Os loucos anos 2020

A Humanidade tem crise de meia idade a cada 100 anos? Imagens: Pixabay
A História, aquelas partes importantes, acontece duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Foi o que escreveu Karl Marx, melhorando o que tinha dito Hegel quando esse alertou que fatos e personagens ilustres costuma ocorrer duplamente na nossa linha do tempo. Particularmente, acho um pouco de exagero, mas é fato que a gente olha para algumas coisas acontecendo e temos uma sensação de déjà-vu do mal, um pesadelo recontado como uma piada sem graça, e pelo tio do pavê! "A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos".  Aliado a isso, alguns visionários de buteco ainda acrescentam que todo início de século, o tal fenômeno de looping histórico é ainda maior, mostrando o quanto a Humanidade anda em círculos.

Bom, eu não acredito nisso, acho que estamos mais para uma espiral que, de fato, nos deixa meio tontos (ou já somos meio tontos, e nos colocamos numa espiral? Vá saber...). Acho essa história da história se repetir, assim quase que literalmente, meio forçada. Como quando a gente lê horóscopo e coage o que está rolando em torno para encaixar naquela frase que, convenhamos, combinaria com qualquer outro crente. Ou seja, estaria mais para a gente adaptar a ocasião à frase de efeito, do que analisarmos com mais clareza as diferenças.

Mas daí recebo minha edição da revista Aventuras da História e a capa são "Os Loucos Anos 20", referente, claro, aos anos de 1920. Como não há dúvidas que estão vivendo anos loucos (morte por sarampo? governo militar como opção? paraguaio prendendo brasileiro por falsificação?), li a reportagem para ver se o velho comunista tinha razão nessa. E, uhhh, é de arrepiar algumas analogias! Será que a gente pode aprender com elas, vendo o que a turma de 100 anos atrás fez de certo e de errado?

A reportagem, de Alexandre Carvalho (ed. 200, jan/2020), já abre com uma preocupação para a gente: "o mundo decidiu que era hora de festa e glamour, a era do jazz foi marcada pela busca de prazer". Se tirarmos o jazz e colocarmos o funk, é certo que estamos vivendo uma época hedonista, individualista, onde o prazer e o escapismo imediatista está à frente das questões sociais. Como em 1920, tal estratégia também quer sufocar as angústias contemporâneas, a desilusão com o status quo, que mostrou a sua cara e disse algo como "não nos importamos com a vida das pessoas comuns - como tolamente vocês acreditavam - e elas são apenas massa de manobra para nossos ganhos enquanto governos políticos e econômicos".

Claro, aqui entraria a primeira licença poética do crente em horóscopo. Afinal, as situações históricas são bem diferentes: não vivemos uma guerra mundial extremamente sangrenta como aquela primeira! Ela foi tão cruel, tão desnecessária, tão assassina que até os artistas e cineastas tinham, até recentemente, dificuldade de retratá-la (assista 1917, angustie-se e ainda assim não terá visto atrocidades como a invenção da guerra biológica, tão terrível que até nas próximas guerras foi proibida). Assim, não dá para comparar com esse século.

Mas é inegável, num novo mundo onde morre mais gente que tira sua própria vida do que por morte violenta, que estamos vivendo um período de desnorteamento, como nossos antepassados. Se não confiamos em ninguém, o que nos resta enquanto sociedade? Se aqueles que deviam cuidar de nós estão mais preocupados em seus ganhos, o que devemos fazer (já que não temos como tirá-los de nossa cacunda)? Uai, então vamos ao circo, ao sexo, ao prazer desmensurado, e dar uma banana para o futuro. O importante é o agora!

Mas, vá lá, nem só de repetições ruins.  "Encontramos as jovens de 1920 flertando, beijando, enxergando a vida com leveza, e xingando sem nenhum rubor" é a frase que Alexandre lembra de F. Scott Fitzgerald quando refere-se as modernas mulheres daquela época. Foi também o período da emancipação feminina. E não é isso que vivemos agora? Nossa produção cultural nunca esteve tão engajada em mostrar o empoderamento feminino. O problema é que... ora, se começou em 1920, porque retornar agora? Por que o tal empoderamento do Séc. XX sofreu grandes revezes ao longo do século, e a sociedade machista conseguiu retornar as rédeas (outra série para ver isso claramente: Mad Men, no Netflix). Portanto, que nos sirva de lição: o atual empoderamento das mulheres não é garantia de sua evolução. Os dados de feminicídios no país, que teimam em não baixarem, demonstram isso. Aquelas mulheres viviam um período de escassez masculina no cotidiano e no mercado de trabalho, dado os milhões que morreram na guerra. Portanto, ocupavam espaços. Passado o período, os homens retornaram seus postos e escanearam, novamente, as mulheres, que lutam - em geral, ainda em desvantagem, para conseguirem se colocarem enquanto cidadãs com os mesmos direitos.

Houve também uma valorização das diversidades, espelhada em figuras emblemáticas como Josephine Baker. Mas, como agora, assim como as mulheres, me parece que os gritos da comunidade LGBT+ têm mais a ver com a perda, com a opressão, com a falta de igualdade, do que de rebeldia, como se caracterizou os anos 1920.

Outra característica era a ascensão dos EUA como nação que ia mandar no pedaço, já que a única das grandes que teve poucos prejuízos com a guerra. Ao contrário, graças a isso, virou credor de, literalmente, todo o mundo. Seria a China o novo EUA? Vai aí uma observação e uma torcida: a observação é que, nos anos 1920, os EUA estavam praticamente sozinho na parada, e hoje a China, mesmo que muito forte, ainda tem outros competidores, como os próprios EUA, a Comunidade Européia, o Japão, a Coreia. Já a torcida é que não seja mesmo: afinal, todos sabem o que aconteceu com os EUA em 1929! Imagina a China quebrar?

Faltam-nos, também, as referências culturais dos anos 1920: não temos um estilo de música e nem Paris como lugar idílico. Não é necessariamente ruim não termos uma música global (chegamos a ter algumas no Séc. XX, do Jazz, ao Rock, ao Pop), pois mostra que essa manifestação artística tem se voltado para as culturas locais, o que é ótimo, um ponto a menos para uma globalização acachapante. E quanto a capital francesa, embora continua linda e desejável, com a mundialização do terrorismo e de doenças como o novo coronavirus, vá lá, perdeu um pouco do seu charme. Viajar continua sendo legal, mas os destinos variam conforme as questões, principalmente econômicas, mas também sociais, de oportunidade, de políticas locais de turismo.

Já o cinema, esse sim, parece repetir os loucos anos de 1920: "Era o começo da era de ouro da sétima arte, quando Hollywood se firmou como a meca dessa indústria - e uma máquina de fazer dinheiro", escreveu Alexandre Carvalho. Provavelmente frutos do mesmo escapismo que os loucos anos 1920-2020 compartilham, a indústria cinematográfica nunca fez tanto dinheiro! Enterrado algumas vezes (quando surgiu a televisão, quando surgiu o videocassete, quando surgiu a internet), o cinema se reinventou em todas as ocasiões e, assim como no início do Séc. XX, aproveita da evolução tecnológica para se aprimorar tecnicamente, se levar a mais lugares que antes não alcançava, assim como nos levar aonde queremos sonhar (já que o tal pesadelo lá de fora bate às portas). A pequena diferença, talvez, está na troca dos consagrados artistas, primeiro chamariz de um letreiro, para o das franquias: sai Rodolfo Valentino e Clara Bow, entram Star Wars e Marvel.

Vivemos uma revolução tecnológica como em 1920. A diferença é apenas dos métodos de produção: sai a linha de produção e entra a linha de informatização. Como naqueles tempos, objetos de desejo, antes restritos à elite (carros, eletrodomésticos), agora (smartphones, clínicas de saúde) viram acessíveis (e consumíveis) por grande parte da população, mas comprometendo-a fortemente com o sistema de crédito, com os bancos, enfim.

Parece que início de séculos são determinantes para a Humanidade dar um upgrade, deve ser os tais números zeros que só existem mesmo na nossa imaginação. Segundo meus amigos historiadores, Caetano Bonfim e Alexandre Montanha, essas viradas têm um quê meio místicos mesmo: Séc. I viu os arquitetos e engenheiros romanos, com as novas tecnologias de infraestrutura civil e de guerra, reformularem o que se entendia como impérios, estabelecendo uma nova ordem. A virada para o Séc. XI, a invenção das cidades medievais transformou o ambiente e as relações sociais, políticas e econômicas.  Pois os anos 1920 viu um boom de novos equipamentos e serviços utilitários que criou um consumismo que mudou o cotidiano do planeta. Tudo graças ao desenvolvimento de uma tecnologia iniciada no meio do século anterior, consolidada no final do mesmo século, mas que revoluciona o mundo mesmo só no início do século vigente. Pois é, antes a eletricidade, agora a internet. A frase do Alexandre, "A combinação de dinheiro a rodo circulando na economia com tomadas nos cômodos foi um estímulo à imaginação dos inventores - que começaram a colocar fio em tudo" bem que pode ser agora algo como "... com wifi no cômodos foi um estímulo a imaginação dos desenvolvedores (os inventores modernos) - que começaram a colocar bluetooth e wireless em tudo".

Alexandre Carvalho destaca também o impacto que as novas tecnologias tiveram na indústria cultural, com os primeiros jukeboxes, a TV a cores e o cinema falado. Pois bem, hoje o jukebox está no smartphone, a TV é a la card e digital, e o cinema popular é quase todo feito no computador. O jornalista lembra que também foi uma época de aventuras, do tipo, até onde podemos ir. Acabávamos de afeiçoar o avião e agora era disputar quem chegava mais longe com ele. Pois não é que, depois de um tempo considerável desiludidos com a fronteira final (essa é para fãs de Jornada nas Estrelas, sorry!), não estamos em nova corrida espacial? Empresas privadas brigam e se unem a Nasa e outras organizações espaciais públicas para ver quem chegará em Marte primeiro. É possível enxergar um planeta habitável? Voltando à Lua em 10, 9, 8....

Fico aqui pensando se mudança de séculos é uma espécie de crise de meia idade da Humanidade... Tipo, aquele sujeito maduro que muda a trajetória de vida, mas que resolve pular de paraquedas também! Uma espécie de adolescente tardio.... Vá lá, vai ver que funciona assim mesmo!

Continuando: Alexandre Carvalho escreve da Lei Seca e que as consequências foram exatamente o contrário que ela queria. Será que estamos vendo isso com as drogas, em especial a atual discussão da descriminação da maconha? Bem, naquela época, liberaram... Também escreveu sobre as bolhas econômicas, e suas explosões. Já tivemos algumas e, no momento que escrevo esse artigo, a bolsa despencou 10%. Mas, nada de pânico: as bolhas de lá resultaram na II Guerra Mundial. As daqui, imagino, só têm gerado políticos ruins e economias que mantêm a desigualdade social, nenhuma causa que atrapalha o sono dos ricos. Então, fica como está!

Quanto ao Brasil de cem anos atrás, acho difícil, mas vai que... é que em 1922 a Semana da Arte Moderna "entrou em choque com o conservadorismo cultural do país", lembra Alexandre. Vamos combinar que é difícil termos um período mais conservador para as artes do que agora, não? Será que teremos um movimento nesse sentido? Mas, se naquela época tínhamos como capitão do conservadorismo um mestre como Monteiro Lobato, não dá para comparar com Olavo de Carvalho (torço para não ser parente do Alexandre). Por outro lado, se lá tínhamos Anita Malfatti, seria a nossa Anitta a puxar nossa revolução cultural? Ah, as músicas de Anitta ferem sua sensibilidade? Os poemas modernistas também feriam as sensibilidades do público, assim como Heitor Villa-Lobos.

Já a vida econômica e política, espero, só guarde semelhanças na primeira. Afinal, continuamos dependendo da agricultura e, imagine, ainda do café e da carne, os mesmos produtos da república café com leite. Agora acrescidos da soja, do açúcar e do suco de laranja. Ou seja, continuamos garantindo o café da manhã da Humanidade há um século. Com a crise da mineração e a falta de investimentos em pesquisa, nos loucos anos de 2120 ainda estaremos nessa pauta. Mas o que preocupa é o estado beligerante que tomava conta dos quarteis naquela ocasião: movimento tenentista, Coluna Prestes.... Não tem uma turma falando em movimentos militares? O que me deixa um pouco mais aliviado é que eram movimentos com preocupações sociais, daí...

Por fim, vale como exercício o comparativo, mas vale também para tentarmos ver até onde podemos repetir a tragédia ou construir uma nova farsa. Ou talvez entendermos que os tempos loucos que atualmente vivemos talvez façam parte dessa loucura que é Ser Humano. Em algum momento, talvez tenhamos construído uma certa ilusão que façamos sentido. Esses anos, e comparativos pretensiosos como esses, nos mostram que devamos ter mais humildade e lembrar que nossa espécie pode ser inteligente, mas que também já deu mostras que é burra de dá dó! É só dar tempo ao tempo...

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