Dia de Prevenção ao Suicídio: coragem é falar sobre o tema

Sim, eu já pensei em me suicidar! Toda pessoa que já passou por um grande trauma já pensou em suicídio. Negar essa nossa característica é piorar a situação, e se esconder da responsabilidade que todos temos conosco e um com os outros. O que me salvou foi outra de nossas características: a grande distância entre o pensar e o fazer é o que mais temos de mais original entre as demais espécies da natureza. Mas mais de 800 mil pessoas anualmente concluem esse longo percurso e, pior, são incentivados a fazer o curto-circuito, ao invés de encontrar uma resistência no meio do trajeto. Suicídio é tão estranho à nossa frágil espécie que é a primeira vez na Humanidade que nos matamos mais a nós próprios que aos nossos semelhantes. O que já era triste para a nossa história, agora é desesperador. Entender isso é resolver em grande parte o problema.

Suicídio é não ver mais sentido na Vida. Olhar para si e para os seus próximos é nossa obrigação, é fazer a pergunta fundamental: para quê precisamos levantar da cama hoje? Logo após minha esposa falecer, ao olhar para o lado vazio da cama, estava claro pra mim que não haveria mais o que fazer: ela era a minha vida, e o que me restava era tão pequeno que nem valia o café da manhã. Mas me filho veio dormir comigo, e o sentido da Vida veio com ele. Hoje, encontro mais motivos para levantar para tomar café e seguir, mas há dias que tenho que insistir com o carcereiro para que reforce a tranca dos meus fantasmas. Faz parte! Mas não tem nada a ver com o clássico "bola pra frente"!

800 mil pessoas não tiveram a minha sorte no ano que se passou. E mais 800 mil não terão neste ano. Se somarmos todas as guerras do mundo, inclusive as contra o tráfego de drogas e todas as mortes violentas, ainda assim os que se matam superam em 30%. 30%!! E a maioria são de jovens - que deveriam está exuberantes com a Vida - e idosos, que poderiam estar usufruindo com mais tranquilidade o que lhe resta.

As causas e consequências não são muitas, e são resultados daqueles sentimentos que Lacan diz que move o mudo: amor, ódio e ignorância: 

* Humanos são seres de grupos, como pinguins, não solitários, como os ursos polares: esquimós em grupo caçam ursos, esquimós solitários são comidos pelos ursos. Desde a Revolução Industrial temos mudado o registro e nos forçando a valorizar a individualidade, dado que o consumo por pessoa é mais lucrativo do que em grupo: ao invés de uma pizza grande com dois sabores e um refrigerante litro, negociados pela família, cada um tem seu brotinho e sua lata individual. O Séc. XX e sua globalização comercial intensificou o fenômeno antinatural, e o Séc. XXI e suas redes antissociais fornecem o incentivo fatal. Colocar um pinguim solitário no Ártico, mesmo com WhatsApp, tem tudo pra dar errado!

*É antinatural e improdutivo tirar sua própria vida: nossa espécie batalhou muito pra sair da série D da natureza e ser a dominante do planeta pra cair fora assim de graça! Por isso, raramente fazemos isso sem dar sinais, que nada mais são do que pedidos de socorro. Mas como Morte, Luto, tristeza, angústias são mal vistas pela mesma sociedade de consumo (pessoas tristes costumam consumir menos), evitamos o assunto e viramos a cara para tais sinais, em nós e nos outros: "bola pra frente" me parece muito mais com um convite para bala na fronte, já que quem está deprimido o está justamente porque não enxerga "frente" nenhuma.

*Jovens tiram suas vidas de forma dramática, como se quisessem, paradoxalmente, marcar com a sua audacia, o oposto de um ponto final (do latim audacia, “atrevimento”, do latim audax, “atrevido, bravo”, de audere, “atrever-se, empreender”). Idosos, como bem me lembrou uma aluna em psicologia, o fazem discretamente (e estão fora das estatísticas!), simplesmente deixando de tomar remédios, boicotando atividades de fato vitais. 

Enquanto isso, o entorno acredita que não é com ele. Somos seres que aprendemos a falar há cerca de 60 mil anos, contra os 300 mil de existência: portanto, sabemos nos comunicar sem palavras há muito mais tempo do que falando. Quando foi que abrimos mão de entender o outro só pela convivência? Porque paramos de perceber os pedidos de socorro corporais nossos e dos nossos próximos? Por isso, não há mesmo melhor mote da campanha de prevenção: um abraço pode mesmo salvar uma vida!

 

Uma aluna nos apontou que a imagem do nosso antepassado mais próximo de nós, o Australopithecus, era justamente abraçando uma criança

* Nossas atividades em prol da prorrogação da nossa espécie na Terra tem sido ao contrário das nossas necessidades enquanto seres gregários: há muito mais cientistas na indústria de cosméticos do que em institutos de pesquisa de doenças como câncer e virais (e tem gente dizendo que a Covid-19 foi algo fortuito). À propósito, constroem-se mais estádios - e seu simulacro de vida coletiva que se esgota em 90 minutos - do que hospitais (daí ter que colocar hospitais em estádios quando o vírus pega!). E, horror dos horrores, as pessoas frequentam agora mais academias do que botecos!

Porque é tão difícil percebermos que temos a solução deste grande mal da Humanidade bem em nossos olhos, sentidos e braços? Percebamos os sinais! Falemos sobre isso! Tenhamos de cor o número 188 dos Centros de Valorização da Vida para a gente e para os nossos que pedem socorro! Se educador, saiba na sua escola quais as maneiras e como orientar os alunos - independente de sinais - como procurar ajuda (todas as boas escolas têm núcleos psicopedagógicos espertos no tema de suicídio). Se convive com pessoas mais velhas, que mostram no cotidiano uma espécie de "já deu", siga o conselho da Ana Vilela na ótima canção Trem Bala e "abrace seus pais enquanto estão aqui", mas também a tia, o vizinho. Se amigo, saia da academia e vá conversar com ela/ela em um ambiente acolhedor para ambos.

Faça terapia e recomende terapia! Peça socorro a quem entende! Quem se afoga não quer ser salvo pelo sorveteiro.

Olhe e sinta, com carinho, atenção e (pre)ocupação, tanto você, como seu/sua companheira, seu/sua filha, suas amizades. E abra o verbo sem o medo moral, mas com o medo da perda: "você está pensando em se matar?" Sem julgamento, sem escândalo, com a convicção que tal pensamento é inerente da maioria de nós e que, mais uma vez, a distância entre o pensar e o fazer é grande, e pode ser interrompida com abraços reais ou metafóricos. E cuidados especializados. Bora salvar vidas?

Importância do Centro de Valorização da Vida (CVV)

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