Educação é Pop!

O que podemos aprender e ensinar com a cultura pop?

Era a enésima aula por zoom. Confessemos, já havíamos, professor e alunos, passado por todas as fases do novo videogame: a do desespero e estranhamento inicial, a adaptação resignada, uma certa euforia pelas vantagens logísticas e econômicas, a primaz discussão sobre ética e câmeras abertas, e esgotadas a mostra de videos do YouTube e todas as piadinhas sobre EaD e espiritismo "tem alguém aí?"). Agora, só restava o tédio! Quando pedi ajuda ao Sr. Spock, personalizado num bonequinho que tenho na mesa, e ele me disse "Em momentos críticos, o homem por vezes vê exatamente o que deseja ver." Até que a frase não ajudou muito, mas serviu para levar o meu Spock à frente da câmera e perguntar aos meus alunos se eles tinham um objeto de cultura pop do seu lado - assim como eu - e gostaria de abrir sua própria câmera, mostrar e contar a sua história. O resultado também poderia ser resumido pelo mesmo Sr. Spock: "Fascinante!"

Obrigado, Sr. Spock.
Uma aula não foi o suficiente. Ainda que houve quem se queixasse que não havia se preparado, poderia mostrar na próxima aula? E a aula, que caminhava como um zumbi num planeta sem cérebros, renasceu como uma fênix num anime. Colegas pediram contatos de outros colegas que desconheciam pertencer à tribo dos Harry Potter, outros entoaram loas e impropérios sobre super-heróis, terceiros até então personalizados por uma tímida letra num fundo preto, simplesmente fizeram um tour com a câmera aberta pela intimidade de seu quarto.  Como a disciplina era sobre comportamento, fui tentando fazer conexões com o que (supostamente) havíamos estudado até então. E fiquei escutando os empolgados jovens falando de seus desejos, ilustrados pela cultura pop, e como tudo isso conseguia me dar, como educador, os ganchos para construir o conhecimento que estava na emenda da disciplina. E achei que também seria possível em outras disciplinas: a complexidade do mundo pop, hoje muito mais emaranhada, diversa, antenada do que na época que eu assistia Jerry Lewis na televisão e Os Trapalhões no cinema, oferece uma miríade de temáticas e interfaces com as disciplinas escolares. 

Vê se não dar para dá trocentas aulas só com essa tira? by Bill Watterson
É certo que nada disso é novo. Calvin e Harold, Mafalda e Hagar estão super presentes nos livros, atividades e avaliações de todas as disciplinas do ensino básico, assim como nas provas do ENEM. Na minha época, só tinham, discretamente, a Disney e Turma da Mônica, raramente usados hoje por não conterem o espírito crítico necessário e corretamente exigidos nos nossos tempos. O importante é que se elimine um certo ranço que a academia tem com a cultura pop, julgando-a, precipitadamente, como alienada e alienadora (ainda ecoando "Para ler o Pato Donald", de Armand Mattelart, libelo anti-imperialista, e que fazia todo o sentido, mas naqueles anos 1970-80'). Hoje, tenho um colega ensina sobre Revolução Francesa usando Minecraft (e imagino que também pode ser divertido nas aulas de matemática e arquitetura). Outro, de filosofia a programação usando videogames bilionários. São exemplos entre centenas. Foi-se o tempo que era inovador 'ensinando pelo cinema'.

É dos anos 1970', mas ainda ecoa.

O problema é que o estigma continua, principalmente nas escolas que ensinam professores. Nunca vi qualquer dica simples como 'você usa a cultura pop para ajudar na aprendizagem?' em uma das famosas 'metodologias ativas' (na realidade, apropriação recauchutada do que pedagogos como Wallon, Vigotski, Montessori, Piachet, Freire, já imploravam para fazermos com nossos estudantes há mais de um século). E por que não?


Porque cultura pop está associada a grana - com razão. Afinal, são produções do tipo execrada pela Teoria Crítica, que denunciou a Indústria Cultural como manipuladora de mentes e que quer só ganhar dinheiro e poder político, com uma espécie de pasteurização de produtos midiáticos em massa. Sim, seu objetivo é mesmo alimentar o capitalismo, dos mansos aos selvagens. O gargalo dessa discussão, no entanto, não é a verdade que a contêm, mas que quem consome está pouco se lixando para Adorno e Horkheimer , os principais teóricos desse pensamento. Deles - e ai, que dor! para os acadêmicos - só se tem a suprema heresia perante esses produtos: eles gostam, amam! Muito mais do que dos nossos teóricos, dos textos profundos, das visões de mundo sofisticadas (do nosso lugar, claro!).

E se tem um trem que aqueles pedagogos inspiradores das tais metodologias ativas também nos ensinaram é que o melhor caminho para se construir o conhecimento é aquele pavimentado pelo gostar, pelo que faz sentido e sentimentos, pela rede de objetos simbólicos de afeto que cerca o aprendiz. Sim, é possível ensinar pela dor, mas só se aprende pelo fervor.

Mas, e o senhor, o que está fazendo a respeito? Então.... vai aí o merchan!

A estreia homenageia o Dia do Educador
Partindo da premissa do que podemos aprender com a cultura nerd de uma maneira geral, o gamer e influencer Maxwell Henrique, dos perfis Nintendólatras e Gamedólatras, e eu idealizamos a iniciativa NerdEducação.

Observando muitas referências em séries, filmes e jogos, nós vimos um dia a compartilhar com nossa farta audiência (no caso dele) todo os ensinamentos que várias dessas mídias no trazem de forma objetiva. Veja que legal ficou a lista dos cinco episódios: o que podemos aprender com 1 e 2 WandaVision (com um dos episódios centrados no confronto entre magia e ciência), 3) os games, 4) os zumbis e 5) a série The Boys.

O NerdEducação é um videocast feito de fã para fã, mas também para educadores que gostam ou acreditam na cultura pop. A ideia é entregar informação, mas também um jeito de colocar a educação e cultura nas mídias nas pautas pedagógicas. A maneira como se conduz o programa - iniciando-se pela diferença de gerações entre os apresentadores - pode servir de inspiração para levar à sala de aula. A estreia é nessa sexta-feira, dia 6 de agosto, dia do Profissional da Educação no IGTV e YouTube Nintendólatras. Mas vai ficar no acervo para consultas.

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