e-Contos Icônicos: Uma guerrinha...

Era uma vez, numa cidadezinha... Crédito: Suzane Jales SJales por Pixabay

A cidade era pequena. Aliás, era muito pequena. Muita pequena mesmo. Daquelas que o pessoal faz piada, de que não pode ter boi senão o chifre sai fora do município. Que o cartão postal é um 3x4! Mas era uma boa cidade. Nunca teve problemas. Havia uma micro indústria que fornecia tornos para uma grande indústria, e só. Era da família de D. Candinha, centenária matriarca, construiu do nada e tocava, sem ambição, com a ajuda dos filhos. Empregava todos os que podiam trabalhar, pagava salários suficientes para uma vida tranquila e que mantinha o também pequeno comércio, gerava bons tributos à Prefeitura e ainda ajudava nos programa sociais. Era, realmente, uma boa cidade.

Nem problemas políticos tinha. Todo mundo amigo, eleição até parecia reunião de condomínio das antigas, quando condomínios ainda podiam ter reunião sem que ninguém tivesse vontade de jogar uma cadeira no outro. Os prefeitos iam se revezando, e quando tinha mais de uma chapa, era mais por farra e para render um churrasco comemorativo à vitória, e a gozação. Tudo gente boa.

Era tão pequena a cidade que, quando tinha, só tinha uma coisa de cada. Um posto médico, outro de gasolina. Uma farmácia, uma igreja, uma delegacia (que reunia as de ensino, de polícia e de trabalho). E, claro, só tinha também uma agência de banco, e do HSBC onde, obviamente, todos tinham seu dinheiro depositado e recebiam seus salários, pensões, aposentadorias....

Pois é, não sei se você soube, mas o HSBC caiu fora do país... Isso aqui não é para amador, não, banquinho de 150 anos neocolonialista....


- Como é que nós vamos fazer? perguntou o prefeito da vez, no meio da praça, onde se realizava as grandes reuniões para se discutir os destinos daquela cidade pequena.

- Eu, por mim, abria aquela porqueira na marra e pegava meu dinheiro sem mais nem menos, resmungou alguém já sabendo que nem ele acreditava na proposta.

- Não podemos ser radicais neste momento de aflição, ponderou o padre local, que só lá estava porque se auto exilou naquele fim de mundo há uns quinze anos. Qual a nossa situação?

- Péssima, explicou o prefeito. Todo o dinheiro da cidade está lá. O da prefeitura, o da fábrica, até o da Igreja. Ninguém atende ao telefone na sede. O gerente e os funcionários só ficaram sabendo pela manhã. E todo o dinheiro da agência tinha ido para capital na sexta-feira.

As faces dos presentes eram de uma tristeza de dar dó. Ficaram lembrando de outros casos nacionais onde demorava-se meses até uma definição. Lembraram quando as agências da Caixa, do Banco do Brasil e até a lotérica foram fechadas (sim, agências eram uma das poucas coisas da cidade que tinha mais de uma). O HSBC veio cheio de pompa, pegou todas as contas, e decretou que, agora sim, a cidade pequena teria um serviço bancário à sua altura (na ocasião, o único comunista da cidade teve um infarto! Amanhã, alguém vai jurar ter ouvido seu fantasma rir lá do cemitério... 'Eu sabia...' é mais ou menos o que escutaram por lá).

Mas agora estavam ali, quebrados, confiantes arrependidos do caixa eletrônico piloto que foi motivo de banda de música na inauguração.

- O negócio é a gente colocar a boca no trombone, chamar a atenção dos jornais, TVs...

- Que isso? Vocês acham que vão dar atenção para a gente, aqui perdido neste fim de mundo?

- E se a gente declarasse guerra ao Brasil?

Não era hora para rir. Nem de gracinhas. Por isso, ninguém entendeu. Assim, ninguém disse nada. Quem deu a sugestão é que entendeu como uma deixa para continuar o raciocínio.

- Olha, fomos prejudicados no nosso patrimônio. Uma atitude externa simplesmente aniquilou nosso sistema financeiro, desestruturou nossa atividade econômica e inviabilizou a administração pública. Se isso não é motivo de uma guerra, não sei o que mais poderia.

Continuou o silêncio.

Quem sugeriu calou-se também, esperando a reação que não vinha. Vai ver, estavam refletindo. Olhou de olhos em olhos na tentativa de captar algum sinal de vida, que lhe desse a confirmação que estava indo pelo caminho certo, ou melhor, que estava sendo entendido. Finalmente, uma voz.

- Você ficou maluco?

Outra deixa.

- Vocês não percebem? Se a gente declarar guerra a Brasília, e divulga, todo mundo acha meio maluco mesmo e, olha aí, a gente nos jornais, TVs, falando de nossas dificuldades. Num instantinho, um monte de gente contra, outro monte a favor. Daí, para uma ajuda externa do governo é só um passo. Vão querer abafar o caso, se não, pelo menos, ganhar politicamente em cima da gente, resolvendo o problema que, se para nós é o fim do mundo, para eles é café pequeno.

Ponderaram. A ideia era boa. Tinha o problema da imagem que poderiam passar para o Brasil, de bobos, ingênuos, mas, e daí? Iam ser mais um produto de consumo rápido, logo esqueciam, resolviam o problema da cidade e voltavam tranquilamente para o confortável anonimato que sempre gostaram. Resolveram reunir na praça mesmo, com todas as armas que podiam, mesmo facas de cozinhas ou ancinhos de grama. O negócio era fazer barulho e oferecer imagens.

Alguém fez a Declaração de Guerra, e marcou-se para o dia seguinte o envio via fax (a cidade ainda tinha um) para o Presidente da República. Os poucos jovens, os mais velhos não entenderam bem, disseram que iriam na cidade mais próxima para fazer algo que, para os veteranos, tinha mais a ver com o posto de saúde, um negócio de vírus... mas, vá lá, o importante é que eles querem ajudar.

A intenção era chamar a atenção de câmeras de TV e jornalistas em todo o país. Para isso, uma nota foi preparada e enviada para todos os meios de comunicação que eles conheciam que, no caso, não passavam de meia dúzia. A manifestação estava marcada para a manhã. Iriam se reunir todos na praça e o prefeito, ali mesmo, puxaria uma extensão com o aparelho de fax e enviaria a Declaração de Guerra. Com banda de música e chuva de fogos. Dali, iriam fazer uma caminhada simbólica pela cidade em direção a Brasilia (uma bússula apareceu do nada!). À frente, ia Prefeito, vestido de militar (o uniforme era uma antiga fantasia de carnaval), dentro de um velho jipe verde que iria até a capital do país para (tentar) entregar o manifesto pessoalmente ao chefe da Nação.

A cidade não dormiu. Preparativos, arranjos, excitação. Nem parecia uma guerra. Estava mais para uma festa.

O estratagema deu certo. Aliás, mais certo do que imaginaram! Dava para ver pela cara de assustados. Dia seguinte, o único engarrafamento que a cidade viria em toda a sua história. Não cabiam mais carros de reportagens, antenas parabólicas para gerar imagens ao vivo, repórteres alvoraçados. E mais um monte de gente estranha! Certamente, tinha muito mais do que a meia dúzia de meios de comunicação que o pessoal conhecia e tinham enviado fax. Os jovens estavam a sorrir, misteriosamente, num dos cantos.

Mas, com exceção dessa turba, a praça permanecia vazia. Nada de manifestação, faca de cozinha, extensão de fax, jipe. Todos trancados em casa. Nenhuma alma viva. Aguardavam, na segurança do lar, aquela massa profissional de comunicação se dispersar. O que foi acontecendo aos poucos, entre muitos resmungos e protestos. Os jovens já não sorriam, incrédulos! Se esconderam, preocupados que pudesse sobrar para eles a ira daquela manada de gente com câmeras, microfones e outros aparelhos.

A guerra não houve. Ainda de madrugada, uma leve batida na porta do Prefeito trouxe uma notícia. Que não se preocupassem, a micro indústria irá assumir a vida financeira dos cidadãos, negociaria com o banco fujão, conversaria com políticos para trazer uma agência, um caixa eletrônico que fosse. O importante era manter a discrição da cidade. Em uma reunião relâmpago, que teve seu resultado disseminado à maneira antiga por todas as casas do município, a cidade tomou sua decisão. Sem problemas. Nada de briga. Afinal, uma coisa era declarar guerra ao Brasil. Outra, era contrariar D. Candinha...

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