Paga Brasil mostra quanto somos "despreparados"

Nossos futuros advogados levam, mas não pagam: dá para explicar muita coisa. Crédito: Divulgação Paga Brasil 
Um dos jargões mais clássicos da educação me parece mais atual do que nunca: se aprende fazendo. Outro, que vem junto com esse, é: se aprende vendo. Numa sociedade de informação, onde o conhecimento estabelecido é de fácil acesso, mas também tão vasto, variável, sem orientação e, portanto, mais confuso do que esclarecedor, voltar às origens da educação enquanto prática social nos parece cada vez mais a solução das angústias educacionais. Ainda bem que algumas escolas estão atentas a isso, principalmente quando a temática são assuntos difusos como cidadania, honestidade, respeito e... dinheiro. É o bom exemplo do Projeto Paga Brasil. Será que você passaria pelo teste que essa turma propõe?

"Se você se deparasse com um freezer cheio de picolés e no lugar de um caixa ou um fiscal, apenas uma urna para depositar o valor do produto, você pegaria o picolé sem pagar ou pagaria?" A ideia é muito simples. Coloque-se um freezer cheio de picolés em um lugar público. Cada picolé custa R$ 2,00. Assim, você pega o seu e deposita os dois reais na caixinha do lado. Não tem vendedor ou, melhor, fiscalizador da honestidade alheia. O Projeto Paga Brasil é uma experiência social realizada por alunos da UFMG de engenharia. Está tendo uma enorme repercussão e a experiência passou por diversos campi da própria universidade, mas alcança também as escolas de ensino básico.

Projetos como esses devem ser replicados nas escolas básicas, imediatamente. Elas penam para discutir cidadania, honestidade, valores morais, respeito ao bem público e privado, o valor das coisas (diferente do preço). Em geral, é difícil sair das tradicionais (e chatas) palestras e aulas expositivas, que mais tem um caráter de 'puxar a orelha', de passar uma cartilha do que é certo ou errado perante, não aos alunos entre si, mas a uma genérica cultura do politicamente correto, algo de cima para baixo, reforçando o 'não faz isso, porque o professor/pai e mãe/diretor da escola/polícia/presidente/papai do céu não acham certo'.

O problema é que boa parte do que se falou nas tais palestras não se vivencia no ambiente escolar, não em sala de aula, mas naquele pedacinho de mundo real: durante os intervalos, os ambientes continuam sujos de restos de salgadinhos e garrafas plásticas, já que o serviçal da escola depois passa lá e limpa. Os lanches são os mais politicamente incorretos possíveis, assim como seus preços são o diferencial entre o bom ou ruim. E não tem um lugar onde as crianças podem ver ou fazer uso das palavras ouvidas como, por exemplo, comprando produtos sem a necessidade de fiscalizadores da honestidade alheia.

Obviamente, essa é uma visão genérica, mesmo porque também não faltam exemplos de escolas que fazem projetos semelhantes, como bibliotecas nos espaços livres, onde os estudantes podem pegar livros e revistas sem a intermediação de bibliotecários, no compromisso de devolver depois, ou trazer novas contribuições para o acervo. Há também os conhecidos teatrinhos e, agora, produção de videos, realizados pelos alunos como expressão de suas angústias. Mas não é uma política educacional, algo disseminado, o que deveria ser papel do Estado e das associações de escolas, e não de alguns diretores e professores inquietos e proativos.

Sobre o Projeto, quatro últimas considerações:

Primeiro: com a repercussão, metodologicamente o resultado está ficando comprometido. Já conhecendo o projeto, a tendência é submergir nossos instintos reais, de pegar o picolé e se mandar, pelo 'olha como eu entendi a proposta e estou fazendo direitinho'. Além disso, em alguns lugares, há câmeras vigiando e seguranças próximos, como alguns comentaram na página do projeto (embora, mesmo assim, teve gente que pegou sem pagar...). Compromete os dados estatísticos, mas não invalida a discussão. Ao contrário, reforça o caráter patriarcal e da necessidade de vigilância como variáveis morais de nossa cultura.

Segundo: alguns resultados assustam. Na Faculdade de Direito,  os 'despreparados' (o eufemismo que o projeto criou para aqueles larápios que pegam e não pagam) foram 94%! Lembrando que são os futuros advogados formados pela UFMG! Outra surpresa desagradável é que o segundo lugar negativo fico com a FAFICH, logo da área de ciências humanas, com 55% de gente que pegou e não pagou. Claro, precisava perguntar para esse pessoal porque fizeram isso, vai ver que era um atitude de protesto, sei lá! Ou eu apenas estou me iludindo. Já a turma da Arquitetura deram exemplo: só 4% deram cano. Sempre gostei desse pessoal que imagina o concreto com criatividade! E as escolas básicas particulares que participaram não fizeram feio, mas sempre podem melhorar.
Ranking dos 'despreparados' em 15 de junho: confie nos futuros arquitetos e dentistas, mas fica esperto com advogados e... cientistas sociais! Fonte: PagaBrasil


Terceiro: o projeto, como explicam seus honestos idealizadores, não tem pretensão de ser um estudo sociológico. Pretendem fazer as pessoas refletirem, mas, também, testar novas maneiras de comercialização. Aqui se explica, em parte, o meu estranhamento que a iniciativa veio da Engenharia, não da área de humanas, sempre tão ciosas em tentar compreender o comportamento social das pessoas. Mas não consigo parar de pensar que isso, certamente, também significa alguma coisa (será que foi por isso que o pessoal da FAFICH pegou e não pagou? nova ilusão?). Ou seja, uma parte da proposta do projeto é tirar o sub-trabalho de um monte de gente sem qualificação e que vende picolés e produtos similares. Os serviços públicos de transporte seguem a mesma toada, com a ajuda da tecnologia, como a dispensa dos cobradores de ônibus. Mas, aí sim, a situação no nosso país é mais complexa, como já defendemos aqui. Não invalida a discussão, pois a sociedade pode ser mais honesta e, ainda assim, não causar mais desemprego e sofrimento (aliás, a tendência deveria ser o contrário!).

Quarto e último: o terrível dessa ideia simples é que essa é uma prática mais do que comum em países desenvolvidos e outros nem tanto. Jornais, transporte coletivo, frutas em bancas, são alguns dos produtos e serviços lá fora que os consumidores sequer pensam em "se dar bem" pegando grátis ou mais de um produto, usufruindo do serviço sem a sua devida paga. Portanto, se lá acontece isso, mas aqui é fruto de estudos sociológicos para entender porque gostamos de "levar vantagem", mais que os demais povos,  é porque tem alguma coisa errada em nossa cultura. E, se essa falha de caráter se transforma em um problema social, a educação é o principal caminho para uma mudança permanente e saudável.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Espaço: a fronteira final

Educação é Pop!

Há esperança!