Oba! Acabou o ranking do ENEM!

Classificação do MEC era controversa, mas atendia um fetiche das escolas Imagem Pixabay CC0 Public Domain
"Primeirão!" Então, não é de hoje que queremos ser o primeiro. Desde criança, estar à frente era algo desejável. Fora as questões antropológicas, sociais e psicológicas do porquê desta necessidade, e que nos é inerente, o importante é que a Educação deve ser a prática que nos coloca de volta aos eixos, neste caso de que só um pode ser o primeiro e que os demais não devem ser depreciados por conta disso. E que ser o primeiro tem um custo alto e, em grande parte, pouco prazeiroso e satisfatório fora aquele momento de levantar a mão, cruzar a linha final ou aparecer no topo da lista do ranking. Bem, deveria ser a prática da Educação, pois não parece ser o caso de muitas escolas por aí, focados na fita de chegada.

Isso, tudo isso para comemorar a decisão do MEC de não mais divulgar uma lista com as escolas que tiveram alunos com as maiores notas no Exame Nacional do Ensino Médio. O combatido ranking nacional era, para sujeitos e organizações preocupadas com a Educação, um desserviço que ajudou a deturpar ainda mais uma boa ideia, o ENEM. Idealizado como um substituto mais justo dos vestibulares - inclusive socialmente -, e com a intenção de diminuir a cobrança da decoreba ao enfatizar a avaliação de aspectos mais voltados ao uso do conhecimento na análise crítica da vida cotidiana, o Exame foi sendo desidratado à medida que ia recebendo críticas, e não conseguiu segurar o rojão.

Há uma ânsia por números, um fetiche desproporcional que infesta o setor educacional, da escola básica à CAPES (Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior, órgão do MEC que administra o segmento de stricto-sensu-  mestrados e doutorados). O ENEM, no seu início, ia em direção contrário. Queria que o aluno não demonstrasse que decorou o conteúdo com o único objetivo de entrar na faculdade. E sim que pudesse comprovar que sua passagem pela escola o ajudou a entender melhor o seu mundo, principalmente com capacidade de entender as diversas linguagens que esse mundo lhe apresenta para a sua interpretação: a línguas pátria e estrangeiras necessárias, a matemática, a geografia, a biologia, interpretando textos e enunciados, gráficos e mapas, iconografias e representações esquemáticas da vida social e natural. Tudo isso para que desenvolvesse uma capacidade ainda mais importante, a de argumentar, resolver problemas práticos e do cotidiano, apresentar ideias concatenadas e propostas de intervenção. Enfim, ser um cidadão.

O problema é que não dava para medir isso em números. Dizer quantos alunos saíram da minha escola, com capacidade de argumentação, melhores do que dos alunos do meu concorrente. A pressão pela competividade mensurada - e não em prol da melhoria da qualidade de ensino como um todo - foi mexendo, inclusive, com as questões das provas do ENEM, pouco a pouco voltando às cobranças pela decoreba e deixando de lado o projeto inicial. O ápice da vitória do fetiche numerólogo era o ranking das escolas, oferecido graciosamente pelo MEC, sem discriminação e fiscalização do uso desvirtuado de sua informação. Agora sim, o diretor poderia volta à infância e gritar "primeirão".

Num insight, o MEC, portanto, acabou com o campeonato. Imagino, claro, que não foi por uma questão divina, baixou uma consciência educacional nos nossos servidores, que, agora, voltaram a partilhar da filosofia inicial do ENEM. Provavelmente, as escolas que não conseguiam gritar 'primeirão' cansaram de brincar. Ainda mais que viram que foram vítimas de seu próprio fetiche que, como tal, tem pouco lastro moral. Escolas 'espertinhas' selecionavam alunos com excelente desempenho, criavam pequenas escolas fictícias, mas com nome igual a escola maior e, proporcionalmente, catapultavam-se para o topo do tal ranking. Nada melhor para provar a veracidade da conhecida frase do político britânico Benjamim Disraeli (1804-1881), de que existem mentiras, mentiras deslavadas e as estatísticas. 

Entenda, não sou contra ranking e mensurações, muito pelo contrário. Soltar a Educação ao Deus dará nunca deu certo nem dentro de sala, imagina fora. São necessárias avaliações que possam mensurar o avanço dos estudantes dentro de um projeto pedagógico, este apropriado à idade do estudante e as habilidades e capacidades necessárias para sua atuação social, filosófica, instrumental e cidadã na sociedade que pertence (ou queira pertencer). E um pouco de competitividade não é mal, faz parte da nossa índole ("primeirão!") e nos informa em que ponto estamos no contexto médio. O problema é fazer disso um estilo de vida!

As escolas deveriam mesmo comemorar o término do ranking. É inegável que elas sofriam mais do que ganhavam. Sob pressão dos próprios pais e alunos, que também achavam ótimo medir conhecimento olhando uma tabela oficial do ministério de educação de seu país, as mais sérias se viam obrigadas a desvirtuar suas premissas pedagógicas para não perder mercado. Um segmento que é só ladeira abaixo, já que as instituições mais tradicionais nasceram em uma época com média de 3 a 4 crianças por família, construíram estruturas físicas e orçamentárias para tal, e agora atendem casais com média de menos de dois filhos.  Acrescentam-se crises econômicas, maiores exigências em formação de professores e estruturas laboratoriais, concorrência de aglomerados mercantis que visam mais o lucro do que o ensino, e se vê que ser diretor financeiro de escola que quer honrar a tradição de uma Escola Nova,  namora um Construtivismo, gosta de um Rubem Alves, bem, ele não tem o melhor dos empregos.

Mas não nos entreguemos ao entusiasmo. Alguma coisa virá para ocupar esse espaço, fetiches não são descartados, apenas mudam o objeto de desejo. Talvez as escolas voltem àquelas estratégias publicitárias antigas, de colocar faixa na rua dizendo os alunos que passaram na federal, os que passaram em primeiro lugar e se aproximem das campanhas dos pré-vestibulares, do tipo "maior número de aprovação na UFMG". É triste, mas ainda assim é melhor do que a frustração dos segundos colocados para baixo.

O bom mesmo seria era aproveitar o pequeno espaço de tempo antes da próxima 'esperteza' das escolas do mal e chamar pais, alunos, professores, funcionários como a bibliotecária, a secretária e o porteiro para se transformarem em uma verdadeira comunidade escolar, apontar as grandes vantagens de um projeto pedagógico centrado no crescimento do conhecimento dentro deste aluno, com o objetivo simples de construir um cidadão crítico, antenado e com ferramentas que o capacitem para buscar sua felicidade sem ter que superar o outro e, de quebra, contribuir para a melhoria da qualidade de vida de ambos.

A vantagem de não ter que perseguir o primeiro lugar na linha de chegada é poder ir apreciando e aprendendo com o caminho.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Espaço: a fronteira final

Educação é Pop!

Há esperança!