Manifesto Cringe: vão plantar batatas!

"Ai, foto de gatinho é tão cringe!" Imagem de Сергей Корчанов por Pixabay

 Sei que não é comigo, é treta entre os millennials (turminha que nasceu entre 1978 a 1995) e a geração Z (entre 1996 e 2010). Pode ser um problema geracional familiar (meu filho é Z e, às vezes, gostaria de mandá-lo a PQP!). E pode também até estar já fora de moda, já que a efemeridade destes tempos é tão grande que até a palavra cringe já virou cringe. Mas como um legítima raspa de tacho dos Baby Boomers (1946-1964), não consigo me calar perante os desatinos que essa atual batalhas de (falta de) sexo dos anjos. Ainda mais que, o que se discute, repercute na minha geração, talvez a primeira a acusar as anteriores de 'cringe', na época com a muito mais simpática palavra 'cafona'. É que essa turma mal saída dos cueiros desvirtuou todo o sentido do que é um bom conflito de gerações. Assim, quando a rapaziada se arvora de desmerecer as tropas anteriores, o desejo é mandar esse pessoal ver se a gente está na esquina! 

Alguém tem que ensinar a essa meninada que conflitos de gerações é algo tão natural e importante quanto a chatura da adolescência. Mas, como qualquer boa guerra civilizada, é preciso respeitar algumas regras. A primeira é lutar por coisas que valem a pena: não é sobre Harry Porter X Rick e Morty, Facebook e TikTok, entre café da manhã e sei lá o quê! É sobre costumes, valores, tabus! E olha que não faltam frentes de batalha necessitando de bons soldados: o bicho está pegando com o racismo, a LGBTQIA+fobia, mulheres ganhando menos (mesmo estudando mais), desigualdade social (embora economia crescendo), governantes fascistas, genocídio sanitário... 

Outra diferença: têm que ter diferenças! Porque, daqui do meu ponto de vista atrás do ônibus, essas gerações não me parecem ser tão diferentes assim. Congregam duas características que mais as aproximam do que se repelem: uma digitalização da vida desde cedo, e um exagero pela opção individualista de ser. Veja que não escrevi, como numa questão do Enem, 'a segunda é recorrente da primeira', quando a opção é a letra b: é justamente o contrário. 

A opção das gerações 1980 em diante, a de ser seres solitários, renegando nossa natureza gregária, foi o que direcionou as pesquisas, a indústria do consumo e seu marketing para produtos tecnológicos no sentido de criarmos instrumentos que construíssem simulacros sociais. Algo como "faço de conta que vivo em bando, mas desde que ninguém me diga o que ser ou fazer". Embora, neuroticamente, seja a primeira coisa que buscam nas redes sociais pela manhã. Deve ser isso que trocam pelo café!

É duro, meninos e meninas, mas isso é impossível para a única espécie da natureza que precisa, pelo menos, de uma dezena de anos para desmamar. E, na psicologia do buteco ali da esquina, é a principal (falta de) motivação por vocês se sentirem tão mal, tão deslocados, tão "na merda" (expressão usual de meus alunos). E por terem o recorde sinistro da Humanidade: o de número de suicídio entre os jovens, é a segunda causa de morte no mundo desde 2016, apenas atrás de acidentes de trânsito (que, como dirigem, também pode ser considerado uma forma de arriscar a própria vida deliberadamente).

Essa sim, seria outra boa briga para o embate de gerações. O que as gerações anteriores fizeram que os levaram a isso? Apoiaram o consumismo, vestiram suas crianças de adultos e anteciparam as angústias antes do amadurecimento? Projetaram suas frustrações por, como dizia Belchior, terem sidos como seus pais, e desmamaram cedo demais, deixando que os aparatos técnicos completassem o serviço porco? A gente não sabe, acredite. Mas se há algo de bom que é possível tirar de uma guerra, é repensarmos se o que fizemos valeu a pena, quando olhamos para os destroços. E, geralmente, a resposta é não, o que nos faz dar mais um passo para nos aprimorarmos.

Daí vem a terceira regra: se é para brigar pelas bobagens da geração anterior, que se ofereça, junto à crítica, novas opções, propostas de mudanças de costumes, soluções mais radicais que só a impetuosidade dos jovens é capaz de pensar e exercer. Se as guerras dos anos 1960-1970 fizeram os jovens se rebelarem contra a imposição da geração anterior, como a obrigatoriedade do exercício militar - porque matavam jovens sem qualquer sentido justificado -, não seria o momento de também se rebelarem onde a auto matança dos seus colegas?

Mas que sejam opções que, como nas gerações anteriores, saiam dos debates juvenis e ganhem o cotidiano, pratique-as, mesmo que, daqui alguns anos, deixem o exercício e optem pelo pragmatismo que a vida nos impõe, materialmente representada pelos tais boletos atualmente cringe. Mas, continuará havendo coisas, entre gerações, que não entendemos, convivendo com coisas com que nos identificamos. Do que não entendemos, a motivação que, a cada geração, se gostar menos de sexo! Brigamos tanto para valorizá-lo, diversificá-lo, tirar-lhe a culpa milenar, e a meninada prefere fotos e videos? Espero que não se arrependam, não querendo agora que podem e, quando quiserem, não poderem. Por outro lado, tem uma coisa que a minha geração consegue se identificar muito bem com a geração Z: nós também achamos boletos cafonas!

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