Latanet: Comunicação e Educação na lata!

 
Documentário 'Educomunicação na prática: a experiência do Projeto Latanet', de Luiz Chinelato

O Projeto Latanet foi um marco para a educação de Belo Horizonte, no final do Séc. XX e primeiros anos do Séc. XXI. A provocação do seu sugestivo nome era no sentido de tentar unir o artesanal, a sucata, o desprezado, com o que, naquele momento, havia de mais moderno, a tecnologia digital como propulsora dos novos tempos da comunicação. E tudo isso em favor da Educação. É daqueles programas que nos cabe duas perguntas: porque parou e o que podemos fazer para não perder seu legado?

(Me ocorre uma terceira: nestes novos tempos de praguejamento à educação progressista e às mídias, concomitantemente, não seria uma boa pensarmos um projetos que tratem a educação e a comunicação com a devida consideração?)

O Latanet surge em uma época de efervescência de projetos educativos que utilizavam a comunicação audiovisual como instrumento de atratividade, disrupção com a educação formal tradicional e uma busca de capacitar as crianças e jovens de uma visão mais crítica dos meios de comunicação, dado que, cada vez mais, mostravam-se, mais do que inseridos, imersos e acachapados. (Mais de uma década depois, o trem só piorou...).

Belo Horizonte era, então, um dos polos de projetos sociais educativos, muitos deles financiados pelas próprias secretarias de educação, como foi o caso do Latanet. Naquela ocasião, havia toda uma discussão sobre o que ficou conveniado a 'Educomunicação', quase que uma nova área do saber, capitaneada pelo Prof. Ismar Soares, da Eca/USP. Incentivou e proporcionou o surgimento de centenas de oficinas, cursos, pesquisas, metodologias, educadores, investigadores (junto com outras centenas de livros e artigos acadêmicos) que visavam, em resumo, resolver três dilemas educativos: como usar a mídia para fins pedagógicos (independente da disciplina), como entender a mídia (enquanto instrumento social e importante influenciador da realidade) e como usar da mídia para manifestação social (como expoente de identidade, como canal de expressão, como demonstrativo do seu lugar de fala).

Tal movimento não era fortuito, pois ele também herdeiro dos movimentos de arte-educação do final dos anos 1980, quando o mundo dá sinais de refutação à cansativa Guerra Fria e aos governos autoritários em favor de um bem estar social  (que tem como principais expoentes, no mundo, a queda do Muro de Berlim, e, no Brasil, a Constituição de 1988). Tal clima vai também questionar (um vez mais), a educação tradicional (professor/conteúdo-a-ser-dado/carteiras-enfileiradas), ao mesmo tempo que ratifica a influência cada vez maior dos meios de comunicação na formação das crianças e dos jovens.

(Perdão para uma observação nerd: eram tempos interessantes, onde Teoria Crítica se sentava com os Estudos Culturais e fazíamos de conta que não havia incompatibilidade entre o manipular da primeira com o interacionismo dos segundos).

Mas aqui o que nos importa é que o Latanet foi um bom exemplo de tentativa de equilibrar aqueles três dilemas: criar uma metodologia educacional ativa com o uso de fotografia artesanal, entender como a edição das imagens influencia a realidade e ofecerer um canal de expressão social. O projeto foi criado pela Oficina de Imagens, uma organização social (antiga ONG) formada por comunicadores e educadores, e fez parte de um rol de outras criativas ideias, e financiado pela Prefeitura de Belo Horizonte, sendo premiada por fundações pública, privada e social.

Sua história, no entanto, está melhor contata pelo pesquisador Luiz Chinelato, que resgatou de um triste limbo. O Latanet foi seu objeto de pesquisa e, como produto técnico de sua dissertação de mestrado, fez o documentário que ilustra o início deste post. Importante lembrar que Chinelato já era um produtivo produtor audiovisual de Belo Horizonte, com inúmeros trabalhos na publicidade, quando resolveu se dar uma chance como pesquisador e educador.

Então, para quê eu tenho o que dizer mais? Pode-se escolher (ou fazer os dois): ler o artigo resultante de sua pesquisa (Latanet - da latinha à internet: comunicação audiovisual para a educação e o desenvolvimento local), onde dá uma geral bem completa sobre o projeto e convida as televisões universitárias a adotarem as metodologias de educomunicação sugeridas pela oficina; e assistir o média-metragem que roteirizou, gravou, editou e dirigiu. Basta um clique.

Por fim, duas últimas confissões: a primeira é que não sou muito chegado ao termo 'educomunicação'. Sei lá, prefiro os consortes Educação e Comunicação, assim, separadinhos na real, mesmo que formando um belo casal em vários momentos. Particularmente, prefiro manter as identidades de cada em benefício do resultado da soma delas quando necessário analisar algum fenômeno onde eventualmente elas se encontram em parceria epistomológica. No entanto, é inegável o trabalho dos professores e pesquisadores em educomunicação, e o que contribuíram para o entendimento, a escuta, o desenvolvimento de projetos em escolas e que levaram crianças, jovens, professores, educadores em geral a combinarem didática e meios de comunicação em prol de novas metodologias de ensino, do entendimento sobre o que é a mídia e como utilizá-la como seu próprio meio de expressão.

Já a segunda confissão: Luiz, sim, foi um orientando, e, sim, estou aqui enaltecendo um trabalho endógeno. Mas eles merecem, tanto Chinelato, que saiu do seu lugar de conforto enquanto conceituado produtor audiovisual e deu conta de se mostrar um pesquisador cioso, responsável e detalhista como seus videos; tanto o Latanet, um projeto que deve registrar, manter e disseminar seu legado, nem que por mão de outros.

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