebook é fonte única de informação de 40% dos jovens usuários.

Fato é que a família e a escola, a dos tempos dos gênios clássicos, deixaram de existir como fonte primordial da construção do conhecimento. E parece não ter acordado ainda para isso. Do meu ponto de vista, ela está em uma situação melhor: deixou de ser uma enciclopédia Barsa para se transformar em um GPS. Ou seja, ao invés de ser o depositário do saber, deveria indicar onde ele está. Claro, é fácil falar, não estamos, pais e educadores, preparados para isso.

Mas podemos ir trabalhando, e tentando fazer alguma coisa para mudar. O exemplo vem dos próprios gênios clássicos. "Se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes", disse Isaac Newton. O próprio Einstein vai contestar Newton, mas sem lhe negar a importância e a inspiração. Ou seja, romper com o estabelecido não é apagá-lo, ou desprezá-lo, mas repensá-lo. O inovador está na sua contextualização. Inferir imaginação e olhar diferente. Isso podemos fazer, sem aplicar a política da terra arrasada.

Não há mais um único modelo de família, e ainda bem. Não há uma única fonte de formação do conhecimento, a escola, e ainda bem. Mas ambas as instituições devem calçar as sandálias da humildade e ajudar suas crianças, jovens e adultos a saber sobre quais ombros devem subir, mesmo que não sejam exclusivamente os seus. Mas a afetividade e o respeito que os pais e educadores mantêm com seus filhos e educandos ainda são o estopim da construção do conhecimento, e suas consequências mais próximas: a cidadania, a interação social, a tolerância. Se hoje há uma profusão de 'gênios', se passa a impressão que é por excesso de opções, a maioria baixa demais para se enxergar longe. 

Pais e escolas vivem o dilema de abrir mão do seu protagonismo, dada a avalanche de novas fontes de informação e a falta de tempo, e insistir em manter velhas práticas, como discriminações sociais e currículos engessados. Ou seja, de um lado confessa que não dá conta de acompanhar as evoluções tecnológicas e os novos desejos da rapaziada,  mas tenta refletir uma ordem já vencida pelo caos de uma sociedade de informação neurastênica. 

A solução não é fácil, mas qualquer que seja começa como todo tratamento: com uma boa conversa. Atenção, não é bate-papo de botequim, onde cada um tem sua opinião e não há objetivo que não seja a conversa em si. É uma conversa direcionada, que visa a melhoria do sujeito e oferecendo ombros adequados para se enxergar ao longe. Mas também escutando sobre quais os ombros que se gostaria de contestar e potencializando a educação como instrumento de transformação social e "uma reação produtiva". E não precisa ser gênio para fazer isso.

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