TV Digital portuguesa e as lições para o Brasil



Há dois anos Portugal fez seu desligamento da TV analógica terrestre e agora só tem TV Digital. É um outro país, outro contexto, mas tem enormes lições a nos dar. E nos alertar.

É incomparável a diferença territorial entre o Brasil e Portugal. É como se digitalizassem apenas o estado de Santa Catarina (que ainda é maior uns 3 mil km2). Mas é impressionante como parece que deu tudo errado. E como pode dar um bocado de coisa errada aqui também.

Parece que a grande bobagem foi fazer uma licitação para ver qual empresa administraria a transição. E não é que quem ganha - com o governo dizendo amém - é uma empresa de telefonia paga (que também leva os sinais das TVs pagas e banda larga)? Resultado: fizeram nenhum esforço para manter uma televisão aberta grátis e fácil acesso e, hoje, majoritariamente, o português tem que pagar se quiser assistir TV. Mesmo aqueles que vivem no interior (e não são poucos) não conseguem pegar um sinal (porque, como todos sabem, não há 'bom' ou 'mal' sinal na TV Digital: ou tem ou não tem). E aí, tiveram que assinar um dos novos pacotes 'populares' das operadoras de telefonia.

E a multiprogramação e interatividade, instrumentos de avanço na TV? A arrecadação das emissoras tradicionais caiu pela metade e os anunciantes mudaram de qualidade, saindo grandes empresas que geram fluxo contínuo e confiável para pequenos anunciantes imprevisíveis. Como ter mais canais e desenvolver novas tecnologias com esse orçamento? Ora, Multiprogramação e Interatividade! Não é uma incrível coincidência que encontremos ambos justamente na TV paga e na banda larga oferecida pelas mesmas empresas que determinaram os rumos da TV Digital de Portugal?

Dá para piorar: sabiam que não se transmite o campeonato português de futebol pela TV aberta? Só pagando os coitados dos torcedores dos tradicionais Benfica, Sporting, Porto e dos demais podem assistir seus times no campeonato nacional!

Isso é que dá dar para o lobo a administração da floresta!


Ah, no Brasil isso nunca irá acontecer! Os radiodifusores brasileiros são inimigos - e mais poderosos politicamente - que as telefônicas. É mesmo? A radiodifusão fatura 1/10 das telefônicas e, como sabemos, dinheiro gosta de estar com mais dinheiro. Não se pode ter dúvidas que os radiodifusores já estão em entendimento com as telefônicas, quando já não é clara essa relação, como o caso da Globo e a Net.

Temos muito mais gente vivendo em lugares com dificuldades de sinal, tanto por distância como por topografia ruim do ponto de vista da transmissão. Mas apenas cerca de 30% tem acesso a esse sinal. Mais outros cerca de 30% não recebe sinal digital nem por parábola. Temos mais de 97% dos lares com TV, mas onde mais de 50% usa ainda a TV de tubo (que não é mais fabricado e que não recebe sinal da TV Digital), e quase 60% tem só um televisor. São dados do da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE. É de 2013, mas com uma crise econômica ditando às vontades, não imagino que os dados tenham mudado muito.

Por fim, temos uma proposta de inclusão digital - explícita na legislação de implantação da TV Digital. Não é só mais uma telinha bonita!

Tudo isso está sendo levando em conta? Quais os interesses comerciais envolvidos neste contexto? Quais os interesses públicos que estarão sendo relevados? Qual é a disputa e quais são os papéis das TVs comerciais, TVs públicas, telefônicas, governo, Congresso?

Quem está tomando conta da nossa floresta?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Espaço: a fronteira final

Educação é Pop!

Há esperança!