Educação Infantil e Novas Mídias

Página da Cartilha Formação de Professores em Linguagem Digital para docentes de Educação Infantil.
 
Tenho a impressão que o único segmento da educação brasileira que tem dado um certo orgulho é o da Educação Infantil. Não estou nas salas de aula pelo país, e minhas impressões são restritas ao meu nano ambiente e aos dados estatísticos que, porventura, chegam às minhas vistas. Portanto, pode ser uma visão enviesada ou, talvez seja a resposta, a Educação Infantil é fonte de esperança para os educadores tristes como eu e, desta maneira, ao ver ou imaginar crianças brincando, sem a ditadura de um currículo acachapante ou de professores pressionados a dar resultados estatísticos, ali está uma utopia para a educação como um todo.

Fato é que, incentivado pela então mestranda Fernanda Câmpera Clímaco, que dedica a sua vida à educação infantil como um todo - ajudando professoras, gestores e alunos, pude entrar mais nesse mundo, ainda um ambiente de aprendizagem um tanto puro de neuroses típicas da educação formal. Não que não existam metodologias, referências teóricas, práticas educativas sistematizadas, ou seja, todo um sistema elaborado para educação, mas me parece que ele está a serviço da relação sensorial e afetiva entre alunos, professores e escola. E não para atender uma determinada política de resultados, que vise mais relatórios estatísticos do que o crescimento pleno dos nossos jovens cidadãos.

Vendo as novas creches públicas, as tradicionais escolinhas privadas pelos bairros, é delicioso ver como as crianças se mostram integradas ao ambiente e como voltam para casa mais iluminadas, encantadas com o mundo, e animadas com o seu conhecimento conquistado. Meu filho, naquela ocasião, ensinava a todos a diferenciar lixo orgânico do lixo reciclável. Meu sobrinho tem enorme prazer em apontar as letras que ajudam a identificar o nome do coleguinha. E, bem, me dá a impressão que o ensino fundamental faz alguma coisa com esse encantamento que o enterra como se devesse pertencer apenas ao mundo da fantasia.

Atenção, não é um problema com os professores. A vida deles não é fácil. Como manter o encantamento se o volume de novas informações é acachapante, que a cobrança por resultados estatísticos supera o da busca pela felicidade dos seus alunos, onde o salário não permite uma dedicação maior para uma escola e um número saudável de alunos a servir como mentora? O problema é imaginar que educação, assim como a higiene bucal, pode ser medida pela quantidade de questões acertadas como cáries na boca das crianças.

A tecnologia nas escolas segue a mesma toada que a educação como todo, mais preocupada com o instrumental do que com a apresentação de um mundo a ser vivido e convivido. Assim, é de se imaginar que não deva estar na Educação Infantil. Ainda mais que sua conotação negativa - tecnologia como desvirtuadora da educação -, novas TIC deveriam passar longe dos ambientes infantis.

Fernanda não se conformou com isso. Afinal, não cabe mais pensar que é possível afastar, mesmo as crianças pequenas, dos novos tempos midiáticos. Ainda mais que os próprios pais encontram em uma Galinha Pintadinha ou numa Peppa Pig a babá perfeita, que deixa a criança quietinha e ´aprendendo´ em casa, no carro, nas visitas, nas festas de adultos... Sendo que a outra alternativa é reclamar sobre a opressão das novas mídias e o descaso dos pais, lavar as mãos e tocar sua sala infantil como no Séc. XX, Fernanda tem feito uma grande campanha para, não só não ignorar as novas mídias, como levá-las para as creches e salas de Educação Infantil.

Consultora e pesquisadora, uma pequena parte do seu trabalho já pode ser visto, tanto em seu site, como na publicação de parte de sua dissertação na Revista Olh@res, da Unifesp. Lá está o artigo  Formação reflexiva em linguagem digital para professores da educação infantil. Além de discutir o que se propõe o título, se quer "oportunizar posturas reflexivas e participativas dos docentes no contexto escolar e local". Fernanda foi a campo,  com professores em duas Unidades Municipais de Educação Infantil, as UMEI de Belo Horizonte e, como lhe é peculiar, não se conformou em só ver. Elaborou uma proposta de intervenção para a Formação em Linguagem Digital para Docentes da Infância. "Está organizada a partir de oficinas, como estratégia de fortalecimento e construção de novas posturas educativas, na perspectiva de uma pedagogia investigativa e reflexiva, a fim de gerar novas ações e saberes docentes contextualizados com a era digital". Ou seja, fez um manual. É pegar e adaptar para cada escola.

Seu trabalho foi selecionado para a apresentação no 4o. Congresso Literacia, Media e Cidadania, em Porto, Portugal, em maio. São trabalhos assim, e educadoras como Fernanda Clímaco, portanto, que nos dão uma certa esperança que educação ainda tem jeito no país.

Comentários

  1. Sem dúvidas, o desafio é enorme quando falamos da utilização das mídias digitais na educação infantil. Desde a falta de conhecimentos 'a inexistência de materialidade na escolas. Através dos estudos e pesquisas que realizamos, conseguimos descobrir as práticas exitosas e compreendemos que a formação docente com essa temática pode transformar esse cenário. Sou grata ao seu incentivo e apoio na realização do meu sonho. Minha pesquisa está contribuindo para o desenvolvimento local e trazendo perspectivas de inovação nas práticas educativas de muitos professores. Obrigada por me ajudar a trilhar esses caminhos! E o próximo será do outro lado do Atlântico! Sigamos juntos, amado mestre! A educação muda o mundo! Eu acredito.

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