Lixo pode e deve ter Gestão Social, para não nos afogarmos nele

Lixo urbano na Indonésia. Foto: Wikimedia /CC in: Observatório da Imprensa

Vamos nos afogar em lixo. Essa é a impressão que eu tenho. No início dos anos 1990, quando morava nos EUA, me assustava muito a quantidade de resíduos sólidos que as residências produziam diariamente. No Brasil daquela época ainda havia muito do granel, sem ênfase nas embalagens, com um lixo com características mais orgânicas. Achava que a gente era mais avançado ecologicamente!

Ledo engano. Éramos só atrasados na sociedade de consumo. Tudo tem que ter embalagem para maximizar o processo de produção e distribuição, para atrair consumidores por aspectos não inerentes ao produto, e para outras vantagens do varejo que não tenho competência para opinar. Aqui interessa apenas saber que o tal 'progresso tecnológico' está nos afogando em lixo.

Como se o excesso de embalagens já não fosse o suficiente, o lixo eletrônico segue a mesma toada. Os fabricantes de TV querem que troquemos de aparelho a cada três anos. Acha exagerado? Os smartphones já são trocados anualmente, com o apoio, inclusive financeiro, das operadoras de telefonia. Impressoras são descartáveis, já que sua manutenção é, propositalmente, mais cara que uma nova. Os computadores de mesa domésticos estão também a caminho do lixo, sendo substituídos em casa por dois, três notebooks que, também em cerca de três anos, perdem capacidade de processamento. Então, vamos nos afogar em lixo!

Cristiana Andrade é uma jornalista ambientalista preocupadíssima com isso. Sua cidade, Belo Horizonte, já tem um projeto de coleta seletiva há mais de duas décadas que, com trocadilho, é um lixo. O país tem também regulamentação desde 2010, dentro da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Boa parte do lixo descrito acima tem destinação econômica, ou seja, se separar, há quem queira. Então, porque já estamos com o lixo pela cintura?

Cristiana desenvolveu uma pesquisa para o seu mestrado profissional e descobriu que falta as partes conversarem: prefeitura, catadores, cooperativas, receptadores de material reciclável, população que produz o tal lixo. Tive a honra e o prazer da aprendizagem ao acompanhá-la no Programa de Pós-Graduação em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA. E uma parte importante dos seus resultados foi publicado na Revista Mundi - Meio Ambiente e Agrárias do Instituto Federal do Paraná, intitulado Gestão Social como possibilidade de articulação entre a Política Nacional de Resíduos Sólidos e a Sociedade.

Segue seu resumo:

A questão ambiental ganha contornos cada vez maiores no mundo. Lidar com os resíduos sólidos urbanos é um desafio para todos os países, ricos e pobres. O Brasil tem, desde 2010, nova legislação sobre o lixo, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que tem diretrizes a serem seguidas por estados e municípios. Uma das mais importantes é a construção, por cada uma das 5.570 cidades, do plano local de resíduos, um detalhado documento que vai nortear todo o seu gerenciamento. Pressupõe-se que esta construção deva ser feita com a presença dos cidadãos, empresários e setor público, uma vez que os resíduos sólidos urbanos são responsabilidade de cada cidadão e não apenas do Estado. Dentro desse contexto, toma-se a problemática do lixo como objeto de reflexão desse artigo, considerando que a PNRS apresenta a ideia de gestão compartilhada, que responsabiliza cada pessoa pela geração do seu rejeito, e prevê educação ambiental e a participação social como opções para envolver toda a sociedade no processo de reduzir os resíduos. Foi feito um estudo de literatura, a partir da pesquisa bibliográfica, e um estudo do caso de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, que há 21 anos tem um projeto de coleta seletiva. A partir daí, tenta-se articular os conceitos e propostas da gestão social e comunicação para fazer a interface da lei com a sociedade

Cristina, como comunicadora, também fez uma análise da comunicação social no Observatório da Imprensa, com dicas de como os comunicadores e os usuários em geral podem ajudar no processo, intitulado A imprensa e a redes sociais na guerra contra o lixo.

Tomara que seu trabalho encontre a mesma sensibilidade e cuidado com que escreveu por parte de quem vai ler.

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