WhatsApp de Mães: pode ser ruim e pode ser ainda melhor

WhatsApp de Mães do bem. Crédito: Escola Vila Aprendiz
WhatsApp de Mães do mal. Crédito: Escola Vila Aprendiz

Em, pelo menos, duas ocasiões, já falei dos grupos de WhatsApp de mães de alunos. Confesso dois pecados: primeiro, tenho uma certa impressão que foram escritas mais pejorativas, segundo, não fiz qualquer estudo netnográfico, o que torna tudo o que escrevo apenas um ensaio do meu limitado ponto de vista. Posto isso, tento aqui aprofundar um pouco mais neste que considero um fenômeno ainda a espera de bons estudos. E que, definitivamente, não comporta apenas aspectos negativos.


Minha experiência é hiperlimitada, dentro apenas do grupo que participo acidentalmente: minha esposa teve que se ausentar por um período e fui arremessado para resolver apenas uma questão pontual, a ver com uma fantasia para formatura. No entanto, me mantive acompanhando, discretamente e sem manifestações, e tentando entender a dinâmica, as regras e os valores que mantêm tal grupo social virtual.

Por outro lado, acredito que o meu 'estudo de caso' é útil: especulo que o que acontece ali não é diferente de outros lugares, pois as preocupações das mães sobre a educação dos filhos não me parece ser diferentes. Recorto ainda que trata-se de escola privada de classe média e, desconfio, os parâmetros devem ter alguma alteração em escolas públicas ou escolas privadas para classes econômicas C e D. Mesmo assim, desconfio, pois me parece que as preocupações com a educação dos filhos tem, em alguns âmbitos, categorias universais.

Assim, com todos esses senões, o que é afinal esses tais grupos de mães que se propõem a trocarem números de celulares e irem, a longo do ano, trocarem mensagens?

Na boa, essa é a primeira grande boa notícia: a tecnologia celular conseguiu aproximar as mães dos alunos que, anteriormente, só se encontravam em reuniões presenciais promovidas pelas escolas. Por sorte, essas mesmas mães só conheciam uma as outras se tivessem outros laços sociais anteriores, como parentesco ou festinhas de aniversários dos seus filhos que, porventura, pudessem dividir a coxinha. É claro que essa aproximação e a oportunidade de trocarem informação são coisas boas: seus filhos compartilham um fundamental espaço de convívio e conhecimento e, na grande maioria das vezes, as mães querem a mesma coisa, o aprimoramento dos seus rebentos.

Na prática, na organização do cotidiano, são óbvios os benefícios: o para-casa que se perde, a dúvida sobre uma questão que o aluno não tenha anotado direito, "qual é mesmo a data da prova e da reunião pedagógica? ". Para vida social, o convite para a festinha de aniversário, a solidariedade com a família da criança que adoece, a mensagem coletiva desejando um feliz Natal.

Além disso, a formação de um grupo em torno da educação nunca pode ser visto de forma pejorativa, já que seu objetivo é justamente o aprimoramento pelo conhecimento.

Mas, como todo grupo social, o grupo das mães do WhatsApp também poderá ter seus problemas. Quando, como em qualquer lugar onde se encontram mais de uma pessoa, seu objetivo for deturpado para se tentar consolidar opiniões discriminatórias pela força do grupo, demonstrar falta de sensibilidade com outro, e/ou forçar que frustrações pessoais se tornem coletivas, temos aí uma manipulação clássica que independe da tecnologia, mas que se amplia devido a ela.

Por exemplo, grupo de WhatsApp não é lugar para se queixar da professora! Provavelmente,  a queixa trata de um problema individual (que se tenta tornar coletivo, quando se divide no grupo), pontual (que, no grupo, torna-se ar de constante), e, definitivamente, é injusto com a professora, inferiorizada perante as majoritárias componentes do grupo e amarrada institucionalmente pela escola, sem possibilidade de resposta adequada e individualizada. Ou seja, se tem problema com a professora, o melhor é conversar pessoalmente.
WhatsApp de Mães demonstra a solidariedade inerente das pessoas... Crédito: Escola Vila Aprendiz

Também não rola de ficar fazendo comparação entre notas e, portanto, de filhos. Nota é retrato do momento, não um scanner do caráter da criança. É incrível quanto a frase "cada criança tem seu rítmo", apreciada por 10 entre 10 mães, é jogada no lixo quando aparece a nota: "você tirou mais ou menos que a turma (ou a 'criança-filha-da-fulana', o que é ainda pior)"? Se quiser comparar - caso se goste de uma estatística em detrimento do que realmente a criança esteja aprendendo - geralmente a escola já fornece. Senão, pergunta-se para professora (volte ao parágrafo anterior).

Queixas individuais sobre comportamento dos outros alunos são, como diz o nome, individuais: aproveitemos que o WhatsApp permite e que se mande, individualmente para aquela mãe que é mais chegada, ou que, porventura, compartilhem das mesmas discriminações e preconceitos (arf!). Cada mãe sabe da dor que é criar seu filho, quais as circunstâncias do entorno, e o comportamento é reflexo do complexo, não do simplismo de algo cínico como 'caráter'. E falar do filho é falar da mãe e nenhuma merecer ser julgada em público, simples assim.

Por outro lado, falar da escola como um todo, está valendo. Afinal, é da instituição que se está falando e, neste caso, os valores e as atitudes foram acordados quando se matriculou o estudante. Se a escola não está correspondendo, ou se as mães têm uma percepção inadequada, nada como um bom debate. É mais o menos o que deveríamos estar fazendo com as demais instituições, câmaras de vereadores, tribunais de justiça, executivo. Claro, tudo dentro de um bom senso. Ficar chorando as mazelas da escola, como se fosse a pior instituição de ensino da cidade, só depõe contra a detratora. É preciso, a partir do debate, digamos, 'marternal-virtual', agir junto à própria escola, nos canais tradicionais, como as reuniões coletivas, a conversa com as coordenadoras, o e-mail do diretor.

O problema aí é a ausência das próprias instituições nesse ambiente de discussão. Seria salutar que houvesse, em cada escola, alguém prestando atenção no que falam nas mídias sociais e, porventura, pedindo licença para participar dos grupos de WhatsApp das mães. Na possível negativa para isso, sob o forte argumento de que poderia trazer constrangimentos e auto-censura, um singelo pedido de, tempos em tempos, solicitar a uma das mães que faça um relato do que rolou no semestre nos bate-papos virtuais e ver no que a escola poderia se aprimorar, a partir daqueles diálogos.

Portanto, a tecnologia continua a oferecer o que tem de mais característico: ser a extensão das qualidades e mazelas do ser humano. Se quiser utilizar o WhatsApp das mães para descarregar suas angústias e frustrações, está valendo, mas cuidado. Mas, se quiser ajudar a escola e ao filho do difícil caminho do conhecimento, pode ser ainda melhor.

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