Premiações escolares: competição por avaliação educa?

Crédito: CCO Public Domain
Na minha escola, no ensino médio, toda semana tinha prova. O resultado era colocado em um painel, disputado como num concurso. É que as notas geravam um ranking semanal dos melhores e dos piores alunos, divididos em cinco categorias de A a E. O objetivo da escola era criar uma competição e incentivar o espírito de superação. Para mim, havia mais frustrações que benefícios, e as únicas lembranças que tenho são as resultantes 'classes sociais':  os CDF, os medianos em várias nuances e os bagunceiros irresponsáveis, frequentes das turmas E. Hoje, vendo as escolas realizarem um monte de eventos competitivos, tipo olimpíadas e distribuição de medalhas de méritos, fico me perguntando se esse negócio de competição em escola presta.

Naquele tempo, eu já achava que não prestava. Não acredito que os CDF estudavam mais para ficar na frente da lista. Aliás, os mais legais CDF com quem convivi eram tímidos e detestavam a tal publicidade. Mesmo porque trazia um grande peso, já que ficavam na obrigação de permanecer no topo. Aos medianos, sabendo-se se suas limitações, contentavam-se em continuar, portanto, medianos.  Era o meu caso. Pior para a turma da rabeira, que, perversamente, era jogada ao chão e, sem forças, lá permanecia, construindo, com um certo orgulho e com o que lhe restava, a dignidade de serem os do contra, os bagunceiros, os outsiders. 

Acredito que a escola viu que não estava dando certo, pois tive notícias que a ideia foi abolida. Percebi também que as escolas também deixaram de divulgar as notas da turma para que todos pudessem ver a nota de todos e, claro, pudessem comparar e, quem sabe assim, procurar melhorar a sua própria nota para alcançar o colega melhor pontuado. Hoje acredito fielmente que nota é uma informação de foro íntimo do estudante, refere-se a um retrato de momento de sua vida acadêmica misturada com sua vida pessoal e, portanto, só lhe diz respeito. Ele divulga se quiser e certamente o fará por conta desse mesmo momento. Não cabe ao professor utilizar tal nota para algum fim pedagógico que eu nem saberia nominar.

Hoje vemos as escolas, principalmente as particulares, em uma ânsia de premiações. Sempre penso que para cada medalha de ouro de campeonato de matemática, existe dezenas de frustrados, entre eles um segundo ou terceiro colocado. É justo para ele ser colocado um degrau abaixo, mesmo com esforço e qualidade efetivamente comprovados? E o décimo, o vigésimo? Para esses resta a enorme frustração de olhar para frente, para cima, e se sentir que não faz parte, adequadamente, desse mundo do conhecimento. E porque mesmo? Provavelmente, tem pouco a ver com ele. Talvez a escola não lhe deu o suporte necessários às suas diferenças e ao seu tempo, talvez ele não tenha o incentivo dos adultos para valorizar a educação, talvez ele não veja sentido nisso ou mesmo talvez aquele dia da competição ele comeu algo estragado e o corpo tinha outras prioridades. Bem, problema seu, diz a escola, o negócio é que agora você vale menos que o seu colega.

A minha concepção de educação passa pela ideia de desenvolvimento humano. De que ela é necessária para que nos tornemos alguém melhor, mesmo que esse melhor seja condicionado por questões socioculturais. Mas tal premissa quer dizer que depende-se de uma série de variáveis desse sujeito, enormemente diferentes em cada um, anteriores e concomitantes aos atos educativos/pedagógicos, para que, enfim, eu, educador, possa entregar alguém melhor no final do processo. E qualquer premiação parte de outra premissa, a de que estamos partindo todos do mesmo ponto, como uma linha de largada. É claro que isso não é verdade, é injusto, cruel e desumano.

Um resumo ilustrativo: uma criança com dificuldades de aprendizagem no início do ano que ficasse em décimo lugar me parece que deva ganhar uma medalha muito mais do que o primeirão, que tem vocação inata e/ou teve todo um apoio estrutural que o outro não teve.

Puxa, gosto tanto daquelas premiações na educação infantil, onde todos ganham medalhas! As crianças ficam super felizes, exibem o seu sucesso para todos e não se importam do colega ter também ganho. Ao contrário, me parece que essa criança também fica feliz por ele, além, é claro, de se sentirem parte de um só todo. Ainda não existe a ideia, implantada por nós, de que para um ser bom o outro tem que ser pior.

Mas também confesso que não sou 100% refratário. Acompanho, à distância e muito parcamente, as olimpíadas nacionais, e fico emocionado com os exemplos de estudantes de escolas públicas que ganham, na grande maioria das vezes exemplos de superação e resiliência em contextos pouco convidativos para a educação de fato. Não nego que esses jovens servem como inspiradores, tanto para alunos como para professores/tutores, e há uma busca de como repetir o sucesso em outras paragens.

Talvez o problema esteja menos na premiação em si, mas a não premiação dos demais. Quando vejo as reportagens sobre os jovens ganhadores das olimpíadas regionais, vindos das escolas públicas, o que me chama a atenção é que aquele vencedor parece representar um trabalho coletivo. Sempre há um professor abnegado, obcecado pela educação como processo social de mudança, dentro de uma escola que lhe dá apoio estrutural e psicológico, dentro de uma turma que torce por si e pelo colega como numa equipe.

Talvez, se os eventos de premiações escolares forem todos assim, valorizando um trabalho conjunto, sem detrimento ou comparação, em que todos saíssem do processo como as crianças da escola infantil, eu tivesse menos resistência. Mas, como dito anteriormente, essa incansável busca por números na educação me parece usar as competições como uma estratégia de marketing, tanto para instituições públicas como privadas, no sentido de garantir às instituições benefícios para a sua manutenção, sobrevivência e conquista do novos alunos.

Ou seja, se as notas já não servem para incentivar os alunos para a competição entre eles, que sirvam para a competição entre as próprias escolas. Triste!

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