Será a Segurança de Dados o novo Meio ambiente?

 

Um novo cabo submarino entre Brasil e Portugal: segurança digital é nova pauta mundial. Imagem: TV Brasil

Quando eu era criança, Meio ambiente ficava lá no livro de ciências e geografia, e era dureza decorar as bacias hidrográficas, tipos de clima, categorias das nuvens, entender quais as floras e faunas de cada parte do país, fazer mapas com verdes diferentes para cada região... E jogava-se papel e toco de cigarro no chão, derrubar mata era sinal de progresso, rios poluídos e poluição eram orgulhosos diferenciais da 'roça'. Começamos a ficar mais espertos no meio do século passado e vimos que o paraíso era aqui, e que fazíamos um bom trabalho em expulsar a nós mesmos. Meio que para compensar, criamos a internet e trocamos a bela mata idílica pelos poderes do seu criador: onisciência e onipresença, a sabedoria e o estar em qualquer lugar na ponta dos dedos. E ao mordemos o fruto proibido oferecido pela sibilante e sinuosa www:~ ficamos felizes em inverter o mito primordial e oferecermos nossa nudez a qualquer um mais esperto com o uso de suas próprias pontas dos dedos. Vamos ficar espertos de novo, ou o diabo agora fez o trabalho direito?

Eu não acredito no diabo, e torço para que ele também não acredite em mim. Porque, basta olhar para o quanto sofre uma parte considerável da Humanidade para entender que a matriz do inferno é aqui (o de Dante é só para pós-graduados). Mas, Lulu Santos resgata meu otimismo genético quando me dá a esperança que "existirá, e toda raça então experimentará, para todo mal, a cura". Me parece que, "mesmo com passos de formiga e sem vontade", a Humanidade tem feito o bom combate pela preservação da natureza. Só ainda não sabemos se dará tempo da Natureza voltar a querer nos preservar. A pandemia da Covid-19 mostrou que não está de bom humor.

Mas essa semana li duas notícias que me trouxeram um pouco de otimismo. Talvez romântico, vá lá, mas é o que temos para hoje. Um novo cabo submarino de fibra óptica ligando o Brasil e a Europa foi inaugurado. O investimento para tornar possível os seis mil quilômetros foi de €150 milhões, com a Comissão Europeia bancando €25 milhões e o governo brasileiro €8,9 milhões, e passeia entre Sines, em Portugal, Ilhas Madeira, Canárias e Cabo Verde, passando pela Guiana Francesa e chegando em Fortaleza. Minha primeira profissão no audiovisual foi 'puxar cabo' entre os equipamentos de gravação. Devia ter mandado meu currículo!

E sabe qual é a maior vantagem do maior cabo de rede que conheço? Claro, tornar tudo mais veloz entre a Europa e a América do Sul é legal, mas é ficar livre de passar nossos dados pelos Estados Unidos. É hoje uma obsessão europeia dizer para os norte-americanos que acabou a farra de manipular o novo petróleo da Humanidade a seu bel-prazer. Quer outro sinal? Sem a discrição da notícia do cabo, o mundo foi trombeteado com a notícia que os sete mais poderosos países anunciaram um acordo histórico de taxação de multinacionais. Corrigem uma esperteza das empresas da nova sociedade da informação, que fingiam estar ainda na revolução industrial, onde o que fazia sentido era cobrar impostos onde se localizavam a origem dos insumos básicos e das fábricas e suas sedes. Ora, onde está a nova 'matéria-prima', onde se fabrica o novo 'produto', enquanto as 'sedes' agora são milhares de mini sedes espalhadas pelo mundo? Aqui, neste meu computador, neste blog, nesta rede social onde se lê estas maus traçadas linhas.

 Sim, os Vingadores da informação mundial são mesmo o alvo dos europeus. E não é de hoje que a turma do lado de lá do Atlântico constrange e dá despesa às superempresas. Google, Amazon, Facebook, Apple, todos penam em mega processos que não têm fim. No meu também infinito romantismo, acredito ser um movimento mundial para a nova pauta, o tema que irá pelo mesmo caminho do Meio ambiente: a segurança dos dados. O caminho é conhecido. As nações mais ricas estão colocando no papel o prejuízo, a exploração estrangeira de seus próprios recursos (ninguém menos do que os dados da sua própria população), a fragilidade de seus sistemas financeiros e de segurança, e, assim, como fizeram sobre o Meio ambiente, estão vendo que é mais fácil e barato cuidar do seu quintal, ajudar o seu vizinho a fazer o mesmo, e construir um bela cerca corta-fogo daqueles que se aproveitaram da ingenuidade inicial. Aquela mesma que dizia que a internet, finalmente, traria igualdade entre os homens e suas nações.

Até o Brasil, um atrasado costumaz, com a nova LGPD - Lei Geral de Proteção de Dados, o anterior Marco Civil da Internet, o ainda eficiente CGI.BR - Comitê Gestor da Internet, e agora o cabo submarino, tem tentado acompanhar, embora tenha que comer muito bytes para ficar mais tranquilo, como as recentes invasões ao STF e dos CPFs mostraram. De qualquer forma, aos poucos os usuários também vão prestando mais atenção, a mídia tem alertado mais para os golpes digitais (o fazem porque o assunto tem audiência), as empresas - obrigadas pelas novas leis ou cientes do seu papel social - vão anunciando medidas de proteção. Prevejo, em breve, um tipo de 'selo de segurança digital': algo como "essa empresa protege e não deixa ninguém tascar a mão nos seus dados", que poderão ser sinceros ou só uma marquetagem publicitária. Como as tais ISOs são muito lucrativas, também teremos aprimoramentos da ISO 27001 com consultores e certificadores fazendo o que sabem fazer de melhor: ganhar muito dinheiro para apaziguar nossa consciência e fazer o papel de regulador e fiscalizador que deveria ser do estado.

Quanto ao Meio ambiente, estamos longe de resolver o problema. Mas quando começamos a olhar para as nossas bobagens, pelo menos demos uma bela brecada e, se ainda não caímos um poço irreversível, foi porque a pauta virou um dos pilares da civilização, e tema de debate de qualquer política pública. Nem sempre foi uma pauta vencedora - e agora parece estar até tomando uma surra no Brasil - mas aqueles garotos dos anos 70, em sua maioria, já não jogam papel no chão, embora os tocos de cigarros o fazem escondidos. Entre as outras vitórias, a melhor é ser conteúdo obrigatório na Educação.

A esperança é que aconteça o mesmo com os dados. Veja você: o quanto estava preocupado com os seus dados há 20 anos, há 10 anos e nos últimos três anos? No meu caso, meus dados, que julgava irrelevantes dentro da minha imputada baixa autoestima, trocava em bom grado por ter minhas questões resolvidas pelo grande oráculo da internet. Não me importava de oferecer meus consumos mais íntimos para a rede social, desde que pudesse conversar com meus amigos perdidos. E confiava inteiramente que as instituições seriam leais com o compromisso de cuidar dos meus recursos. Após zilhões de telemarketing com dados pessoais que a tal empresa não poderia ter se alguém não tivesse lhe dado/vendido, outras tantas ofertas nos meus canais de comunicação de algo que posso ter desejado, mas não solicitado, minha câmera agora está tampada, meu navegador é de uma comunidade wiki, não atendo ligações de número fora da minha região, sou cismado com emails de todos os tipos etc.

E você, qual o seu nível de paranoia? Não importa qual, fique feliz por ele. Se todos nós ampliarmos, em breve teremos passeatas, boicotes, propaganda, empresas 'seguramente responsáveis' e cúpulas pela segurança digital. E Educação. Mas, por enquanto, vou torcer apenas para que o Face e a Google deixem este meu texto circular.

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