Castelo Rá-Tim-Bum: 20 Anos de Revolução

 
Sim, a palavra revolução é quase correta, embora há tempos atrás não pensava assim. Digo isso para diferenciar evolução, que é a continuidade de algo que está em um crescendo, da revolução, que é a quebra de paradigma.

Pois bem, Castelo não surge do nada e é herdeiro de outras produções voltadas para as crianças daqueles tempos, o que fortalecida a ideia de evolução. Só para ficar na TV Cultura, o Bambalalão e o antecessor Rá-Tim-Bum já eram herdeiros de uma tradição que tem como melhor exemplo o Vila Sésamo. Ou seja, programas para as crianças com o duplo desafio - conseguido, nestes casos, com sucesso - de unir bom entretenimento com a construção e/ou consolidação de conhecimento sem desprezar a criança como um sujeito inteligente, sem buscar a solução fácil da infantilização. Hoje, com a distância do tempo, percebe-se que Castelo foi um importante instrumento para repensar os conhecidos programas "loira+auditório+desenhos" a ponto deles serem extintos gradualmente.

Castelo virou uma referência de programa infantil nacional para aqueles que produziam programas para criança. Qualquer novo roteiro dos novos programas infantis deveria ter preocupação na formação daquela audiência, ao mesmo tempo que a divertia, sintonizado com as questões éticas, emocionais, de desenvolvimento cognitivo e racional daquela faixa etária, sem esquecer as nossas peculariedades culturais. Qualquer nova produção, e os seus profissionais envolvidos, começou a usar o Castelo como referência do que devia ser feito, inclusive na valorização destes próprios profissionais, como os pedagogos e comunicadores preocupados com a educação.

O problema - e há sempre um problema - é que fazer um programa deste tipo é muito mais caro e trabalhoso do que ligar as luzes de um auditório, colocar uma apresentadora para fazer gincana e comprar pacotes de desenhos. Assim, Castelo e seu modelo ideal também ajudou a desanimar as emissoras comerciais, que desistiram de sua programação infantil - por não conseguir ou querer seguir seu caminho - e deixou essa tarefa para produtores que vendiam seus produtos para os canais a cabo.

Assim, foi realmente uma revolução que, ao final, não deu certo. Se fosse evolução, suas consequências estariam nas grades de programação das emissoras, o que claramente não acontece.

O sucesso e a audiência
O sucesso não depende dos índices de audiência, mas da história que fica. Quem se lembra do nome da novela da Globo que deu mais audiência nestes 20 anos? Agora, pergunte sobre Castelo Rá-Tim-Bum para essa mesma geração. Muitos sequer viram um número expressivo de episódios, principalmente em estados onde o sinal da Cultura não era presente, mas ainda assim Nino e a turma do Castelo fazem parte do imaginário. Porque isso? Porque diziam diretamente para a essência daquelas crianças e adultos daquele tempo e de tempos depois, e é isso que fica.
No entanto, é um pouco exagerado enaltecer o programa como um instrumento que moldou a educação das crianças de sua geração.  Isso é difícil de dizer, pois deveríamos entrar em acordo antes sobre o que é educação. Se formos pensar a educação apenas pelo seu quesito formal, o que se trata dentro das escolas, é certo que Castelo, quanto aos seus propósitos educativos, foi feito para uma criança paulista já com um determinado nível de educação formal que se esperava de uma criança paulista média naquela ocasião. Ou seja, era um programa para crianças iniciadas. E, portanto, bem longe da realidade no restante do país. Eu mesmo, só recentemente, vendo uma palestra do Hélio Zinskind, criador das músicas mais marcantes do Castelo, que eu entendi a lógica do quadro Pianola, uma concepção sofisticada de como entender a linguagem da música. E, mesmo assim, não me peça para que eu explique, porque não vou conseguir... Para ter certeza desta contribuição na educação destas crianças, somente com pesquisas, e desconheço trabalhos nesse sentido.

No entanto, se pensarmos em educação como um crescimento e um aprimoramento daqueles que estão expostos àquela informação no sentido de sua melhor integração à sua sociedade - embora também precisaríamos de pesquisas que confirmassem a impressão - Castelo foi educativo em diversos sentidos, construindo o imaginário desta e outras gerações quanto, no mínimo, o que deve ser um bom programa de televisão para criança. Me parece que muitos daqueles com quem conversamos sobre Castelo têm histórias de lembranças emotivas sempre associadas não às diversões clássicas - o engraçado, o insólito e o nonsense -, mas a algum tipo de conhecimento construído: a música do banho, as personagens de nossa cultura, a busca do conhecimento, a ciência e a arte, as relações de amizade, as histórias etc. Mesmo Castelo sendo farto em graça, nonsense e situações insólitas.

Porque somos tão saudosos por um programa de TV? Somos saudosos daquilo que idealizamos e que, ao mesmo tempo, não faça parte da realidade. Castelo faz parte do imaginário deste mundo ideal e lúdico, que faz parte da nossa busca pelo paraíso, esse lugar que nunca alcançaremos, mas nunca deixamos de tentar chegar. Castelo nos permite exercitar nossa síndrome de Peter Pan, um lugar em que nunca crescermos, mas, ao mesmo tempo, também não deixamos de aprender. Isso não seria maravilhoso? Deve ter outras explicações que psicólogos e pedagogos teriam mais competência do que eu para elencar. Prefiro, então, somente pensar que era um programa básico, com ênfase apenas no que é básico em ser criança - curiosidade natural, encantamento pelo mundo, necessidade do e pelo outro, diversão - e respeitando inteiramente a inteligência da criança. Não esquecemos Castelo da mesma maneira que não esquecemos e não deixamos de amar aquele avô, tio ou professor que era nos tratava como um igual, nos ensinava lições de vida e, ao mesmo tempo e principalmente, era muito divertido ao fazer isso.
Castelo Rá-Tim-Bum poderia ser refeito e ter o mesmo sucesso? Castelo foi feito e idealizado para aquela geração, naquele tempo. No entanto, não tenho dúvidas de seu sucesso hoje desde que, assim como naquela ocasião, fossem respeitadas as questões contemporâneas, mas nos detalhes, não na essência do programa.


Os programas infantis da TV: teoria e prática para entender a televisão feita para as crianças parte de uma pesquisa comparativa entre Castelo Rá-Tim-Bum, TV Xuxa e Angel Mix para entender o que é um programa educativo.
Ed. Autêntica, 2007.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Espaço: a fronteira final

Educação é Pop!

Há esperança!