Um Dia Internacional das Lilith e Eva

E os dez últimos são tudo cueca! Imagens: Wikipedia

 É certo que não é coincidência! Os números não mentem, e nem é um exercício de economia criativa. É totalmente desproporcional o número de países que têm na liderança mulheres e que têm se destacado no combate à pandemia da Covid-19, com a porcentagem de nações que têm a sua frente senhoras e moças. No ranking de países, além do dado da ilustração, quatro dos cinco primeiros são regidos pelo duplo XX. E, vexaminoso, os dez piores são todos governados por homens. Será que preciso dizer que o Brasil é um deles? E ainda hoje: fake news sobre quem teria sido a primeira mulher é cancelado!

Tirei os números do ranking da Bloomberg, que fez um levantamento com os 53 países com as maiores economias, acima de U$ 200 bilhões. Há outros rankings por aí, mas confesso que - mesmo que parece capitalista demais - gostei desse por que, em outras classificações, há um destaque para números frios, do tipo, "quantos porcento da população foi vacinada", "número de infectados" etc. Hora, os países são muito distintos em tamanhos e realidades, e, portanto, é preciso ter uma visão com mais dimensões. Há países tão pobres e sem infraestrutura que é até covardia uma comparação. Por outro lado, há países como o Chipre, que aparece com destaque. Mas tem tamanho diminuto, sua geografia física e humana e seu isolamento enquanto uma ilha são alguns dos elementos que favorecem o controle da pandemia. O que, claro, não tira o mérito do seu povo, pois podia ter tudo isso e ter um cabeça de bagre que resolvesse fazer do país um laboratório macabro para testar teorias negacionistas.

No caso da Bloomberg, foram 10 parâmetros em dois conjuntos de dados analisados, um bem específico sobre saúde (incidências de casos e óbitos), outro com aspectos mais complexos que influenciam na qualidade de vida da população (IDH, mobilidade cidadã, perspectivas de crescimento econômico e acesso aos aparatos da saúde). A empresa está fazendo o levantamento continuamente, e os dados daqui são relativos a novembro de 2020.  

Fonte: Boomberg

 Mas eles não abordam a gestão por gênero, eu é que o fiz por conta e risco. Não é uma novidade, no início da pandemia várias reportagens já indicavam esse fenômeno que, ao que parece, só se intensificou. A comparação com a porcentagem das chefes de estado foi graças aos dados de 2018 da centenária União InterParlamentar, quando informou que apenas 10, em 153 governantes eleitos, eram mulheres. Ou seja, é 6,53% (passei um pano na ilustração), enquanto foram 50% dos 12 países mais bem conceituados na lista da Bloomberg. Não fiz essa comparação nome por nome, mas é uma boa especulação pensar que, das 10, seis estão à frente nessa luta humanitária. Será que se a gente ampliasse a lista para os 20 mais, acharíamos as outras quatro?

Obviamente, não sou a melhor pessoa para listar o porquê do fenômeno. Apenas intuo que as mulheres desenvolveram uma sensibilidade, uma visão humanista e uma coragem distinta dos homens. Não que eles não possam ser e ter tudo isso, mas nossa estrutura cultural - e parece ser uma praga que contaminou o homo sapiens ainda na sua adolescência enquanto espécie - tanto procura negar uma visão mais acolhedora e multidimensional aos homens - como se ela fosse um sinal de fraqueza -, como submeter as mulheres ao seu julgo interpretativo bidimensional.

Escrevo que é uma praga, porque compactuo com alguns antropólogos que afirmam ser nossa espécie uma espécie matriarcal, onde a mulher é que mandava na origem, e que quando fizemos a opção pelas cidades, a força masculina para protegê-las acabou por prevalecer sobre as habilidades holísticas desenvolvidas pelas mulheres. Uma pena, porque, embora seja inegável o avanço científico-social-cultural da espécie, a violência se tornou sua principal motriz. E, tenho por mim, se tivessem mantido o projeto original, é bem provável que já tivéssemos muito mais avançados tecnologicamente e estaríamos pensando em como sair do Sistema Solar, já que Marte teria, para a Terra, o mesmo significado que Guarapari tem para os mineiros.

Fonte: Bloomberg

São vários os indícios dessa sociedade matriarcal raiz, mas penso que, existindo, Deus seria uma boa fonte. Claro, sabemos que a Bíblia, Seu manual de uso da espécie, é um conjunto de textos de redatores que se julgaram capazes de falar em seu nome. E que nem tudo está na versão final, muitos textos foram tirados porque, naquela época, os editores já tinham receio que ficasse muito cansativo, esses jovens já não leem muito, melhor já entregar o resumo para o vestibular. Como sabem, 'evoluímos' por 3.500 anos, aproximadamente, para 240 caracteres, mas essa é outra história.

Falando nisso, no Dia Internacional da Mulher, outra figura que é mesmo muito lembrada é a Eva, como a primeira da série. Pois vejam que injustiça, até com Deus e a Bíblia: a primazia foi Lilith. Embora a Bíblia - versão final - não a nomeie (que só acontece em textos que ficaram de fora da 'antologia'), é claro que ela surge junto com Adão, do mesmo material. 

"Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. Deus os abençoou: Frutificai - disse ele - e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a." (Gênesis, 1: 27-28). Aqui, um pitaco: se entendi bem, só o homem é semelhante a imagem de Deus. A mulher, por assim dizer, teve uma pegada mais artística... Explica muita coisa!

Ah, mas essa é a Eva, né não? Pois não é! Se fosse, porque lá na frente, no capítulo 2, versículo 18, Deus dá uma olhada naquele sujeito meio largadão e diz "não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja adequada"? O resto você já conhece, o negócio lá da costela (sic). Ora, por que Adão estaria sozinho se no versículo anterior a mulher tinha sido criado ao mesmo tempo? Pois é, é aqui que entra um editorzinho safado que faz um corte abrupto na história, mas que alguns historiadores resgataram nos textos apócrifos da Bíblia e onde sabemos da história da Lilith. Eu acho que Deus deve ter mandado uma de suas pragas por conta do acontecido e deve ser por isso que os roteiristas - mesmo tendo muito mais importância na contação de uma história - tem os nomes discretos nos créditos.

Pois então, o que se sabe é que a menina se rebelou quando Adão quis dar uma de machão pra cima dela. Segundo um dos textos, de uns mil anos antes de Cristo, já rolou uma DR de cara:

Lilith já queria negociar posições: - Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que ser dominada por ti? Adão retrucou: Eu não vou me deitar abaixo de você, apenas por cima. Pois você está apta apenas para estar na posição inferior, enquanto eu sou um ser superior. Lilith jogou um galho de oliveira na cabeça do Adão: Nós somos iguais um ao outro, considerando que ambos fomos criados a partir da terra.  Eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual. E deixou Adão falando sozinho. Adão foi chorar com o papai: Soberano do universo! A mulher que você me deu fugiu!.  Deus queria conciliar, ainda não entendia essa coisa de ser pai - e até ofereceu uma barganha, um apartamento no condomínio celeste já que ela não aceitava ficar na Terra nas condições que lhe propuseram. Lilith não topou, mandou que os três anjos que vieram trazer o recato enfiassem o tal ap em lugar pouco santo e foi tratar da sua vida, que tinha mais o que fazer. Foi amaldiçoada a ter cem filhos mortos por dia (daí viria nossa mortalidade). Eva, portanto, foi o plano B ("vamos tirar do próprio homem, pra ver se agora dá certo"), o que também parece não ter funcionado 100% como planejado, já que ela nos apresentou o fruto do Conhecimento e deu no que deu. 

E vocês sabem como ficam mal faladas as mulheres que deixam os homens falando sozinho, não é? A partir daí, a moça vira demônio em uma série de mitologias, principalmente naquelas feitas para perpetuar a opressão dos homens sobre as mulheres. Os gregos - um tico apenas menos machistas - até que deram uma colher de chá e há quem diga que Lilith é a deusa Hécate, que ajudava a tomar conta do mundo dos mortos, mas tinha trânsito livre cá e lá. Afinal, ela era uma espécie de patrona da vida noturna e a expressão da beleza sedutora e da rebeldia da mulher sobre o homem. Ou seja, tinha uma vida social agitada.

Lilith e Eva, vítimas do mesmo filho mimado. Detalhes dos quadros de John Coulier (1887) e Albrecht Dürer (1507)
 

A história da Lilith não é exatamente desconhecida, muita gente já escreveu e falou sobre sua mitologia. Até Erasmo Carlos, na sua clássica Mulher, relembra do barro de que você foi gerada, e não da costela masculina. O que também nos remete de que devemos aproveitar a analogia para defender, como nos lembra Vera Iaconelli, de ter cuidados redobrados quando falamos em comportamentos 'específicos' das mulheres, quando um elogio, na realidade, se parece com uma prisão. O fato de que os gêneros terem distinções biológicas reais, e que elas, de alguma maneira, ajudaram na determinação social e cultural, não nos autoriza a autorizar a promiscuidade e violência masculina como algo natural, nem em dizer que as mulheres são multitarefas já na largada e, assim, podem trabalhar mais. Como Litith esfrega na cara de Adão, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual, biologia não determina comportamento, que é construído e marcado - na maioria das vezes, com a violência de um ferrete em brasa, como gado. Mulheres podem ser promíscuas e violentas como os homens, mas para uma ficou a detratação moral, enquanto para o outro, o orgulho. Da mesma maneira, a multitarefa seria algo nato e natural para uma e alienígena para outro. Então, combinemos: não é! São apenas discursos para perpetuar uma condição de opressão. Até Eva percebeu isso e, quando ofereceu o fruto do Conhecimento, acreditou que o seu companheiro irá clarear as ideias. Pelo jeito, seria preciso comer a safra toda!

Toda essa mitologia apenas mostra como a vida das mulheres nunca foi fácil, sempre lutando contra a prepotência, a violência física, social, cultural e histórica, enfim, a misoginia dos homens, temerosos em dividir ou sempre subjugados. As heroínas que ilustram esse artigo é uma demonstração do seu poder enquanto líderes da espécie - mesmo porque o outro já quase a extinguiu algumas vezes. Infelizmente, a resistência continua sendo muita, e cruel, e injusta. Daí a importância desse dia, para que lembremos sempre de que todos nós somos pó, e ao pó retornaremos, mesmo que para elas o período intermediário seja de mais luta para assegurar o que lhe é de direito.

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