Trump e Brexit: derrota do Big Data?

Mensagem do Itaú explica porque as pesquisas se deram mal nas eleições norte-americanas, inglesas, colombianas e brasileiras

Todo mundo achou que a Hillary ia ganhar. Todo mundo achou que o Brexit ia perder. Todo mundo achou que era impossível uma proposta de paz na Colômbia não ter a aceitação da população. Ora, se todo mundo achava, e o Big Data é o reflexo do que todo mundo pensa, fala e faz, e as campanhas e a mídia do Séc. XXI são baseados em Big Data, o que deu errado para todo mundo estar errado?

A moda apocalíptica do momento é o Big Data, termo usado para designar o enorme volume de dados que se aglutinam a partir do comportamento virtual das pessoas. Na nova realidade/ficção científica, a humanidade tem todo o seu comportamento dirigido a partir da manipulação desses dados. Fico imaginando que quem tem os melhores equipamentos e equipe para isso são os EUA. E, por sua vez, a nata desta já elite tecnológica estaria nas campanhas presidenciais, já que se trata do mais importante cargo/produto a ser conquistado. Mas, ao que parece, o Big Data não previu a vitória do Trump.

Recordo que essa história do 'já ganhou' tomar uma surra da realidade foi a marca de 2016. Em outubro, o acordo de paz da Colômbia entre governo e as Farc foi rejeitado pela população contrariando as pesquisas. Alguns meses antes, em junho, os ingleses também enganaram os números e optaram pelo Brexit, a saída da União Européia. Trump é só o caso mais recente de contrariar os amantes dos dados estatísticos. No Brasil, os institutos de pesquisa já passam vergonha há um tempo e, mesmo precavidos em 2016, andaram contra a realidade em muitos casos.

Ora, mas não era para a gente está acertando mais? Afinal, nunca na história da humanidade se sabe tanto, de tantas pessoas, e se tem tantos instrumentos para cruzar e avaliar dados como agora. Qual o problema? Na mesma internet, há trocentas análises. A minha visão é que o inominável do homem ainda não se pode medir, entender, decifrar. E, quando pressionado, e principalmente quando pressionado, esse inominável surge para esfregar na cara da racionalidade - representada, no seu ápice, pela veneração ao Big Data - que o ser humano é um pouco mais do que números.

Ao estudar comportamento, aprendemos que temos algumas camadas a serem descobertas e, uma vez vistas, podem ser compreendidas e, portanto, passíveis de se criar mecanismos próprios ou alheios para influenciá-los. A psicologia, a neurobiologia e a sociologia já têm enormes tratados que decifram porque nos comportamos de tal jeito, influenciados pelo trato que damos à nossa psique ao longo da vida, pelo o que incorporamos de nossos grupos sociais e do que herdamos em nossos genes.

Graças a isso, podemos nos reconhecer e reconhecer ao outro pelos comportamentos esperados. O problema é o comportamento efêmero, aquele que acontece naquelas ocasiões em que não nos reconhecemos ou aos outros! Quem nunca pensou algo como "porque eu fiz isso?"? Esse comportamento efetivo, ocasional, que foge do nosso rol predeterminado de atitudes não é algo que cai do céu ou levado a ser realizado pelo demônio. É parte de nossa personalidade. E é essa parte de nossa personalidade que, ao que parece, o Big Data não alcança. Ou ainda não.

Um jovem historiador israelense, Yuval Noah Harari, autor de um livro que gosto muito, "Sapiens - uma breve história da humanidade", recentemente disse que se está confundido inteligência com consciência. Não há dúvidas que a tecnologia está cada vez mais inteligente, ou seja, tem instrumentos, ou desenvolve novos, que adaptam e se adaptam aos novos ambientes. E essa é a essência do Big Data: analisa os dados/comportamentos e estabelece um rol de possíveis comportamentos criando um rol de possibilidades, muito semelhante as linhas de programação de um videogame interativo.

O problema é que quando aquelas portas do videogame não são as que nós queremos entrar. "Mas, poxa", iria nos perguntar o programador cibernético do Big Data, "você nunca demonstrou que gostaria de ir para outras portas além daquelas que você tinha ido ou insinuado desejo de ir". Ixi, eu posso não ter demonstrado por uma série de motivos: nunca pensei nisso, os contextos eram diferentes, minhas verdadeiras angústias não são para o Facebook, ou só tenho vergonha! Todas essas coisas esquisitas que também fazem parte da gente são resultantes de nossas experiências subjetivas. E elas não estão no nível mensurável, pelo menos ainda. E são elas a base de nossa consciência.  E a consciência é a base de nossas decisões efêmeras.

Um dos poucos que previram a vitória de Trump foi Thomas Roulet, do King's College de Londres, como informa o jornalista Leandro Colon. O professor de ciências sociais evocou a teoria da espiral do silêncio, da cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neumann, que diz que, em casos onde se tem uma opinião que parece ir contra a maioria, à opinião pública, à mídia, as pessoas simplesmente optam por se calar e não se manifestar, inclusive para os pesquisadores.

Imagino que devia ser dificil mesmo para um colombiano afirmar que era contra um pacto de paz. Para um inglês, conhecido por ser cosmopolita, ser contra uma união de povos. Para o norte-americano, ser a favor da discriminação étnica, o machismo, e contra a própria imprensa, fartamente a favor da Hillary. Mas, aí, na hora do voto, do vamos ver, fala a consciência (entendida não como o moralista grilo falante, mas a manifestação de nossas experiências subjetivas). Daí, cada um tem o seu pacote: insegurança financeira, medo (ou desejo) do novo, preconceitos incomunicáveis e xenofobia inconfessável, rebeldia incontida, o que é felicidade... a lista de convidados do nosso mundo subjetivo é longa.

Como dito pelo Yuval Harari, tais situações terão importantes implicações para a tecnologia. Afinal, ainda se está longe de se construir uma consciência para o Big Data, embora ele mesmo diga que não é impossível, nem mesmo está muito longe de acontecer. É provável que, um dia, consigamos desenvolver nos computadores uma consciência artificial.

Mas, até lá, os computadores só serão máquinas capazes de tentar prever nossos comportamentos, mas não necessariamente terem certeza de que acontecerão, haja vista que nossa consciência nos tornam imponderáveis, seres mais sensíveis do que previsíveis. Quando jogo xadrez com o meu filho, penso nisso. Os computadores podem facilmente nos ganhar no xadrez. Mas ainda estão longe de nos deixar ganhar somente pelo prazer de nos fazer feliz.

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